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28 de Setembro: “A Conspiração da Maioria Silenciosa”

António D. Lima / Tribuna Livre

O passado mês de Setembro foi riquíssimo em notícias que mostra como funciona os assaltos ao nosso iluminadíssimo poder.

Há muita matéria para se escrever, talvez o faça no próximo mês, se não for no próximo será no outro mas que direi o que me vai na alma, disso podem ter a certeza de que o farei.

Acho muito mais importante que o povo não se esqueça (alguns bem tentam esquecer) o que foi o “28 de Setembro”.

Em 28 de Setembro de 1974, era o dia marcado para uma concentração em Belém em apoio ao fascista, então Presidente da Republica, General Spínola.

Esta conspiração foi então denominada pelos seus promotores de “Maioria Silenciosa” aproveitando assim, uma avença para avançar com a data da conspiração que há meses estava a ser preparada.

Spínola
Spínola

Discursando no dia 10 de Setembro, o fascista Spínola, então Presidente da Republica e, sem os plenos poderes que queria, mas que o MFA não lhe dava, disse em determinado trecho do seu discurso:

“A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente…”

Logo de seguida, o fascista Galvão de Melo, então General, com medo de perder os seus cavalos e as mulas que montava, deu uma entrevista à “Portugália Editora”, declarando:

O Presidente da República, fez um primeiro apelo provocando a Maioria a deixar de ser silenciosa, a manifestar-se. Mas não obteve resposta. Pela segunda vez o Presidente (Spínola), fez apelo à Maioria e fê-lo veemente”.

Em Agosto já havia panfletos a convidar o “povo português” a ir a Belém dar um voto de confiança a Spínola, “Exigir a dissolução imediata do MFA” e correr com os comunistas do governo! Para os conspiradores os comunistas a que se referiam, eram os militares afectos aos ideais do 25 de Abril e que organizarem o golpe. Este comunicado, foi abundantemente distribuído em 30 de Agosto, na cidade do Porto.

O Spínola deslocou-se para o Buçaco, já estava em curso uma recolha de assinaturas dos militares fascistas que, por uma questão de interesses; preferiram aderir ao movimento do 25 de Abril, a serem presos. Assim e astutamente, mesmo contra a sua vontade, aderiram, esperando por melhores dias, para repor os seus privilégios e voltar a entregar o poder ao capitalismo monopolista.

Os antidemocratas, ao mesmo tempo, começaram com acções contra os comunistas, culpando-os e agredindo quer fossem ou não comunistas como aconteceu em muitos locais. Por exemplo. Na noite de 19 de Setembro, um grupo de gorilas, pagos, colavam cartazes no Rossio e na Avenida da Liberdade “Lisboa,” um individuo que passava parou e ficou a ver, segundos depois foi ameaçado com uma pistola, empunhada por um dos automobilistas, mais tarde identificado pela matrícula do carro como sendo – António Cirne, pugilista de profissão.

Esta colagem, estava a ser protegida por numerosas viaturas que circulavam, nas imediações dos coladores, entre elas estavam as viaturas de: Carlos Frederico Villardebó Sommer Champalimaud, do capitão do exército Francisco de Bragança Van Uden, apoiante de Spínola e presente em várias reuniões de preparação para o golpe. Só para recordar, um dos organizadores das colagens era João Braga, fadista.

Vários episódios de agressões a democratas aconteceram na madrugada do dia 20 e dias seguintes, terminando estas acções em 27 de Setembro noite dentro e madrugada do dia 28.

Na tarde do dia 27, decorre uma reunião no conselho de ministros com a presença do Spínola, ainda como Presidente da Republica.

Nesta reunião o Spínola fez várias exigências e acusações. De todas as exigências a mais importante, queria que a manifestação de apoio à sua pessoa fosse realizada. Acusando o PCP de pretender opor-se a essa manifestação.

O PCP, ao contrário de todos os outros partidos, disse ao Spínola que, a manifestação não era mais do que uma operação contra – revolucionária e que iria fazer tudo quanto fosse possível para impedir que tal manifestação se realiza-se.

Nessa mesma noite, num jantar, com a presença do cônsul dos EUA no Porto, são proferidas afirmações como: “Vai começar com força toda uma actividade contra – revolucionaria que terminará em fins de Outubro com a derrota do comunismo.

O primeiro-miinistro, comunista (sic) Vasco Gonçalves e o horrível (sic) Otelo do COPCON não estão mais de três dias no poder. Amanhã poderá ser o princípio da guerra civil.”

Vasco Gonçalves
Vasco Gonçalves

Com estas declarações fica claro aquilo que o PCP, com a ajuda dos seus militantes e outros sectores da vida social e política portuguesa há muito tempo dizia: “Os inimigos da liberdade e da democracia estão a preparar-se para fazerem um golpe de estado”.

Os apelos do PCP, MDP, sindicatos e outras formações democráticas e também do MFA, o povo saiu à rua, armados com os mais diversos objectos a servirem de armas. Eu levei como arma um bom marmeleiro. Por todo o país o povo juntamente com os militares levantaram barreiras nas saídas e nas entradas para Lisboa.

As portas de Lisboa fecharam-se à reacção

A firmeza destas vigilâncias, permitiu detectar pistolas de calibre legal e ilegal, armas de caça, sofisticadas metralhadoras modernas e outros artefactos como cacetes, canos, ferros etc. Tudo servia para serem utilizados como armas de agressão.

Estas apreensões foram feitas em todas as viaturas que teimavam em passar as barreiras.

Certamente que houve muitos casos em que andaram mosquitos por cordas bambas, em especial com os automobilistas que se opunham a que os seus carros fossem revistados, estes levavam uns valentes calmantes e eram entregues aos militares. Os automobilistas ficavam detidos e o material encontrado era apreendido pelos militares.

O povo menos afoito para este tipo de acções, contribuiu já madrugada, com café, comida, cigarros e palavras de conforto.

Aqui, nesta minha querida cidade do Porto, mais uma vez os tripeiros disseram… presente para travar a reacção, por aqui ela não passou, disso tenho eu a certeza. Como igualmente não passou pelas outras barreiras montadas em todo o país e em especial as que foram levantadas nos acessos à entrada de Lisboa onde os amigos e camaradas tiveram uma acção de vigilância muito preponderante.

Com a derrota deste golpe, muito armamento foi apreendido e muitos golpistas foram feitos prisioneiros, a lista é muito extensa por isso referirei o armamento apreendido no Partido do Progresso. Organizações e partidos políticos envolvidos. E somente os nomes mais sonantes, porque importantes, eram todos, uns porque estiveram activamente na preparação do golpe, outros porque participaram com dinheiro e todos quantos tiveram actividade na “Maioria Silenciosa”.

copcon

O que COPCON apreendeu no Partido do Progresso:

Cocktails Molotovs, matracas, correntes, ferros, transmissores recetores, megafones, muitos sacos de lona para dormir. Uma lista aterradora de material bélico no qual se enumerava milhares de armas e munições que o Partido do Progresso já possuía ou iria adquirir: 200 pistolas – metralhadoras FBP; 100.000 munições de 9 milímetros; 50 lança – granadas foguete; 3.000 granadas, sendo 1.000 perfurantes, 100 explosivas e 1.000 incendiárias; 100 metralhadoras ligeiras; 1.000.000 de munições com as respectivas fitas; 5.000 granadas defensivas, 500 incendiárias e 200 de fumos; 50 morteiros de calibre 60; 50000 granadas e respectivas cangas; 2.000 G3 com bandoleiras; 1.000 dilagramas; 5000.000 munições; cinturões e carregadores para 2.000 homens; 100 pistolas Mauser ou Walter, coldres e carregadores respectivos; 20 rádios Racal TR 28 e 100 AVP, todos com baterias de substituição.

O COPCON (Comando Operacional do Continente) prendeu centenas de indivíduos ligados de uma forma ou outra ao golpe. Depois de rastreados em termos de importância no golpe foram presos e enviados para Caxias 90 contra – revolucionários. Menciono aqui pela sua importância, alguns dos contra – revolucionários presos.

António de Spínola (General) /Henrique Tenreiro/ Francisco de Bragança Van Uden/ Francisco Hipólito Raposo/Luís Filipe Gama Lobo Xavier/ José João Zoio/ António José Viegas Ávila/ D. Pedro Avillez/Carlos Alberto Moreira Bettencourt/ Padre Bigote/ João Braga/ Filipe de Bragança/Almeida Bruno (Ten.-Cor.)/ Conde de Caria/ Adelino Palma Carlos/ Diogo Castelo Branco/ Fernando Cavaleiro/ José P. Marques Cavaleiro/ Francisco do Cazal-Ribeiro/Carlos Frederico V. Sommer Champalimaud/ Manuel de Sá Coutinho (Conde de Aurora)/Lázaro Kavandame/ Jaime Silvério Marques (General)/ Galvão de Melo (General)/João Pedro M’bala/ Silvino Castro Moreira/ Diogo Neto (General)/ Sanches Osório (Major)/ José Manuel Espirito Santo/ Manuel Ricardo Espirito Santos/ Jaime Zuquete da Fonseca (Major)

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28 de setembro 74 - 02

PARTIDOS POLÍTICOS: Comissão Nacional (da manifestação) / Comissão Nacional (jornal) / Juventude Centrista/ Movimento Monárquico/ Movimento Popular Português/ MRPP Partido do Centro Democrático (CDS)/ Partido da Democracia Cristã (PDC)/ Partido Liberal (PL)/ Partido Nacionalista Português (PNP)/ Partido Popular Democrático (PPD)/ Partido do Progresso (PP – MFP)/ Partido Trabalhista Democrático Português (PTDP)/

OUTROS: Banco Espirito Santo e Comercial de Lisboa/ Banco Pinto e Sotto Mayor/ Jornal “Bandarra” / Jornal Expresso/ Grémio dos Industrias dos Transportes/ GRIS IMPRESSORA/ Lisgráfica. SARL/ Agência Noticiosa Lusitânia/ Oficinas S. José/ Publifirma/ Radio Clube de Moçambique/ Jornal Resistência/Restauração, Editorial/ C. Santos/ Sinase/ Telecine Moro/ Jornal tempo Novo/Tipografia Elvense/ Tobis/ Jornal Tribuna Popular.

Também foi encontrado no Partido do Progresso um documento em que se assinala a imprensa contactável. Segundo este documento apreendido pelo COPCON este documento apresentava os nomes de jornais que foram selecionados golpistas como sendo afectos ao ideário ao federalismo e cobriam uma parte considerável do território. Sendo estes desde o Minho até ao Algarve.

Falo deste golpe como falarei em devida altura de outros golpes como, por exemplo o de 11 de Março e o de Novembro.

Ao falar destes golpes é lembrar do que são capazes os fascistas – capitalistas que pacientemente foram esperando até fazerem o que hoje fazem.

Fico com a esperança de que os partidos da esquerda democrática e todos os verdadeiros democratas trabalhem no silêncio até ao desferir o golpe que elimine estes infames ladrões.

 

Fontes: “28 de Setembro: A Conspiração da “Maioria Silenciosa”

Fotos: Pesquisa Google

 

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

01nov/dez14

 

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