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Feios, porcos e maus

Maria de Lourdes dos Anjos

No distante ano de 1891, sobre “Portugal e a Crise”, Eça de Queiroz escrevia: “Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más, mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e caráter, nem dinheiro ou crédito.

Hoje, crédito não temos, dinheiro também não, pelo menos o estado não tem e homens não os há ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior e sem cura”

Perante estas palavras tão atuais em 1891 como em 2014, fico a pensar que este país continua a ser um Portugal dos pequeninos habitado por uma maioria de feios, porcos e maus. As notícias vão caindo e nós abrimos a boca mas ficamos completamente emudecidos, pálidos, muito pálidos, sem pinta de  sangue, e pedimos para nos beliscarem porque receámos estar mortos, moribundos, sonâmbulos ou apenas anestesiados. E afinal é tudo nosso…tudo produto nacional, ainda que não seja nada de boa qualidade.

Prestem atenção senhoras e senhores…

O antigo comandante da Proteção Civil, Gil Martins, gabou-se  em tribunal, de ter podido gastar até 80 milhões de euros, quando estava em funções, sem obrigação de prestar contas a ninguém.

A declaração indignou uma das juízas do coletivo das varas criminais de Lisboa que está a julgar Gil Martins pelos crimes de peculato e falsificação de documentos: “Mas passa pela cabeça a alguém dizer isso?!”. O antigo comandante é acusado de ter desviado cerca de 118 mil euros dos fundos do dispositivo de combate a incêndios para pagar despesas suas, de familiares e de amigos, 70 mil dos quais gastos em refeições, muitas delas em restaurantes de luxo”.

Gil Martins
Gil Martins

Tudo se terá passado entre 2007 e 2009, período em que foi reembolsado pela Proteção Civil de inúmeras despesas alegadamente feitas ao serviço. Confrontado com o facto de ter feito, segundo o Ministério Público, seis refeições no mesmo dia à custa do erário público, em locais tão distintos como Coimbra, Espinho, Aveiro e Cadaval, o arguido limitou-se a dizer não estar certo de todas as despesas serem, efetivamente, suas – embora assuma algumas delas: “Se eram restaurantes caros? Eram, se fossem comparados com a tasquinha da esquina”.

Doutra vez, num restaurante do Guincho, foram mais 210 euros. “Mas era dinheiro dos contribuintes! Por que razão serviu para pagar este tipo de refeições? Gastava o que quisesse, sem limite nem preocupações?”.

À pergunta da juíza, o antigo comandante respondeu pouco depois: “Numa marisqueira de Espinho, só de uma assentada foram 348 euros.O meu teto de despesa eram 80 milhões de euros. Com um estalar de dedos, sem ter de justificar nada a ninguém”.

Porreiro , pá!

Em causa está ainda a compra de telemóveis, cada um deles no valor de centenas de euros. Entre outras coisas, os juízes quiseram saber por que motivo foi necessário a Proteção Civil pagar ao motorista de Gil Martins um aparelho de mais de 400 euros – o que causou alguma estranheza ao arguido, que encara esta e outras despesas com naturalidade. Claro, clarinho como água benta…

Nas buscas à casa da ex-mulher de Gil Martins foi descoberta uma máquina fotográfica de 1400 euros, um televisor LCD, uma câmara digital e um leitor de DVD, entre outros artigos. Tudo também pago pela Protecção Civil, e adquirido sem concurso público. O antigo comandante alega que se tratava, na sua maioria, de equipamento do qual precisava para trabalhar. Sem dúvida nenhuma, amigo!
Num armazém que a Proteção Civil tinha na Base Aérea de Sintra as autoridades encontraram mais equipamentos – televisores e computadores. Diz a acusação que os mandou comprar para proveito próprio. Gil Martins nega-o e explica que era ali que iria funcionar, em caso de haver um sismo em Lisboa, um posto de comando de retaguarda da Proteção Civil, razão pela qual nenhum dos equipamentos tinha sequer sido usado. “Foi tudo comprado baratinho”, justificou o honrado cidadão…

E agora? nem sei se isto é feio se é porco ou se é mau…

Garcia dos Santos
Garcia dos Santos

General Garcia dos Santos demitiu-se de vogal do Conselho das Ordens Nacionais, em sinal de rutura aberta com o Presidente da República, que o havia convidado para o cargo em 2011.
Para Garcia dos Santos, Cavaco Silva, sendo “um cobarde e uma nulidade completa”, “é o principal culpado pela situação do país”. Isto não se diz do esposo de Maria…francamente senhor general!

E a isto o que chamo, feio,  porco ou mau?

No Parlamento, os senhores deputados não esperaram pela aclaração para repor os seus sagrados e merecidos salários.

Pois…o Governo tinha muitas dúvidas, e a coligação PSD-CDS impôs um pedido de aclaração, para que o Tribunal Constitucional explicasse, exatamente, como devia ser aplicado o acórdão que chumbava os cortes nos salários dos funcionários públicos. Curiosamente, no mesmo dia em que os deputados da maioria falavam grosso ao TC, desafiando os juízes a “não desertar” e a “não fugir às suas responsabilidades”, o mesmo PSD e CDS davam luz verde a que o Parlamento repusesse de imediato, sem margem para dúvidas, os salários dos deputados e dos funcionários parlamentares.
E isto, é feio porco ou mau?

Paulo Morais
Paulo Morais

Esta semana, no “Portugal Glorioso”, Paulo Morais escreveu: “A construção da Barragem do Tua será trágica para Portugal. Coloca em causa esse património milenar que é o Douro, além de que economicamente é um investimento desastroso para o País. Mas como interessa à EDP, que é um verdadeiro estado dentro do estado, provavelmente irá mesmo avançar.

Ao permitir que se coloque em risco a marca Douro Património Mundial, o governo português envergonha-nos na comunidade internacional. Portugal é referenciado como um dos países que desdenham ou destroem património, como os talibans que no Afeganistão destroçaram os Budas gigantes, ou até como o Mali, onde se demoliram templos milenares.
Com a construção da Barragem do Tua, permite-se a depreciação patrimonial duma região demarcada, aliena-se procura turística de altíssima qualidade, desvaloriza-se o Vinho do Porto. Inexplicavelmente, os dirigentes políticos que tantas medidas justificam a troco duma imagem externa positiva de Portugal ficam mudos e quedos perante esta atrocidade”. Ainda por cima, todo este prejuízo é provocado por um negócio calamitoso…

Isto é mesmo muito mau, ou será porco?

Depois, em nome do pai, do filho, do primo e  do espírito santo, há uma santa guerra na sagrada família de banqueiros e outros operários da crise… e vai daí:

Há desfalques de pelo menos 1,2 mil milhões no BESI, mais 5,6 mil milhões no BESA, mas está tudo bem, obrigado. Olha, eu vou ali e venho já. Fica aqui o meu primo a tomar conta da tasca. E se não for este é outro. Primos não faltam. Tios e tias também não. Prisão é para os pacóvios que roubam comida no supermercado para matar a fome. Esta é mesmo uma pintura de gente fina.

A seguir é o Rendeiro que se entregou e bem nas mãos de altos advogados e não se rende a justiça nenhuma e vai sair livre, sorridente, rico e inocente. Tudo cenas de promiscuidade política e financeira própria do filme feios, porcos e maus.

alberto joao jardim

Logo depois e a seguir ao intervalo mais uma peça teatral trágico cómica entre os divinos do PS que levam os outros artistas a sentarem-se nas últimas filas para se rirem um pouco e delinearem estratégias ainda mais sangrentas…

Uma vez mais… feios, porcos ou maus?

E porque não uma viagem até às ilhas?

Alberto João Jardim volta a estar no centro da polémica madeirense. Desta vez, o líder do Governo regional proferiu declarações relativas ao encerramento das urgências dos centros de saúde locais que não agradaram a muitas pessoas, em especial à oposição. “Mais de 90 por cento das urgências, à hora a que foram fechadas, eram para curar bebedeiras”, disse Alberto João Jardim citado pelo jornal Público.

E mais disse o senhor  presidente do Governo regional  que fez questão de explicar que o Executivo madeirense não vai “pagar horas extraordinárias durante toda a noite a médicos, enfermeiros e técnicos de saúde porque há uns indivíduos que resolvem tomar a bebedeira de vez em quando”.

Ele bem sabe quem  é Feio, Porco e Borrachão  e entra pela madeira dentro a trocar o passo.

E finalmente por fim, para acabar… fica o retrato de gente sem valores, sem alma, sem dignidade , sem dinheiro, sem emprego, sem um bom par de estalos na horinha certa, aí pelos 14 ou 15 anos, com muita “inclinação sexual” mas sem preparação para a vida, crescendo numa enorme e porca casa dos segredos  numa produção rigorosamente nacional :

O Daniel, um menino de 18 meses, foi dado como desaparecido numa  tarde de domingo, em janeiro, quando se encontrava numa festa familiar na casa do tio, localizada no sítio dos Reis Acima, na zona alta do concelho da Calheta, acabando por ser encontrado três dias depois por um profissional responsável pela distribuição de água de rega na Madeira entre as sete e as oito horas no meio da floresta.

Quando foi encontrada, a criança apresentava sinais de frio, mas segundo o pediatra que o observou no Hospital do Funchal, estava “clinicamente bem”. Na altura, o médico considerou “intrigante” que o bebé tenha conseguido sobreviver sozinho ao relento durante três dias e noites nas zonas altas da Calheta.

A mãe de Daniel foi  detida pela Polícia Judiciária no Funchal. A mulher terá, alegadamente, encenado o desaparecimento do filho. A suspeita, de nome Lídia Freitas, será presente em Tribunal.

E esta? Nem classifico…

Falta-me apenas falar dos futebóis onde são tantas as pocilgas e tantos os animais a chafurdar nas gamelas que até dá vómitos. Tanta vedeta, tantos milhões, tanto luxo, tanto lixo, tantas tendinites, tantas cabeçadas, tanta porra misturada que são mesmo, sem sombra de dúvida: feios, porcos e maus. Já agora rezem para sairmos deste filme…estou farta, carago!

nao - 01jul14

NÃO!

NÃO, palavras hipócritas, não

nem olhares baixos

nem afagos mansos

como espezinhado cão.

NÃO, caridade, não

nem maldosa caridadezinha

nem  santificada pena,

nem malévola peninha.

Exijo alguma humana dignidade…

ter direitos e cumprir obrigações

Tenho passado e  quero ser amanhã

Sentir hoje o céu imenso

e a pequenez do meu chão

Quero, nas nuvens, semear sonhos

e colher, com suor, o meu pão

Mas, mais luto e raiva, NÃO

nem cama ao relento

nem mesa vazia

nem meninos em sofrimento

nem política oca e fria

nem mentira, nem miséria

nem esmolas que calem a verdade

nem poemas que sejam algemas

que prendam a LIBERDADE.

 

 

01jul14

 

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2 Comments

  1. Lourdes dos Anjos

    Olá Clara boa tarde e obrigada pelo seu comentário Penso que uns são feios, porque sim… outros são maus porque não sabem o que é ser GENTE e enterraram um pedacito de consciência que traziam no ato do nascimento e porcos são realmente todos aqueles que sendo responsáveis por atos políticos tenebrosos que destroem a pátria e o povo, continuam a sua caminhada alegremente, assobiando um hino qualquer talvez o dos banqueiros e companhia e ainda se dizem de consciencia tranquila.UM TRIPEIRÍSSIMO ABRAÇO

  2. Clara Meireles Silva (Setúbal)

    Gostei, sinceramente, de ler o seu artigo.
    Mas +pergunto:
    E os maus, porcos e feios… serão os mesmos?

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