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À Praça Buscando-me

Bruno Ivo Ribeiro (*)

Uma praça, uma rua e uma cidade ou aldeia, são aquilo que formos delas…nem mais nem menos, apenas aquilo que quisermos ser com elas.

Navego na praça de ponta a ponta. Percorro o Este e o Oeste como se fosse num olhar desde a mão direita à mão esquerda, passando pelos braças e pelo plexo.

Sigo o externo e mergulho no Ser, mergulho no fundo, na consciência da existência e do estado.

Vejo as flores, vejo os arbustos que se fundem na calçada. Vejo os cães atrelados às pessoas como se atrelassem a elas o destino entre o tudo e o nada. Essa possa que abomino, de meio-termo entre a subjugação, o amor e o ódio, pesa-me tanto como pesará a inocência ao cão de se julgar livre, mas de estar fisicamente ligado a alguém, que provavelmente, nunca sequer se ligou a ele como por tantas vezes acontece.

O Homem sente-se poderoso com uma trela na mão, mas fraqueja com uma flor.

O Homem sabe a amar porque sabe odiar. E como escolher a blusa, as calças ou o sabor da bola do gelado, ele escolhe, de acordo com os seus gostos e inclinações…

Esta tragédia igualmente nefasta, e por tão nefasta de o ser, é totalmente humana; sugere-me que se assim o é, então o braço que envolve o pescoço de um condenado faz o mesmo que a trave em relação ao Homem, como o próprio Homem faz ao seu suposto cão.

bruno junho

A diferença está na parecença e não na presença.

Está onde nada está. E melhor assim que o seja. Melhor bem melhor nesse emaranhado de coisas por dizer e fazer, do que pior nesta unção programática e conjugal de ter sido.

Melhor fazer para deixar feito, e sonhar mais tarde com o passado, do que não fazer e preferir constantemente sonhar com… o Novo.

O Novo, para mim é só uma acessão do que está ainda por concretizar.

Para mim o novo é uma mera circunstância de já não ser.

O…Novo, como tantos o chamam, devia ser o velho do destino, já que para ele nada é novo, e para nós sempre será algo que desconheçamos.

Posso dizer portanto que me “novifico” a cada instante. Torno-me Novo afinal. Se para mim só é algo Novo, quando é desconhecido ao meu todo, então todo o meu todo é um novo que se vai perpetuamente reconstruindo.

Estou farto de ouvir de quem não ouve, que o falar é ser novo, e que os conceitos se misturam numa sociedade degenerada…e velha.

E a sociedade só é velha, porque enquanto todos buscam o novo, esquecem o antigo, e não avançam.

Como poder eu querer o novo, se nem o antigo conheço?

É preferível viver velho procurando o novo?

Ou é preferível ser novo em toda a velhice?

Falar de vida é falar de envelhecimento, logo, se assim o é, então só nos tornamos cada vez mais velhos, tal como o conceito de sociedade que não é de agora. Se somos mais velhos, podemos manter sempre a busca incessante pela novidade dentro de nós, e o conhecimento faz-se. Gera-se conhecimento, porque se cria o Novo. Reinventa-se a novidade, porque se repensa o antigo. Conhecem-se ambos…e a sociedade renova-se…e a trela, a praça e o Homem, nunca mais serão a mesma coisa nesta praça que deixei.

(*) Autor texto e foto

01jun17

 

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