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Raptados

 Benigno de Sousa

Fiquei hesitante, quando, o diretor do “Etc e Tal jornal” me desafiou para redigir esta rubrica de “apanhados” históricos desportivos. Refletia, dizendo a mim mesmo; joguei futebol nos clubes: o Sport Comércio e Salgueiros, o Desportivo de Portugal, o Fluminense, Praça da Alegria, o Ribeirenses e o S. Vítor, por que não? Aceitei.

Metamórfico repórter investigador andarilhava pela Invicta em busca. Entrei em cafés e ilhas para poder saber insólitas histórias do desporto e ao passar junto do MacDonalds, antigo café Imperial, lembrei-me do meu tio, António Monteiro, industrial de ourivesaria, no Bonfim, sendo um dos fundadores do Boavista F.C., teve em 1937, um acontecimento que, passados 40 anos, na aldeia de Casconhe-Paredes, donde é o meu paterno, num dos almoços domingueiros em família, no verão, relatou.

BOAVISTA FUTEBOL CLUBE

Enquanto as mulheres lidavam à cozinha os homens discutiam futebol. E o meu tio Costa disse para o meu tio Vieira:

– O Benfica raptou o Eusébio, senão, ele tinha jogado no F.C. Porto…

– Que grande disparate! – Replicou o Vieira. – Quem tentou raptá-lo foi o Sporting…

– O que dizem não é verdade. O único atleta raptado foi o Paciência. E assim digo porque conheci os raptores…

– Ó Monteiro! Nunca contaste. Como é que isso foi possível?

À época, o tio Monteiro, era 1.º secretário do Boavista, então, encetou:

– Um cliente angolano, a quem eu fora indicado pelo capitão Loureiro, pelo Natal do ano passado, fez-me uma encomenda de terrinas; salvas, jarras, castiçais, pulseiras em prata. No negócio, ele falou-me, sabendo da minha ligação ao Bessa, que tinha um afilhado alto atleta gabarito e desejava vir à metrópole realizar os seus sonhos doirados no futebol, e para não refrear a indústria, até porque em causa estavam muitos mil escudos da incumbência e também como o futebol é negócio, os réditos davam perfeitamente para os dois, então, perguntei pelo seu valor, e o Pascoal me disse: à vara saltou 3.5; era recordista no lançamento do disco; segundo nos 110 metros barreiras, e jogava futebol na posição a médio-centro no Sporting Club de Luanda; havia já feito 21 anos, o seu passe era de três mil escudos, e mensalmente deveria receber a quantia igual.

Comprometi-me em apresentar o caso numa reunião de direção; sendo aceite lhe enviaria um telegrama para o atleta embarcar. Mesmo sem sabermos do seu real valor, decidimos que embarcasse. No início do mês de Janeiro, tratei da ordem. Portanto, o Pascoal ficou a tratar do passe e que o Paciência sobre as ondas oceânicas baloiçaria a bordo do “Mouzinho”. Chegaria no início de Março; quanto aos trinta mil da prata, subtrair-se-iam as despesas da transferência.

Paciência, o jogador "raptado"
Paciência, o jogador “raptado”

Passou um mês. Num dos primeiros dias invernosos de Fevereiro, fui à baixa comprar o “Norte Desportivo” e, de repente, chovia a potes, por isso, abriguei-me no Imperial. Sentei-me. Pedi um café. E, ao folhear a quarta página, perturbou-me uma entrevista feita ao Paciência, pelo correspondente A. Couto Cabral Júnior, em Luanda. Confirmava ser verdadeiro a sua vinda para o Porto, e seguiria no “João Belo”.

A ideia foi do Silva Adães, que me pôs brasas. Não tive dúvidas que o andrade duma figa o raptou. Fiz a mala, e, depois, fui a Campanhã comprar um bilhete para no foguete chegar a Lisboa.

Cheguei a STª Apolónia. Meti-me num táxi e pelo percurso o motorista informou que o “João Belo” havia chegado à meia hora. Pedi-lhe que acelerasse porque estava em causa uma honra.

costa junior

Mal entrei no cais dei de caras o Costa Júnior, presidente do F.C. do Porto. Enervei-me e a gesticular perguntei pelo atleta? Se não aparecesse chamava a polícia! Então, disse-me, se eu quisesse que o acompanhasse, para ficar a saber com quem ele estava. Subimos a bordo e junto à proa víamos as caras conhecidas dos leões. Invoquei direitos sobre o jogador e um, que mais tarde soube ser o presidente Joaquim Duarte, a rugir fez-se a mim mas de imediato dei-lhe um infesto até que a fera amansou; pior foi quando chamei o Paciência para me acompanhar; friamente disse-me: que era sportinguista desde pequenino. Desiludido… desisti. Mas não ficou por aqui. Os lagartos pagaram-me as despesas da ida e volta; e quanto ao Pascoal liquidou a totalidade da compra.

Naquele momento, o meu pai, que na sua época fora excelente jogador de futebol, mas, atraído pelos cabelos e olhos negros da noite e que por ela se apaixonou, atalhou:

– Ah, ah, ah! Ó monteirinho! Essa história comparada com o rapto que eu presenciei é uma brincadeira.

– Conta. – Dizia o Adriano seu irmão. – Conta Artur, conta.

– Foi assim: a chuva caia em catadupa. O portuense, flagelado por um inverno cruel, recolhia cedo, para sofregamente, nas quatro paredes da sua casa, abrigar-se do temporal desencadeado sobre a cidade.

Acabavam de dar as últimas badaladas do dia. Na Praça da Liberdade passavam como meteoros alguns vultos, aqueles retardatários que, com qualquer tempo, saem para dar o seu passeio de todos os dias. Eu tive de levantar a gola do meu sobretudo – um “dermier cri” que tinha sido feito para gozar deliciosamente o sol de Inverno.

detetive

O duche de água fria – logo após a sonolenta atmosfera do “café da águia imensa, o Imperial”, causou-me um mal-estar evidente. Apressei passo, de forma a galgar, o mais rapidamente possível, a interminável rua do Bonjardim. Há minha frente seguiam três estudantes; um deles tinha corpo de atleta, imenso, a tornar mais negra, com a sua capa a esvoaçar descuidadamente ao vento, uma noite já dum negrume nada vulgar.

O vento, eterno confidente, trouxe-me aos ouvidos, retalhos de frases nervosas e desconcertantes. Estuguei passo, para surpreender colóquio daqueles noctívagos que ousavam desafiar uma noite tão inóspita. A minha curiosidade atingiu o rubro, ao ouvir dizer: – mas se resiste?

Visionei logo uma partida de estudantes – eternos insatisfeitos, sempre à procura de aventuras arriscadas. Como já fiz parte desses batalhões de moços intemeratos e irreverentes, apaixonei-me pelo desenrolar da “partida”, que desde logo previa salpicada de incidentes.

Os três vultos que seguiam, agora, a dez metros, viviam só o seu mundo, afinal a bem pouco se resumiam: naturalmente iam raptar casta donzela, e, por isso, aproveitavam aquela noite amiga para todos os cometimentos ousados.

vulto

Já não sentia a chuva: estava agrilhetado ao desbobinar do filme que em plena rua me oferecia as primeiras imagens sonoras. Passei a rua Fernandes Tomás. A chuva caia com mais impiedade, espartanamente, como soldado intemerato de sentinela às trincheiras, continuava no meu posto-vigia atento ao menor gesto dos três misteriosos estudantes.

Quando atingi a calçada que existe antes da rua Gonçalo Cristóvão, vi os meus perseguidos estancarem, repentinamente. Teriam chegado? Os meus ouvidos procuravam adivinhar tragédia ou comédia que entraria no primeiro ato. Mas, os meus olhos não traziam nada. Há minha frente, as ruas, desertas, constituíam o panorama triste. O único sinal da vida era-me dado pelo matraquear da chuva, caindo, sonoramente, pelas pedras brilhantes das ruas.

Os três embuçados, postados à esquina, espreitavam qualquer coisa. Da rua Guedes Vieira surgiu vulto, apressado. Os seus passos grandes e insistentes diziam-me que ele estava ansioso para chegar a um “porto de abrigo”. Os estudantes seguiam atrás do vulto e agora caminhavam apressadamente, como à compita com o perseguido. E, para segui-los, lancei mão de todos as minhas energias, já agora, não queria perder o espetáculo.

rapto - 00

Antes de chegarmos à Praça do Marquês, um dos estudantes apressou mais o passo e, quando passava pelo vulto, deu-lhe propositadamente um empurrão, talvez, com qualquer frase azeda. Os outros estudantes chegaram junto dos dois antagonistas e, de súbito, sem nada que fizesse esperar um ataque tão repentino, amarfanharam o transeunte; quando me dispus a intervir, um automóvel que estacionava à esquina pôs-se em andamento e passando junto do grupo parou para todos entrarem.

Era tarde para mostrar a minha presença.

O automóvel desceu a rua em vertiginosa corrida, mas eu, que estava junto de um lampião, pode ver dentro do carro o misterioso raptado. Os meus olhos trouxeram-me um rosto conhecido – mas a imagem não teve tempo de fixar-se. Depois, a minha dúvida tinha razão de existir, porque não era possível que o raptado fosse… Não! Aquela perseguição febril, sob uma chuva torrencial, tinha-me desafinado os nervos e, naturalmente, os meus olhos foram traídos pela emoção do momento que passava.

Fui-me deitar, mas durante a noite a curiosa aventura martelou-me a mente e o sol, que rompeu apôs uma enorme tormenta, veio visitar-me sem ter ainda adormecido. Levantei-me e segui a minha vida.

À noite, fui à Brasileira e a um canto, com cara de poucos amigos vi aquele que os meus olhos me tinham apresentado como o transeunte misterioso. Aproximei-me e sentei-me na mesma mesa. Sem vacilações, contei-lhe a aventura da noite transata. O meu ouvinte escutou sem interromper, quando chegou à altura de denunciar a minha dúvida, o companheiro de mesa, deixou-me perplexo, ao dizer-me: – Pois os teus olhos não te enganaram. O raptado fui eu.

O complemento da aventura chegou em meia dúzia de pormenores:

– O carro misterioso deu inúmeras voltas. Tenho as impressões que me levaram a um dos arredores do Porto. Entrei numa casa rustica mas asseada. Numa sala estava outro estudante que, pela sua maneira de falar, parecia ter qualquer ascendência sobre aqueles que tinham sido os agentes. Eu, estático, olhava para aquilo tudo com ar que devia ser aparvalhado.

Aquele que nos esperava, ao notar a minha surpresa, apressou-se a explicar o mistério que, afinal, se resumia a muito pouco: – queriam que eu assinasse a ficha por determinado club – perdoa-me que não te diga o nome, mas assim o jurei. Prometeram-me “o mundo” desbobinando perante os meus olhos imagens tentadoras – lindos “sonhos cor-de-rosa”.

o norte desportivo - 00

Ouvi-os, religiosamente, e só depois de eles me pedirem desculpa da “americanice” cometida é que, pausadamente, lhes disse o seguinte – Mas eu não quero nem posso jogar por outro club que não seja o meu. Reparem que já estou preso no campeonato, pois fiz um jogo oficial. As minhas palavras, ditas sem maldade, devem ter escaldado os quatro protagonistas da rocambolesca aventura. Li-lhes nos olhos o desânimo, a desesperança, a amargura e lamentei, que eles tivessem perdido ingloriamente os seus esforços. Como resposta ao meu esclarecimento recebi um: “desculpe”, dito com uma suavidade enternecedora.

O automóvel voltou a fazer complicado circuito e decorrida uma longa meia hora achei-me à porta da minha casa. Os meus sequestradores tinham sido gentis. Da aventura guardo, somente, este maldito sono que não me abandona e que me faz ter uma cara de poucos amigos…

Nunes, antigo jogador do FC Porto
Nunes, antigo jogador do FC Porto

Ia a perguntar, procurando saber qual a coletividade que o pretendia, entretanto, uma voz atrás de nós inquiriu:

– Então, Carlos Nunes, quando voltas a jogar?

E sem vacilações o recém-chegado senta-se à nossa mesa, perguntando coisas do joelho e mais algumas toleimas…

– Foi o Nunes que marcou quatro golos ao Sporting? – Perguntou o tio Costa. – Naquele jogo em que o F.C. Porto ganhou por 10 a 1?

– É verdade. A aventura sofrida por Nunes fica envolta em complicado mistério – fica numa sombra tão negra como aquela noite em que não dormi a pensar no rosto do raptado. E, afinal, os meus olhos não me tinham enganado: era o Nunes!…

E, naquele momento, com uma colher de pau na mão, surgiu a minha mãe, e disse:

– Meninos! Está na mesa, venham provar…

Também eu fiz prova mas de vida, à frente duma viatura com os pneus a chiarem. Passei o susto. E, do outro lado da rua, reparo na Biblioteca Municipal do Porto. Então, pensei: e se fosse confirmar a veracidade desta narrativa. E lá está, à cota p-d-122, no primeiro trimestre, do ano de 1937, nos textos do jornalista Mário Braga, no “Norte Desportivo”.

Fotos: Pesquisa Google

Fontes: “O Norte Desportivo

01mar17

 

 

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