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Com sapatos novos

José Luís Montero

A caminho do fim; no início de um novo acontecer. Mas, nada disto é verdade; não é mais que uma convenção e o produto de um discernir cultural onde, como em quase tudo, as religiões meteram o bedelho. No entanto, como se acreditasse nos OE, teremos letra nova sobre causas velhas. O futuro sempre é anunciado com um sorriso de orelha a orelha mesmo que o salário mínimo seja ridículo e as portas do bem-estar permaneçam fechadas para obras quinquenais na loja das finanças.

O País está no lago dos afetos. A paisagem é uma cerca amuralhada pintada com grafitis que plasmam prosperidade, felicidade e harmonia. Nesta sociedade só não é feliz quem não quer; se não há pão; há côdea; se não há sopa; há água fervida. E se queremos fundamentar, podemos olhar para as estatísticas e daremos com a subida na venda dos automóveis. Ficamos, automaticamente, cheios de razão; autoconvencidos; enganados por vontade própria ou simplesmente, comportando-nos como verdadeiros idiotas.

O Presidente Marcelo, com o aplauso da direita à esquerda (a direita discretamente), ajudará o País a metabolizar a desgraça e como o mago da cartola, transformá-la-á em satisfação, em otimismo. Deus é grande e o Benfica, como ou sem ajuda arbitral, continuará a ganhar comodamente os jogos necessários. Verdadeiramente, não entendo tanta queixa sobre os árbitros; por acaso não fazem parte do jogo?… Quem critica duramente o Jorge Jesus por ter sido comido, literalmente, pela tática e estratégia do Rui Vitória no Estádio da Luz? Ninguém. No entanto, vozes reconhecidas continuam a falar de tudo menos da grande zurra técnica que o Rui Vitória lhe deu e continuam com voz douta a dizer: “

O Jesus é o melhor treinador português…” como só vejo futebol quando me apetece e não é necessariamente o futebol português, quando oiço este dito, penso: “ e o Mourinho é o melhor da Lourinhã; o Jardim é o melhor da Madragoa e o Villas-Boas é o rei de Paranhos.” Portugal, como muitas sociedades contemporâneas, é um lugar onde nascem autênticos chavões e depois são repetidos até á extenuação e a própria burrice. Quando jovem era admitido e nunca contestado que o Urbano Tavares Rodrigues era um dos grandes romancistas da República. Hoje, com o escritor ainda vivo, uns arrependem-se de ter perdido tempo com os seus romances e outros, as gerações posteriores, desconhecem a sua existência.

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Não há nada melhor que estrear sapatos. Gera mais otimismo que mil discursos do Presidente da República. Transmitem-nos elegância; prestância; janotismo e o pensamento cheio de sorna: são mesmo bons para dar umas boas biqueiradas em meia dúzia de crápulas. Principalmente nos eruditos que discutem os Orçamentos do Estado ou nos inventores do uso abusivo e mal utilizado da palavra: expectável. Repugna-me ouvi-la nas bocas mais banais do comentário televisivo. Normalmente, utilizam-na de tal forma que fica carente de qualquer significação. Deus é grande mas, tremendamente injusto.

No caso do abuso da palavra expectável deveria ser severíssimo e não é; permite, então o maltrato; a deturpação e ajuda a propagar a santa ignorância e a vaidade verborreica. Ouvir, perto da hora sagrada da meia-noite quando os olhos começam a fechar os estores, alguma das personalidades televisivas que adormecem a cidadania – por isso, as pessoas refugiam-se nas telenovelas – abrir eruditamente a boca e dizer: “também era expectável…” significa que esse cavalheiro desconhecia totalmente a situação ou a questão de que se fala ou está com pressa porque quer apanhar o Metropolitano.

Ano velho; o ano passado gastou todas as palavras. O novo; o recém-nascido ainda não fala, nem leu o Camões. Vem cheio de cheiros invernais; cheiros de folhas secas; carregado de melancolias; com sopros vindos do mar. Cheio do aconchego das mantas; das pantufas quentes; de tardes-noites ao telefone porque não se poder passear. Noites hidratadas à sombra do Facebook a comentar notícias únicas. Noites de aguardente e broa. Textos de palavras cheias dos pesadelos da solidão. Noites com desejo de Poesia anónima. Dias cheios de vontades e planos para esquecer-se que os Governos da crise existem. O ano nasce com sapatos novos; bicudos e brilhantes aptos para dar boas biqueiradas.

Foto: Pesquisa Google

01jan17

 

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