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E chove otimismo

José Luís Montero

O tempo está no seu tempo; a chuva molha e o frio arrefece. No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa continua a aquecer a lareira das almas com o otimismo que dizia e diz necessário incutir no peito cidadão. Recuperar o orgulho, dizia.

E a geringonça da governação espelha números macroeconómicos que fazem o Pedro Passos Coelho falar com a boca cheia de papas. O Partido Socialista sobe nas sondagens até perto do Cabo da Boa Esperança da governação maioritária que neste caso seria solitária e o bacalhau, nos grandes hipercentros, continua em promoção permanente. O vinho de cartão é o único que não satisfaz os gourmets de fim-de-semana das revistas emparedadas nos jornais de grande tiragem.

Mas, o vinho de cartão também não me satisfaz e não sou gourmet; sou um cliente de pratos do dia e de jarro do que há porque no porta-moedas tenho uma luz vermelha que me impede pedir garrafas corriqueiras nos restaurantes e pagar com se fossem de colheitas de sibaritas. Sou, como essas almas motivadas pela Presidência da República, um otimista sem carteira consistente e um indignado com a transformação da paelha valenciana congelada em prato português típico.

Um país que tem na sua gastronomia mão de vaca com grão; tripas à moda do Porto; favas com entrecosto ou a mais que recomendável sopa da pedra não pode tolerar este ultraje praticado por um número considerável de bares apócrifos da Baixa Pombalina. Com esta restauração ultrajadora não se pode estar otimista, nem orgulhoso por muito que o Presidente Rebelo de Sousa visite em Londres a pintora Paula Rego.

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Portugal continua a ter carências existenciais, mas, surrealmente tornou-se um País otimista. O vive-se mal mas, gosta-se de dançar o Vira ou ouvir o Vitorino e o Coro do Redondo, por isso, alegria, orgulho e porte altivo enquanto se dança. O Rebelo de Sousa é um Presidente Surreal. Trabalha, domina e expressa-se através dos sonhos. É um Magritte da palavra política; um Garrincha do afetos e um Presidente que dança sem música. É um presidente perfeito enquanto o bacalhau esteja, permanentemente, em promoção no Pingo Doce. É a grande surpresa que saltou no panorama político, em plena terceira idade, quando leva no mundo político desde menino e moço.

Foi durante toda a sua vida política o que perdia e o desconhecido. Agora é o conhecido e o grande beijoqueiro público. Fala e quer tudo; quer tudo, mas, faz unicamente o gesto. Quando penso no Cavaco e Silva imagino-o a sorrir e a abrir os braços enquanto ouve o Toni Carreira; quando imagino o sonso do Sampaio imagino-o a ler o antigo Tempo e o Modo e a beber leitinho; quando imagino o Ramalho Eanes vejo-o a ouvir uma Orquestra de Camara de Metal Alemã.

Mas, quando imagino o Presidente dos afetos e dos orgulhos sinto-o a dançar sem música com a Paula Rego. É o grande inspirador do pós-surrealismo ou o grande forjador da dança sem música. Merece o Prémio Camões.

É o Presidente que emociona porque sabe falar do coração; porque fala da Liberdade; porque declama Poetas; porque fala de bandeirinhas à Rainha de Inglaterra; porque – possivelmente – já pensou no barbeiro e penteado apropriados para o Donald Trump. Em termos políticos falará o seu aluno António Costa e já calará o seu camarada de partido Pedro Passos Coelho porque quando tiver que falar, terá a boca cheia de sarrabulho. Rebelo de Sousa é um génio dos jornais. Quando a sua vida política abrace o fim deveria fundar um Pasquim em Coimbra para descontrair os doutores durante o fim-de-semana.

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Coimbra precisa de mais alegria e menos pastas ensovacadas. Precisa doutores que se neguem; precisa que o Rancho Folclórico e Etnográfico da Moimenta da Beira lhes alegre as serenatas. Coimbra deve dar férias ao Mondego e ao Choupal. Coimbra e Donald Trump são a antítese perfeita, por isso, Marcelo Rebelo de Sousa deveria, num futuro não longínquo, ocupar-se de faze-los dançar sem música. Um Pasquim seria a coroa de brilhantes, safiras e esmeraldas que coroaria a sua vertiginosa carreira e o Mundo tornar-se-ia otimista sem o penteado do Trump e sem a pasta ensovacada à orilha do Mondego.

Canta enquanto dança o Grupo Folclórico e Etnográfico da Moimenta da Beira: “ Quem gosta da pandeirinha / Quem gosta da pandeirinha?..”

Fotos: Pedro N. Silva (arquivo)

01dez16

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1 Comment

  1. Fernanda Lança

    somos o Portugal que com muito afecto deixa que aconteçam coisas como haver médicos tão exaustos que nem valorizam os pacientes, juventude a viver a dias à míngua de pagamentos mensais que muitas vezes acontecem por metades ou nem chegam acontecer, facturas mensais pornográficas e vassalagem a museus cedidos generosamente ao povo que o povo paga calado e o muito mais que haveria a dizer. Vivemos no Portugal das revistas cor de rosa , um imenso programa da manhã onde o assunto que mais relevo tem é a declamação dos versículos do Corão com muito afecto, porque o Corão é uma religião da Paz, enquanto nos bastidores a reunião da Trilateral acontece com convidados como o Passos Coelho. Nem me vou alongar mais. O futuro é o da continuidade do sistema onde apenas podemos esperar ser mais escravizados, mas agora impregnado pela saliva dos beijos

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