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Mudam-se os tempos… não se mudam as verdades

Maria de Lourdes dos Anjos

Nasci e cresci em duas fabulosas IPSS. Na primeira, a que abrigou o meu berço, com lençóis de neblina bordados  pelas mãos da Emilinha Viúva, da ilha do Esgazeado, perfumados  de doce e suave mimo. Nesta instituição de solidariedade, a casa dos meus pais,  havia sempre lugar para quem quisesse trabalhar e respeitar os outros, sem perguntar o que fez ontem, mas querendo saber o que queria do dia de hoje e dos seguintes, onde se exigia respeito e se criavam os valores morais que me têm acompanhado  pela vida fora; onde se respirava liberdade sem libertinagem e a palavra “patrões” tinha um  significado quase fraterno.

Na casa onde nasci, conheci, sem nunca fazer perguntas, apenas alinhavando palavras e lágrimas e  ficando com dúvidas que a vida depois se foi encarregando de tirar, dizia eu que conheci na casa onde nasci, mulheres matriculadas, mães viúvas sem pão para dar aos filhos, moçoilas enganadas pelos magalas seus namorados antes da partida para o ultramar, senhoras que viviam por conta de doutores ou industriais importantes e as quais eram o espelho do desafogo financeiro dos seus “amos”, esposas viúvas de homens vivos que as trocaram por mulatas  dos “Brasis”, e muitas mulheres que para levarem o filho ao “senhor doutor médico” empenhavam a aliança, a cabeça da máquina de costura, o rádio  ou o relógio de bolso  do marido.

ilhas do bonfim

Sempre me ensinaram a viver com as diferenças e nunca me sentir mais ou melhor nesta roda onde girámos fazendo a vida. Vi muitas vezes a minha mãe comer uma cabeça de carapau e dar a uma empregada um bife grelhado com batata cozida porque a doença por ali se passeava e ela queria que fosse assim. Sempre que as minhas roupas ou as dos  meus sobrinhos deixavam de servir, iam, pela tardinha, quase escondidas, parar a algumas casas das ilhas do Bonfim onde quatro rapazes dormiam numa cama … dois para os pés e dois para a cabeceira; mais duas raparigas que partilhavam  um divã desengonçado e estreito separado por uma cortina de “cretone” da cama do casal. Aprendi , a olhar os carros elétricos cheios de operários pendurados nas portas para fugir ao pagamento dos 12 tostões do bilhete e percebi bem cedo que ali, dentro daquela casa cheia dos segredos e do amor dos meus pais, havia um muro que se saltava e dava fuga para o bairro Higiénico ou para o Canto do Rio, em Fernão de Magalhães, sempre que a PIDE aparecia fora de horas para levar alguém para o “hotel” da rua do Heroísmo. Não se diziam nomes nem razões, apenas se dava força aos homens do “reviralho”, que desafiavam os poderes religioso ou político.

Lugar do Senhor do Terço
Lugar do Senhor do Terço

Foi a primeira IPSS que conheci. Foi o meu berço, o meu acordar, o abraço com a Nobre Gente da minha cidade. Lá dei os primeiros passos e aprendi a correr para uma outra IPSS, mais distante, no lugar do Senhor do Terço, em Salreu, a casa da meus avós, do Manuel Lobo, onde os marinhões que vendiam lenha e pinhas, ou o João da Nanaita recebiam sempre um naco de broa e um pedacito de carne para a merenda. Onde  o carteiro, o  Alberto Antão o  “Caldo Quente” que carinhosamente me chamava cachopa tripeira , bebia uma malga de água fresca   com uma colherada de açúcar amarelo  em tardes escaldantes  de verão. Onde as filhas do Zé da Serrana e a Maria Pequena gostavam de beber o café de mistura feito numa cafeteira brilhante como prata, divorciada das brasas da lareira e apaixonada pelo senhor fogareiro a gás, enquanto ouviam,  “Simplesmente Maria”, um  rádio teatro que parava o nosso mundo de então.

E até quando o Manel “Queres Carne” andava fugido da vergasta da mãe, a Ti Celeste Pequena, também havia para ele abrigo e mesa. Não esquecendo o padre António Ferrugem que aí procurava o sorriso e o abraço da minha avó ou o baralho das cartas do meu avô para jogarem à bisca ou ao burro.

Duas casas, duas instituições de solidariedade e paz onde me fui fazendo gente. Por isso gosto de vos contar coisas que vivi com as “dirigentes” dessas casas de acolhimento com as portas abertas para o mundo .

Duas Adelaides (mãe e filha), duas mulheres que, para mim, são imortais. Da minha avó guardo o cheiro do cabelo, a cor dos olhos, os carinhos de uma mão áspera e doce, as palavras que me respondiam a cada pergunta que só a ela podia fazer e… ficavam entre nós , porque eram segredo só das duas. Duas Instituições Públicas de Solidariedade Social, que não sendo saudosista, são a minha enorme saudade. Era na casa, na rua, com os vizinhos, com os catraios da outra rua que os novos cresciam e era com as mesmas pessoas que os velhos chegavam ao fim da linha de vida… Socialmente. Solidariamente.

olhar de mae

Da minha mãe ainda tenho, felizmente, o olhar atento, a palavra muitas vezes azeda, a voz de comando apesar dos seus 94 anos, a lucidez duma mulher que desenhou caminhos e cruzou lugares de  desespero para continuar a  ser o orgulho dos netos que tanto ama. Já não vive numa IPSS porque os tempos mudam e temos que nos adaptar a eles, não tem a porta aberta para os que tem menos que ela, porque ela tem tão pouco, já teme a noite com medo que não haja  um novo dia mas ainda diz que gosta de estar cá e que há muitos anos fez com o meu pai um pacto de fidelidade e amor que tem a certeza nunca se quebrou e portanto sabe que ele continua a esperá-la numa qualquer porta de uma outra vida qualquer…

A  minha casa, a casa  que me abriga não é uma exemplar IPSS mas tento adormecer com paz na alma e a certeza que somos capazes de melhorar o mundo  quando o nosso lar for ninho, os nossos passos seguirem pelos caminhos da fraternidade e as nossas palavras forem pedras que constroem novos caminhos para um país livre, verdadeiramente livre. E até gosto de mim, gosto de ser este eu.

banqueiros fraudulentos

Entretanto os banqueiros  construíram com os políticos do mundo , enormes, moderníssimas e fraudulentas  “IPSS” sem alicerces humanitários e sem  moral, onde se partilham os valores financeiros feitos com os dinheirinhos de quem trabalha e depois se aplicam em paraísos onde os imperadores adormecem á sombra das bananeiras, rodeados de meninos e meninas que os vão entretendo como faziam os anões das cortes do rei sol .

Como mudou o mundo entre o tempo em que poucos sabiam o significado de democracia ou solidariedade e nem sequer sabíamos escrever  Instituição ou Constituição porque eram palavras com  muitas sílabas….deram vez e voz a instituições solidárias, belíssimas, bem geridas e de enorme força social que só ainda não foram todas encerradas porque enfim…ainda é cedo…para o ano se calhar acabam quase todas, porque pesam no orçamento do estado…Restam-nos Impérios Porcos construídos com os nossos silêncios e alguns votos onde os ditadores sem rosto, sem escrúpulos e sem nacionalidade retalham os braços daqueles que sonharam por inteiro, a Liberdade!

quero ser eu

QUERO SER EU

Não quero ser ave, nem mar
nem nuvem, nem vento,
nem sonho, nem pensamento.
Nem luz pra te alumiar,
Nem lume pra te aquecer…
Nada disso quero ser.
Não quero deixar de ser  gente,
nem preciso ser diferente.
Quero apenas um pouco de céu
e quero ser eu
Quero ser livre no meu país,
Quero gritar sou feliz
e quero ser Eu.
Quero ensinar e aprender
Quero semear e colher
Quero partilhar contigo o meu dia
Quero adormecer com alegria
Quero ser livre no meu país
Quero que também sejas feliz
E quero ser Eu!

Lourdes dos Anjos   in “Entre o Granito e a Neblina

(…)

Faz -se o caminho com os olhos postos no horizonte
e ele vai fugindo dos nossos passos cansados
Lá longe há um e outro e mais outro monte
onde muitos sonhos esvoaçam, esfarrapados.

E a tarde morre lentamente, sobre a nossa vida
chegam devagar, a escuridão e o medo da partida
E os sonhos que, lá longe, nos continuam a acenar
são estrelas que ficam na noite para nos alumiar…

E faz-se mais caminho e nunca  fica perto o horizonte

os sonhos desfazem-se em nuvens e correm no céu

E lá longe, longe, muito longe onde se ergue o monte

ficaram os farrapos dum sonho que nunca se viveu.

 

 

01ago14

 

 

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1 Comment

  1. A.A.B

    É sempre interessante poder ler os seus textos… Parabéns pelo texto Professora Lourdes e por trazer à escrita a riqueza dos seus pensamentos e defender as suas ideias… Gosto muito de os ler… Bem haja!!!!

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