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Círculo

José Luís Montero

As romarias acabam no São Martinho e depois começa a Primavera. A crise também acabou porque o Presidente da Republica começou aos beijos pelas ruas e caminhos. O Inverno, o tempo cru, e a crise despareceram; Portugal é festa e festeiro e quando canta e dança o rancho folclórico, o vinho abre os peitos e os corações. A crise é uma ficção e o Inverno é uma invenção dos ingleses porque descobriram o Sol quando arribaram no Algarve depois se perderem em navegações piratas. O único Inverno neste Verão escaldante chama-se: pena; pena por não ver fotografias do Cavaco e Silva ou do Passos Coelho em Bermudas e com uma garrafa de Licor Beirão bem assovacada caminho dum delicioso mergulho.

Estamos no melhor dos mundos porque estamos no inferno dos vivos e não no inferno dos mortos; além disso, o Papa jesuíta que adotou nome à memória dos franciscanos já disse que tudo isso eram balelas e que também não existem mães solteiras; existem, simplesmente, mães. O Papa, com esta constatação, descobriu o mistério do ovo de Colombo no meio de uma tribo religiosa que confunde bananas da Madeira com falos onanistas. Estamos no ano pós vitória da Seleção Portuguesa no Campeonato de Europa e um Papa, finalmente, soube que só existem mães. A Igreja Católica está de parabéns; temos que a felicitar pelo seu enorme esforço intelectual e pelos séculos de esforçados estudos.

tasca lisboeta

E enquanto o Mundo vive todos estes acontecimentos, isolei-me numa praia argilosa e vivi o momento histórico da passagem do novo Vasco da Gama: o Ronaldo a gritar “Portugal Oé-oé!” Enquanto passava pela rua da Betesga, caminho da Praça da Figueira. Emocionei-me. Senti-me pequenino. Apeteceu-me afogar a sede com uma imperial fresquinha e abraçar-me a quem passava por ter visto o Vasco da Gama dos novos tempos.

O destino é misterioso e eu vivi o desvendar do grande mistério da época contemporânea. E senti-me feliz porque almoçara, entre o Cais do Sodré e Santos, numa tasca onde ainda se pratica a gastronomia portuguesa e a preços para portugueses.

A avalancha bárbara ainda não ocupou todos os recantos da Vida desta Lisboa que deixou de existir ou ainda existe se passarmos do Saldanha ou da Praça do Chile dando costas à Baixa Pombalina; à Alfama; à Mouraria; à Bica; ao Bairro Alto. Diz o fado: “Lisboa não sejas francesa…” e eu, nas minhas noites de insónia, digo: “e muito menos inglesa…”

Mas, não devo dizer ou escrever tasca. Hoje, a nova classe média empreendedora, saída das Faculdades de Letras ou de qualquer outra modernice com Mestrado incluído, diz, com muita seriedade: Espaço. Servem saladas de agriões com bacalhau à Braz pelo módico preço de nove euros e a gentileza empresarial do Espaço diz: “ + copo de vinho”-WI-FI free”. O WI-FI, neste caso, é útil e pode satisfazer a curiosidade do cliente. Pode navegar em internet e conhecer a receita do Bacalhau à Braz e depois, em sua casa, algures em Europa, pode cozinhar o seu Bacalhau à Braz e conhecer, finalmente, o seu delicioso sabor. Frequentar e consumir num Espaço tem muitas vantagens: tem WI-Fi free com um password castiço: WELCOME.

Depois do São Martinho entrará pelas nossas janelas a Primavera e o IMI agravado por termos Sol. Os governos são justos e a geringonça acaba de descobrir a essência da justiça tributária. As pessoas queixam-se porque disfrutam do Sol acima das suas possibilidades. O Palácio de Belém é banhado pelo Sol de tal forma que parece que o Sol parece que nasceu para alumiar o Palácio dos afetos. Ainda bem que é um espaço público ocupado pela hierarquia do Estado; se fosse um Museu ou o Castelo de São Jorge pagar-se-ia a excelência do Sol no ticket generoso da visita uns quantos euros que seriam, traduzidos para escudos, mais de quinhentos escudos. Os governos são tão justos nas suas medidas tributárias e colocam à disposição da cidadania o património cultural e histórico de forma tão bondadosa que se não existissem governos, não existiria a bondade.

Foto: Pesquisa Google

01set16

 

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1 Comment

  1. Maria Fernanda Lança

    a verdade é que basta ir a Espanha para compreender porque é que so espanhois nos doaram este pedaço de terra com muito afecto forjado na lâmina. Ainda não seriamos europeistas, seria a Europa que descobria a futura quinta de lazer. A Vida é um circo e os nossos governantes os palhaços do dia

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