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As praxes na (USF) “Lusíada” de Rio Tinto

Maria de Lourdes dos Anjos

Há em Rio Tinto, lá prás bandas da Venda Nova, no concelho de Gondomar, um edifício muito bonito ou, melhor, que já foi muito bonito, com um jardim, ou melhor com um terrenito que já foi um jardim e pronto carago…perdi-me! Já sei! Como ia dizendo, havia há talvez 40 anos bem medidos, um “dispensário” que vivia num edifício muito bonito, rodeado de um jardim também muito bonito pertinho do largo da Venda Nova, onde os carros elétricos  que vinham do Porto, davam a volta, mesmo no fim da linha.

Quase ninguém tinha automóvel   é claro que não havia carrinhos de bebé à venda na mercearia do ti Belmiro e  poucos tinham direito a um colinho para adormecer porque as mães tinham 4 ou 5 criancinhas, paridas umas atrás das outras.

E, como eu ia dizendo, na rua Pedro Álvares Cabral, pertinho da Venda Nova, havia um dispensário onde as mães levavam ao colo, embrulhados no xaile do batizado, o seu rebento para pesar, medir e vacinar

Depois, os tempos mudaram, o número de filhos diminuiu, as mães passaram a ser mamãs, o colo passou a ser um carrinho comprado numa loja de coisas para gente nascida depois de abril e o dispensário foi pró caraças. E o jardim também. O elétrico morreu e nasceram muitos automóveis.

Pronto, perdi-me outra vez… Ah já sei! Esse tal dispensário tornou-se Centro de Saúde para todos os que sobreviveram ao tempo da pré-história portuguesa.

Mudou de nome e tudo…chama-se agora Unidade de Saúde Familiar Lusíada. Inventou-se uma rampa a pique para conduzir carrinhos de corrida ou de choque  para os velhos de canadianas, ou para mancos em cadeira de rodas que se querem matar contra o muro do fundo ou então para aqueles que conseguem que o senhor segurança (por acaso simpático e educado e jovem) venha ajudar a meter a marcha à ré para ninguém se espatifar ao fundo da dita cuja avenida a descer…”deesscceer muuiitto!”

Fui obrigada a levar aí , a esse sitio, à U.S.F. LUSÍADA, que antigamente, era um dispensário limpo e lindo  imaginem …a minha mãe com 94 anos e 90 quilos de peso. Para quê?

Para  ela  falar com uma senhora doutora, que dizem que é assistente social para sabermos as ajudas que poderiam ser dadas na assistência domiciliária e até na possível ida para um Centro de Dia durante algumas horas para conviver com gente da sua idade visto estar muitíssimo lúcida.

USF Lusíada
USF Lusíada

A senhora dona doutora que tinha marcado encontro com mãe e filhas para as dez, dez horas, chama- nos para sermos praxadas, quase duas horas depois às onze  horas e quarenta minutos, já  depois de uma simpática empregada de recados, talvez a mulher de soalheiro lá do sítio, a avisar que estavam umas pessoas bastante aborrecidas com o  incumprimento de horários naquele local… de praxe.

A minha mãe começava a ter dificuldade em respirar por nervosismo e falta de medicação e de repente a senhora assistente social   recebe uma das filhas…apenas uma das filhas  porque a outra tinha  outros compromissos que, ao contrário desta senhora assistente, não se podiam  desmarcar na véspera ao final da tarde e através dum telefone.

Com ares de quem tem de ir pregar a outra freguesia, informa ainda que, “aqui  não se dá nada… aqui , dou  apenas as direções de instituições que podem ajudar  a sua mãe”. Respondendo à pergunta se havia possibilidade de internar a minha mãe numa instituição por uma ou duas semanas para descanso das suas cuidadoras (com 65 e 75 anos) teve ainda tempo para nos dizer  que,  assim temporariamente não, mas para ficarem com  ela em casa durante a noite era possível pela  módica quantia de 40 eurospor noite! Caro? “Não minha senhora e há muita gente interessada”! Aqui é assim, praxa-se o pessoal todo sem dó nem piedade.

Claro que a senhora dona doutora  até já sabia, pelo seu correio privativo, que uma das filhas, que fora reclamar ao 1.º piso,  passando pela “rampinha” exterior ao edifício, vivera mais de 50 anos em Paris e por isso não estava habituada a tamanho desalinho e tanta falta de respeito, de profissionalismo, de educação cívica de tanto “laisse passer”… E ali mesmo, sem aviso prévio cumpriu-se a praxe.

Pois, fomos praxadas na Lusíada de Rio Tinto.

Assim, sem mé nem meio mé.

Lá  empurramos a cadeira de rodas da minha mãe pela rampinha acima, com a  indispensável e preciosa ajuda do  tal jovem segurança, e avisadas  que a minha mãe também não teria consultas domiciliárias porque a senhora doutora médica tinha imensos doentes e podiam  por no seu gabinete todos os papéis que entendessem que ela não ia a nenhum domicílio mas… mas que nos atendia depois da meia hora se precisássemos de alguma receita. Pois a gente diz o remédio que quer e o merceeiro escreve e assina.

Abandonamos o local da praxe acompanhadas  da revolta de alguns utentes da Unidade de Saúde Familiar Lusíada que perceberam o disfuncional  funcionamento desta assistência maravilhosa dada a uma senhora com quase um século de vida.

Trouxemos um papelinho escrito a lápis, pela tal senhora dona doutora com as direções para procurarmos a ajuda que pretendíamos. Avançar, senhoras, suas velhas do caraças, a pé, de carro, de elétrico ou então numa carroça puxada por alguma gente que se senta atrás duma secretária e acrescenta doutora ao seu nome de batismo e pousa aqui e ali e cumpre assim a sua missão de praxar o povo enquanto ela ganha dois ordenaditos mensais.

E dei comigo a pensar que para entregar um papel com direções não é necessário pagar um vencimento a  uma doutora qualquer, basta colocar, numa parede, um cartaz qualquer  ou entregar uma qualquer fotocópia a qualquer utente com mais de 90 anos. que peça tais informações. Nem precisamos ser praxadas.

Percebo muito bem que estas doutoras possam ter diversos cargos em diversas instituições e receber diversos vencimentos, porque fazem tão pouco, esforçam-se tanto para não se cansarem em lado nenhum e são tão pouco honestas profissionalmente que acredito vão ter, em breve, um cargo político em S. Bento das Peras, uma agencia  funerária que há, aqui pertinho da igreja de Rio Tinto.

Ainda vou pensar se uma carta com tudo explicadinho e com nomes direitinhos não irá parar longe, mais longe para que as coisas não fiquem por  aqui perto, entre nós, aqui, entre um antigo dispensário com um jardim bonito e uma casa  Lusíada  de má toada, com gente  que socialmente apenas mente e cuja função parece que deveria ser dar algum apoio social a  pessoas que dele necessitam.

Vou pedir calminha à Santa Rita, que dizem ser advogada das coisas impossíveis… é que  praxaram  a minha mãe, na minha frente, na Lusíada e eu não  concordo com essas coisas, fazem-me confusão!

Praxar sim mas devagar! E o curso de vida da minha mãe não foi comprado, foi vivido, suado e honra-me muito ser sua filha. Com estes comportamentos, nunca este país deixará de ser um caloiro vergonhosamente praxado por uns quantos doutores!

ATÉ JANEIRO

Porque não estarei convosco antes de janeiro de 2015, devido à renovação gráfica estrutural a que o “Etc e Tal Jornal” será sujeito, deixo -vos dois poemas pequeninos, um com a minha assinatura e o outro é , para mim, apenas o mais lindo poema de natal que conheço  da autoria de João Saraiva, um poeta portuense (1866-1948)

Nos olhos, um mar límpido por desvendar
Nas mãos, a foice que colhe o pão
Nos braços, a força da guerreira
Nos lábios, a verdade que às vezes dói
Nos passos, as feridas de pedras soltas
No coração, um diamante por lapidar
Na vida, uma árvore que não tomba
Deu-me uma alma inquieta e firme também
Orgulho-me dela e chamo-lhe mãe.

Para a minha mãe que ultrapassou os 94 anos de vida com uma lucidez que, às vezes, magoa porque nos mostra a pequenez que somos, perto dela.
Lourdes dos Anjos
in “Nobre Povo

Pobre Menino Jesus
Homens e bois te adoraram
e, mais tarde, numa cruz
homens te martirizaram.
Vinte séculos depois,
os homens não melhoraram
e ainda são mansos os bois.

Tão lindo e tão simples e tão verdadeiro…

Tentem ser felizes amigos.

 

 

 

Fotos: Pesquisa Google

 

 

01nov/dez14

 

 

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1 Comment

  1. Maria Sousa (Porto)

    Cara senhora

    Há, na realidade, coisas do “Arco da Velha” que é importante denunciar, e fê-lo bem neste jornal que é, para mim, um jornal do povo.
    Parabéns pela coragem!

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