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Momentos, sentimentos, caminhadas…

Carla Ribeiro

1 – Avozinha Isaura

Uma vez mais, troquei o aconchego da minha cama por uma noite junto dos que nos esperam na rua, dos que nela vivem. Está uma noite de chuva, o frio já nem o sinto, e a chuva teima em não parar.

Saí para a rua com a certeza de que tinha tudo o que precisava: uma mão cheia de sorrisos, afetos e carinho para distribuir, e a outra… vazia, cheia de nada! Pensava a cada momento nas pessoas que na rua me esperavam, cheias de frio, fome, esperança, com vontade de receber uma palavra de conforto, um sorriso, um simples “olá!”… um abraço. O contacto com tantas realidades. Nesta, uma marcou sem dúvida a minha noite.

Na lateral da estação de S. Bento, avistei um vulto. Estava ali a dormir uma Pessoa. Abeirei-me e, qual não é o meu espanto, quando reparo que dorme deitada não no patamar superior da escada mas sim ao longo dos três patamares, seguindo o caimento dos degraus. E conheci nesta data a avozinha Isaura, uma Senhora de 80 e poucos anos, que podia ser minha avó, a dormir nuns degraus… com chuva, frio, vento…

Quando ouvi a sua Voz uma lágrima rapidamente correu no meu rosto. Que candura, que voz tão doce… apenas conseguia pensar, que esta Senhora, poderia ser a minha Avozinha, a Avozinha Isaura. E esta voz carregada de ternura, experiencia, está já a viver pelas ruas da cidade há cerca de 15 anos.

isaurinha - relatos

E no meu rosto as lágrimas misturavam-se com as gotas da chuva que teimavam em não parar. O meu coração ficou apertado, parecia que rebentava. Como é possível a Avozinha Isaura aqui a dormir desta forma? Às vezes, penso: que sociedade, temos nós, que não dá, um teto a estas pessoas, uma cama para dormirem? Que foi feito da noção de família?…. Que fazem as pessoas às suas famílias?

E a noite seguiu, mas aquele rosto jamais saiu do meu pensamento, e aquela candura de voz, jamais deixei de a ouvir.Cada vez mais temos uma sociedade consumista, em que os idosos são um peso, um fardo que não querem carregar! Que fazem, hoje, às raízes, às bases da sabedoria, dos ensinamentos?

Cheguei a casa e na minha mente a Avozinha Isaura permanecia…

Adormeci com esta imagem, com esta candura.

(relato: janeiro 2012)

2 – Repórter Leinad

leinad - relatos

Estas palavras foram escritas pelo jornalista Leinad, que teve como morada a rua. Nesta parede escreveu as suas palavras de revolta, e de verdade. Nesta parede ficarão para sempre guardadas as mágoas, angústias e sentimentos, deste “Amigo de Rua” que não conheço pessoalmente, mas que posso imaginar o que sentia quando foi escrevendo cada letra que aqui se encontra, cada traço desenhado, cada flor que plantou.

Ao ler estas letras senti-me inundada de verdade e de revolta, pois tantos ainda acham que os nossos sem-abrigo a quem chamo de “Amigos de Rua” ainda são um negócio e são bichos.

Mas não são! São humanos, pessoas com uma grandiosidade de sentimentos que tantos jamais conseguirão um dia ter. Obrigada Leinad por estas tuas palavras tão sentidas e cheias de verdade…

(relato: maio 2013)

3 – O Sr. Resende espera-me

Ao longo deste ano várias vezes este homem marcou a minha caminhada. Há um ano, estava na rua e chorava desesperado, pois não aguentava mais permanecer nela. Tempos depois, conseguiu partilhar um espaço em que a chuva já não o chateava, onde seus olhos brilhavam, pois, como dizia: “já não tenho medo de adormecer”.

Resende é um rosto do qual jamais me esqueço, pelos inúmeros momentos que já partilhamos. Lembro-me que, antes de se mudar para o seu quarto, (estava ele, novamente na rua e doente), lhe levei, uma “termos” e uma garrafa, à noite, cheia de chá bem quente. Jamais poderei esquecer o brilho deste olhar! Ainda hoje, esta “termos” está com ele e assim irá permanecer.

Lá estava ele à minha espera.”Eu sabia que vinha, doutora…”, disse-me ele, “não me ia embora sem que chegasse. Prometi, cá estou, pois você vinha…” E como sabe bem ouvir estas palavras, este carinho, este Amor?! Ver um rosto tão diferente daquele que outrora encontrei. Já tantas vezes me ri, cantei, anedotas contei. E tantas lágrimas já me correram.

Jamais vou esquecer o momento em que lhe ofereço a vela de aniversário, em que a sua mão se estende para a receber, como outrora, desta mão saiu uma cruz, o símbolo da sua fé…

Seu olhar brilhava, uma lágrima teimava em querer rolar-nos no rosto, sentia meu coração tão feliz mas tão apertadinho. E no meu rosto as lágrimas teimavam em não parar. No meu rolavam sem parar!

O nosso amigo Resende já teria que ir até ao seu quarto a pé, pois já não há metro a esta hora. Pedi-lhe desculpas, mas seus olhos brilhavam com tanta alegria que só me disse “este momento vale bem a pequena caminhada que faço até a pensão”. Não faltaram os miminhos para este amigo, que um dia foi Pasteleiro e, como tal, adora um docinho. E levou os bombons, que durante alguns dias fiz para, naquela noite, oferecer aos nossos Amigos de Rua, uma fatia de bolo de chocolate, feito pelo meu filhote, para comermos e partilharmos.  Despedi-me dele com a promessa de que nos voltaremos a encontrar. Até breve, amigo Resende… muito em breve!

(relato: outubro/2013)

Este meu amigo é hoje uma estrela que brilha no céu, cheia de Luz. Faleceu em Janeiro de 2014 mas a vida ainda lhe proporcionou o reencontro com os seus filhos e conhecer os seus netos. Quero acreditar que apesar de toda a dor, esta estrela partiu cintilante, cheia de alegria pelo seu reencontro ao lar, ao seio da sua Família. Nunca deixarás de ser recordado meu Amigo Resende. Sempre que olho o Céu, sei que lá brilhas para mim, num sorriso fraterno… um olhar azul cintilante. Brilha sempre estrelinha.

4 – Eloquência, Sabedoria

Desta noite muitos foram os sentimentos. Alegria, preocupação, inquietação, até alguma revolta, mas muita esperança e gratidão. Não posso deixar de recordar o nosso, último Amigo, que acordamos já por volta das 6 horas que foi para mim um feliz reencontro.

O nosso professor de música, que por volta das seis horas, acordou e nos recebeu com a sua habitual alegria e boa disposição. Na sua voz, a melodia de uma pauta de música. Sempre ávido de uma boa conversa, deixava arrefecer a sua sopa quente, trocando-a, mesmo que com fome, por partilhas de história da sua vida Mas na melodia da sua voz, tanta dor e sofrimento, pareciam notas de música doces e suaves.

E foi comendo a sua sopa, acompanhando com algum pão que nos ia contando algumas histórias, mas que não podemos revelar, pois prometemos nada contar. E nesta magia de palavras, sorrisos e boa disposição, este nosso amigo dizia, “… mas que diferentes, vocês são, não deixaram simplesmente a sopa e foram embora, ficaram todos aqui a ouvir-me, mas não contem nada a ninguém…”, dizia sempre em tom de graça.

musica - relatos

E nesta alegria, em que nos contava as suas histórias, as bandas em que tocou, a sua enorme paixão pelo Jazz, sempre nos deixava com a sua sabedoria um conselho, uma graça para que os sorrisos sempre fossem uma constante.Nas suas palavras sempre melodiosas, sempre ávidas de companhia, fomos conversando, rindo, sorrindo, mas sempre, no seu diálogo, uma eloquência de sabedoria. Até breve professor! Voltaremos certamente a nos encontrar para mais um exaltar de melodias.

 

01ago14

 

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9 Comments

  1. Su Silva

    Que lindo Carlita,que lindo!!!!E como ficou apertado o meu com estes relatos…Bem haja minha amiga e que Deus te continue a dar forças para continuare.Bjinhos

  2. Olga

    Nem sei que diga Carla Ribeiro e ao falares na avozinha… eu lembrei-me logo da minha mãe… realmente vivemos numa sociedade de “monstros”… ninguém se importa com ninguém…… sociedade sim de consumismo… de egoismo… de não ajudar o proximo….sociedade em que uns têm demais e outros nada têm.. é triste viver numa sociedade assim…. não digo que gostei.. porque não gostei do que li… e tu entendes o que eu quero dizer……. fica bem

  3. António CS

    Bom dia Carla
    Já tinha visto o teu trabalho com os sem abrigo.
    E li a tua coluna, é suposto dizer obrigado por seres assim e um bem haja por haver quem ainda pense e faças pelos outros sem esperar nada em troca .
    Bjnhs

  4. Carla Ribeiro

    ola Anonimo, pelos visto conhecemos-nos mas confesso k nao sei kem és..
    ufffa assim fica dificil com tt anonimato.
    grata pela força pela confiança e acima de tudo pela amizade, pois parecde k somos amigos pessoalmente.
    bjnhsss

  5. Carla Ribeiro

    Bom dia Anónimo
    Pois a avozinha Isaura, uma noite, um momento que jamais esqueço em k as lágrimas que corriam no meu rosto se misturavam com a chuva que teimava em cair…
    Grata por acompanhares esta minha caminhada amigo, se bem k não sei bem quem és….
    Beijinhos e sim mantendo sempre o contato pessoal e falando pessoalmente
    até breve, obrigada

  6. Anónimo

    Como sempre Carlinha uma escrita sentida, embora tenha a minha predilecta que é a da avó Isaura de quem ´já tinhamos falado diversas vezes.
    Continua e vamos falando pessoalmente, pois penso que é sempre mais importante.
    Bj grande de amizade.
    Mereces.

  7. Anonimo

    Minha amiga
    mais uma vez os teus texto marcam a profunda beleza dos teus sentimentos.
    transmites em cada palavra os sentimentos,
    quase me transportei para os momentos que descreves e para as lagrimas que te correram…
    qt as estrelas, acredito que desta tua caminhada alguma sestejam lá em cima tds as noites cintilantes a olharte
    espero o teu livro para breve, sem medo, será um sucesso
    bjnhs

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