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A dor no silêncio …

Carla Ribeiro

Caminhamos já num novo ano. E, tantas foram as vezes que caminhamos no silêncio de uma dor, da vergonha, do medo, da culpa. Luto pela mudança, luto pelo sonho, luto pela vida.

Durante todo o ano notícia após notícia, hoje, amanha, depõe se depois, falam-nos de mais uma Mulher que tinha falecido, vítima de violência doméstica.

Pensei mas porque não se ouve dizer que foi um Homem, afinal também eles sofrem violência doméstica, da ira das suas mulheres, companheiras ou simplesmente namoradas. E, aí a resposta é tão fácil, ainda temos o estigma, o pudor, o medo, a vergonha e até o machismo. Todos estes sentimentos fazem parte de nós, que um dia sofremos de violência, quer verbal, quer física, ou até de ambas.

relatos 1 - 01jan15

Se denunciámos, somos recriminados, desacreditados, julgados, acusados, somos sempre os culpados, aos olhos das famílias, de amigos e até mesmo da sociedade. Somos vítimas e somos sempre culpados, até mesmo descriminados.

A leveza com que ouvimos nas notícias que cerca de 19 Mulheres por dia são vítimas de violência doméstica, já quase nem nos incomoda.

Fomos educadas para sofrer, para obedecer, para calar…

Já chega, já chega de tanta dor, tanto silêncio de tanto nos mutilarmos. Cada palavra, cada grito, cada gesto cala-nos, mutila-nos, seca-nos no mais íntimo do nossos sentir. A nossa sociedade necessita amadurecer, crescer e tornar-se mais adulta. Precisamos de mudança, precisamos de ter coragem, para lutar, para denunciar, para gritar bem alto tanta a dor que nos consome.

Já chega de sofrermos em silêncio. Chega de nos culparmos.

Deixo-vos um poema que embora escrito há já algum tempo, é tão presente para tantas Mulheres, para tantos Homens.

relatos 02 - 01jan15

A Culpa é Minha… Lágrima

Hoje chorei porque ele me ofendeu

Hoje voltei a chorar porque voltou a ser agressivo comigo.

Ele trouxe uma flor, e pediu-me desculpas,

E, eu perdoei.

Vezes sem fim este foi o cenário.

A ofensa, a agressão verbal, a coação, os insultos…

As lágrimas, a culpa, o medo.

Será que hoje vem bem-disposto?

Será que não, o que devo fazer?

Tenho medo,

Eu sou a culpada…

A culpa é minha

Ele só é assim porque a culpa é minha.

Mas eu não sei o que fazer,

Porque sempre que tento mudar

E fazer diferente

Ele continua a ser agressivo.

Continua a insultar-me.

Já não sei o que fazer,

Que vergonha.

Tenho medo.

Mas a Culpa é minha….

Tantas vezes que me calei,

Que nem falei

Porque tenho medo,

Porque tenho vergonha…

Mas a Culpa é minha

Lágrimas e mais lágrimas…

A Culpa é minha

Tenho Medo,

Tenho Vergonha,

Tenho muito Medo

Lágrimas correm em meu rosto

No silêncio,

Meu filho não pode ver,

Meu filho não pode ouvir…

Mas eu Tenho Medo,

Eu Tenho Vergonha

Ninguém me pode ajudar

A Culpa é minha…

Lágrimas e mais lágrimas

Caem sem parar em meu rosto.

Não sei como vou continuar…

Até quando vou aguentar

Tantas lágrimas…

Mas hoje não fiz nada errado…

Mas a Culpa é minha.

Um dia ele vai mudar.

Ele não era assim

A culpa é minha

Mas nada muda hoje um insulto,

Amanhã, novo insulto,

Hoje discutimos

Mas não sei bem porquê.

Hoje voltamos a discutir

E também não sei qual foi o motivo.

Hoje, ele pediu-me desculpas

Deve estar a mudar…

Fiquei tão feliz

Hoje não chorei…

Hoje voltou a insultar-me

Estava agressivo.

Não sei o que fiz,

Mas a Culpa é minha

Sempre a Culpa é minha

Tenho medo,

Muito medo,

Vergonha,

Muita Vergonha…

Mas a Culpa é minha…

(Carla Ribeiro – 2012)

relatos 03 - 01jan15

Vergonha, Medo, Culpa, Lágrimas…

Estas foram durante meses, anos as minhas companheiras do silêncio.

Até que um dia percebemos que não temos culpa, que não podemos continuar a anularmo-nos como pessoas, como seres Humanos.

Gritamos, gritamos bem alto, para nos conseguirmos ouvir, para nos conseguirmos libertar.

Gritamos à vida que estamos vivas e queremos continuar, mas fazer um novo caminhar.

Necessitamos nos reconstruir, nos reencontrar, sem nunca voltarmos a deixar que ele nos agrida.

Sim o medo é muito e tantas as vezes que pensei em desistir, mas era o Amor do meu filho, o meu Amor-próprio que a cada dia me faziam renascer do poço, crescer das cinzas, e fortalecer-me, perdendo a cada dia o medo, a vergonha, até mesmo calar as lágrimas.

Sei que venci no dia em que nos olhos dele vi o medo e da boca dele sai a frase “agora já não choras… que se passa”. Neste dia percebi que tinha crescido, mas que muito havia ainda para caminhar.

relatos 04 - 01jan15

Sim eu venci.

Sim eu cresci.

Sim eu lutei.

Sim eu venci.

Sim, eu fortaleci-me, até mesmo testei os meus limites.

Sim, a minha vida é importante.

Sim, eu Amo-me a mim para assim poder amar os outros.

Sim eu Amo o meu filho, acima de qualquer dor, e, por nós, eu venci.

Só nós podemos parar, só nós podemos dizer basta, só nós podemos lutar para construirmos um mundo para nós diferente.

A todos, um simples até já.

A todos sem igual,

Obrigada

Até breve com novos “sentir”, novos “amar”…

 

Fotos: Pesquisa Google e “Corações Amigos”

 

01jan15

 

 

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17 Comments

  1. Rebel T.

    Acontece porque ele ou ela permitem em silencio a primeira vez, depois todo o processo que pode culminar com a morte é a difícil tentativa de voltar a colar uma lâmpada que se estilhaçou em mil bocados, logo missão impossível….tenho pena de os chamarem de seres humanos, quando são verdadeiros selvagens…..
    Como me sinto triste por pertencer à classe que mais prevarica e ao mesmo tempo por pessoas como tu existirem e ser exemplo….bjs e mt força

  2. Carla Ribeiro

    Obrigada Jose´pelos sorrisos que com poesia me mostras
    grata pelas tuas palavraas e pela tua Poetica amizade
    Bjnhs

  3. MJG

    Adorei esta imagem… Um coração por muito gelo e dor que tenha, quando tem amor, principalmente para dar… Tudo supera tudo vence na vida

  4. Alfredo Costa Pereira

    Embora o estado miserável em que os vários governos que têm estado no poder deixaram ficar as famílias mais necessitadas tenha contribuído para o aumento da violência doméstica, o deficit cultural das famílias portuguesas ainda é elevado, o que certamente é a causa primeira destas desgraças!

    Nada se resolve com violência, mas sim com palavras ou com os tribunais.

    Até lá, seria necessário um efetivo apoio às famílias em crise, através de psicólogos que o Estado deveria disponibilizar para o efeito, a pedido dos interessados. Só que nem uma coisa nem outra acontecem, isto é,não há psicólogos nem pedidos de ajuda!

    Portanto, e para já, é necessário desmascarar e denunciar às autoridades todos os casos de violência doméstica dos quais tenhamos conhecimento.

  5. José Sá

    Belos momentos de verdade, onde o amor se escreve puro e sentido…
    Que bom olhar as palavras deste espaço e poder sorrir… Sorrir pelo querer de alguns e sorrir pela ajuda de outros… Os que sofrem também merecem sorrir… Obrigado pela razão que me fez caminhar até aqui… Beijinhos

  6. Filomena M

    Tantos silencios de dor escondidos que esperam um grito de coragem .. mas um dia ele irá soltar-se e o sol virá aquecer almas sedentas de afeto. Parabéns amiga pela tua coragem! beijinho

  7. Carla Ribeiro

    Humberto,
    sem dúvida alguma um marco da minha caminhada o silencio foi a redescoberta do Amor-próprio
    Obrigada
    Bjnhs

  8. Carla Ribeiro

    Relatos que marcam um percurso uma vida e que sem duvida deviam ser partilhados para que tantas outras Mulher e Homens percebam que jamais estão sozinhos
    Obrigada
    Bjnhs

  9. AA

    Fico sem palavras
    toda esta dor de que falas, que escreveste foi por ti vivida.
    Meus deus, como nunca me apercebi….
    não mereço a tua Amizade amiga, pois nunca percebi toda esta dor.
    cada dia te ademiro mais, pelo tua garra, pela tua força, pela MULHER que és
    Tu sim és uma guerreira, eu sou uma formiguinha, pois não consegui sequer perceber a tua dor
    MULHER, GUERREIRA
    so posso agradecer a tua amizade da qual nem sei se sou merecedor.
    cada dia me Surpreendes mais, cada dia em escrita tua, conheço uma MULHER ainda mais maravilhosa.
    de lágrima no rosto, sim pk um Homem tb chora, deixote um enorme abraço e um beijo
    que nunca baixes os braços amiga, e por favor grita por ajuda pois os Verdadeiros AMIGOS vão sempre estar perto para correrem em teu auxilio.
    Bjnhs amiga, grato me sinto por me considerar teu Amigo, Bjnhs

  10. Anónimo

    Muito bom…relatos que deveriam continuar como incentivos a outros… para denunciar…além de que quando expomos publicamente emoções e/ou sentimentos é sinal de amadurecimento…sinais que a vida nos vai moldando e nos vai fazendo crescer. parabéns. Bj grande

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