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O senhor das ondinhas

José Luís Montero

Tenho os dedos adormecidos. Não é do frio e do calor também não é. Pelo sim e pelo não direi que é uma mania adquirida a ler jornais de grande tiragem: “A Bola”, o “Jogo” e outros de notícia escaldante e incisiva. Não é de contemplar o Presidente da República enquanto aguardava a procissão do Senhor dos Passos ao pé da Capela da Senhora da Saúde; nem do melhor café de Lisboa no Ai Mouraria… Muito menos das façanhas verbais de um holandês que anda pela Europa fora a falar de finanças, mulheres e bagaço.

Desconheço o seu nome. Usa óculos; tem o cabelo encaracolado; parece magro e não sei se fala inglês. Não falo de mulheres; falo de paixões; não falo de finanças porque é cruel falar entre falidos. E não falo de bagaço; bebo-o e quando o bebo, falo sem que reste memória.

Esse cavalheiro do cabelo encaracolado nunca bebeu bagaço caseiro gelado, nem sabe que as paixões emudecem e não deixam falar. E desconhece os sonetos de Camões. Não imagina que se pode escrever: “ Amor é fogo que arde sem se ver;/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente;/…/ Esse cavalheiro desconhece-se e desconhece a vida maiúscula que inspirou o alambique que produzia aquecimento natural em épocas pretéritas antes dos labradores saírem para a azáfama. Desconhece a História prática da Agricultura, por isso, antes de falar de finanças deveria apanhar uma boa borracheira de bagaço.

Mas estou entumecido; se não estivesse, não escreveria sobre a banalidade ambulante instalada em Bruxelas. Há coisas mais interessantes para escrever: morreu o Rokeffeler!.. O Passos Coelho anda às aranhas!..

E também poderia escrever sobre as Cartas de Amor do Fernando Pessoa. Começaria a crónica a mencionar a Ofelinha e acabaria o texto com afagos em diminutivo. Mas, não; não estou com palavra ágil; estou com palavra sacana plena de piripiri para fazer que o homem de óculos e cabelo encaracolado tenha que beber uma garrafa de vinho com alto teor alentejano e se deite onde caia. Nem a notícia da ventura santa dos pastores de Fátima e do seu prodígio juvenil me arranca do tédio do holandês que desconhece o bagaço e a paixão expressa em Camões. É um ignorante. É um burocrata. A quem serve este esquálido de pensamento e obra?..

dijsselbloem

Talvez amanse nesta reta do epílogo da crónica. Sou brando. Talvez me nutra de espírito beatífico e lhe fale da lenda do Duque de Alba durante as Campanhas de Flandres. Talvez não; talvez o ignore e lhe recomende uma paelha congelada. Não sei; hoje não sei nada. Só penso e pergunto-me como existe um primata tão parecido a uma besta sem ter a utilidade que as bestas têm. O homem do cabelo encaracolado provoca-me mais sonoridades que uma boa feijoada à trasmontana. É uma tristeza.

Que lhe diriam a Natália Correia ou o Almada Negreiros? Que lhe diria eu com uma garrafa de aguardente entremeias?.. Eu talvez lhe escrevesse um poema e o intitulasse: Ó Mudo: Cala-te!.. Porque quando se bebe aguardente é como quando se ouve Fado: faz-se silêncio. É como quando se come bacalhau com grão: fala-se na mesa depois de comer e beber. O jovem trintão ou quarentão fala e não aprendeu os momentos de silêncio porque ainda está apavorado com as lendas do Duque de Alba. Fala para escorraçar o medo. É humano. Ele, finalmente, também é humano; deve ser desculpado.

O meu telefone começou a vociferar. Um amigo que tem a feliz ideia de me transmitir as suas imaginações como se me fossem uteis, não me deixa sossegado. Pensei que tinha uma urgência e atendi. É um rapaz bem formado. Educado nos rituais da subtileza. Detesta o Futebol e tudo quanto seja correr atrás de uma bola. Depois do cumprimento e de perguntar pelo jantar a quem não tem esse costume, disse-me: “ Porque não escreves sobre o bácoro  Dijsselbloem?.. Fiquei estupefato e respondi: não sei quem é esse gajo!

Foto: Pesquisa Google

01abr17

 

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2 Comments

  1. Maria Fernanda Lança

    na verdade falou o tipo que é de um país onde há mulheres em montras tal como nós, os do sul, temos a carne em talhos. Falou o tipo do país onde há cafés para consumo de droga. Será que o que lhe doi é sermos todos amadores e não se pagarem impostos pelos divertimentos como na Holanda, o país que o viu nascer e também que o fez corrigir o curriculum por ter mentido nas qualificações, com uma cópia fraudulenta de mestrado? Quem se julga este palhaço? Só pode falar assim porque até agora não temos tido políticos com coluna vertebral para meterem estes novos na ordem. Ou seja: está mal habituado

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