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De Março a Abril…

Este ano de 2014, extremamente chuvoso, não impediu que se festejasse a primavera escrita com duas palavras que escondem milhentas sílabas por alinhavar e outros tantos segredos por desvendar: Mulher e Poesia.

Também a chuva, o vento, o céu cinza, cinza bem carregado não serão obstáculos para que abril entre, manso e triste neste país adiado, desesperado, desiludido, envelhecido e vilmente entregue à ditadura sem rosto do mundo financeiro.

Abril que foi esperança e sonho duma geração que lutou em África e viu as caixas de pinho com estilhaços de corpos que as mulheres mães eram proibidas de chorar em público, ali no cais de Alcântara, lá para sul…

Abril que nos prometeu que este chão daria paz e pão a todos os seus filhos sem partirem para reconstruir outras cidades e outros países pertença de outras gentes.

Abril que nos permitiu cantar nas ruas e chorar de felicidade porque ” futuro” tinha três sílabas para todos nós.

Abril que seria primavera e poesia e mulher vestida de Liberdade. Neste março que trouxe abril deixou-nos Fina d’Armada. Foi a enterrar no dia que dizem ser o dia da mulher.

Fina d'Armada
Fina d’Armada

Josefina Teresa Fernandes Moreira, mais conhecida como Fina d’Armada, nasceu na Quinta d’Armada, freguesia de Riba de Âncora, concelho de Caminha, em 1945.

Licenciada em História pela Universidade do Porto, em 1970, foi equiparada a bolseira pelo Instituto Nacional de Investigação Científica (1977-79), para escrever sobre história das mulheres, na altura algo pioneiro. Tem um mestrado em “Estudos sobre as Mulheres” da Universidade Aberta, Lisboa.

Começou a escrever aos 16 anos, no jornal “Aurora do Lima”, Viana do Castelo. Tem 1.017 (mil e dezassete) artigos em 28 periódicos nacionais e estrangeiros. Destaca-se “Jornal de Notícias”, de 1969 a 1984, crónicas semanais em “O Comércio do Porto”, de 1987 a 1991 e de 1995 a 1999 e ainda revista do “Expresso”, oito artigos sobre “As mulheres e as Descobertas” entre 1994 e 1998.

Com um “dom” para investigar, tem produzido obras com dados originais na área da História das Mulheres, Fenomenologia, História Local e dos Descobrimentos.

É autora de 10 obras individuais e de 30 em coautoria. Quatro das obras escritas com Joaquim Fernandes estão traduzidas.

A sua obra Mulheres Navegantes no tempo de Vasco da Gama, “90% original”, recebeu o prémio “Mulher Investigação Carolina Michaëlis de Vasconcelos, 2005“.

O seu último trabalho, vindo a lume no Natal de 2008, é o romance histórico “O Segredo da Rainha Velha“, já em 2ª edição. Dizem ser o primeiro romance histórico escrito por uma mulher portuguesa.

Elaborou ainda prefácios, apresentações de livros, conferências e é membro de diversas organizações literárias e de mulheres. Foi incluída na “Antologia de Poetas do Alto Minho“, de Laureano Santos, 1987, no “Dicionário de Mulheres Rebeldes” de Ana Barradas, 2006, e no “Dicionário Internacional de Arte e Literatura“, 2007 (Espanha).

Quis ficar no panteão da sua terra natal, ali, no lugar que foi  o seu berço.

Conheci a mulher luta, a mulher arma e a mulher poesia. Era minha vizinha e eu sou admiradora desta alma enorme que rejeitou vaidades merdosas de gentinha de segunda classe e não precisou de honrarias bafientas para ser grandiosa mesmo depois da morte.

É de sua autoria este poema que vos deixo :

O SONHO QUE VINHA

O sonho não vinha
para que sonhos em mim não brotassem
e do mar da vida madrugadas não chegassem.

Noite de negro, multidão sem rosto,
que só do visível o pensamento tinha,
surgia na luz e dizia e escrevia…
E o sonho não vinha.

O sonho não vinha
nem vinha a esperança vestida de verde,
como se do mar da vida já nada viesse.

Mas do nevoeiro, da bruma, chegaste à noitinha
indefinido, encoberto, sem rosto nem voz.
Trazias teus sonhos, engenho, trazias asas,
trazias sol, ternura, calor de brasas,
devaneio, recomeço, nas mãos madrugada
com estrelas, com vida em poesia enlaçada.

Sem forma nem cor como todos os sonhos
tu eras afinal… o sonho que vinha.

(Set. 2000

“trazias sol, ternura, calor de brasas”…)

Ai minha amiga como o sonho chegou e soube a pouco  e esteve tão perto de ser realidade… quando Abril bateu à nossa porta, já lá vão 40 anos!

E aí está abril, um abril tempo de escravidão e de incerteza, e como diria Sophia de Mello Breyner, “tempo de coniventes sem cadastro”, abril de mentira, de apertos de mãos badalhocas cheirando a podridão e compadrio.

E porque ser poeta é ver mais longe e ouvir mais alto as dores que se aproximam, deixo-vos com a carta  que uma outra mulher  escreveu há 21 anos:

Natália Correia
Natália Correia

“A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista”.
“A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!”

“Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente”. “Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica”.
“Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão”.
“Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?”
“As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir”. Natália Correia
(Lisboa, 16 de Março de 1993. Todas as citações foram retiradas do livro “O Botequim da Liberdade“,)

Quase posso afirmar que nenhuma destas grandes mulheres quereria ficar no Panteão Nacional, onde não há túmulo onde caiba a poesia, onde os poetas não sentem o cheiro a maresia que nos levou a construir novos mundos e a parir novos povos,  onde hoje, os turistas olham as pedras e as levam na máquina fotográfica sem acreditarem que são portugueses os corpos aí sepultados e onde heroicos fantasmas esperam a hora de se Cumprir Portugal.

E eu continuo a acreditar que os Condes Andeiros que por aí se pavoneiam não chegarão nunca a saber o gosto da Liberdade. Nem conhecem a força das palavras: Mulher e Poesia.

Até breve, amigos, tentem sorrir!

Sophia de Mello Breyner
Sophia de Mello Breyner

ESTE É O TEMPO

Este é o tempo

Este é o tempo

Da selva mais obscura

 

Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura

 

Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura

 

Este é o tempo em que os homens renunciam.

 

Sophia de Mello Breyner, in “Mar Novo” (1958)

 

EM ABRIL, A POESIA ANDARÁ POR AÍ…

Dia 2Centro de dia da Arrábida-Lordelo do Ouro-15h00

Dia 5Casa da cultura de Paranhos-16h00

Dia 5Centro recreativo de Mafamude-22h00

Dia 11Museu Mineiro, S. Pedro da Cova – 21,30h

Dia 12Biblioteca de Gondomar-16,30h

Dia 12Encontro com a pintura, Vizela-21,30h

Dia 23Biblioteca de Fânzeres -21,30h

Dia 24Casa de Gramido, Gondomar-21,30h

Dia 25Baião-15h – auditório e 21h30 -GÔVE

 Fotos: Pesquisa Google

01abr14

 

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2 Comments

  1. Lourdes dos Anjos

    Meu amigo CARLOS MOREIRA, muito obrigada pelas palavras com que mimou .Tenho muito orgulho na minha condiçao feminina e defendo as MULHERES, as VERDADEIRAS MULHERES; contudo, não tenho dúvidas nenhumas que , nos dias que passam ELAS escasseiam e o que por aí se vê são paus de vassoura que vestiram de senhoras, ornamentadas para ir á caça de sexo na selva ,sem condições humanas e morais para sentirem as dores de parir e a alegria de amar os filhos que carregamos na alma muito para além da vida .MUITO OBRIGADA.

  2. Carlos Moreira (Marinha Grande)

    Excelente trabalho, junto de outros trabalhos de qualidade apresentados pelo “Etc e Tal Jornal”.
    A senhora, a Mulher, escreve e enaltece as Mulheres. Hoje em dia é preciso ter coragem para ser Mulher e enaltece-las. Você é Mulher e à Mulher que dá pelo nome de Maria de Lourdes dos Anjos, os meus parabéns, pela coragem e pela frontalidade.
    A toda a equipa deste jornal, e ao seu diretor… a minha vénia como democrata.
    Obrigado!

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