Menu Fechar

Triste Abril

José Luís Montero

A História leva-nos a Abril de 1974. Portugal estalou em regozijo e de Paris chegavam homens livres de todas as cores. Acabamos de dobrar Abril de 2017 e Portugal sobrevive no meio da tormenta internacional e de Paris chegam ventos quem nem lembram ao diabo. Estados Unidos de América vende o que não tem: decência. E Europa está na agonia da incerteza.

Entretanto, no jardim do futebol acontece a morte porque alguém coloca a arruaça futebolística no centro de todas as atenções e de todas as motivações. Coloca a mais alta expressão da estupidez como um modo de ser e estar. Morrer atropelado depois de uma convocatória via SMS para afirmações de pugilato tragicamente caricato. Morrer em pleno ritual da barbárie do entorno futebolístico. Rezam as notícias de Café que o falecido estava na companhia, também, do seu jovem filho de catorze anos. Dizem que o automóvel maldito ia em fuga desesperada para não ser pisado pelos fanáticos contrários. E depois destas conversas, diz-se com ar de juiz: o árbitro roubou-nos! Que grande corrupção… Perante o panorama, entro num bar e entretenho-me a beber cerveja fresca.

Não sei se merece a pena escrever. As televisões derrotam a palavra escrita e muitas destas palavras nem precisam de ser derrotadas porque não são lidas. Estamos numa Primavera bucólica; triste; fria apesar do bom Sol. A corrupção do Sistema tem um forte muro de contenção e distração: o facto que o árbitro veja ou não veja uma canelada. Mas, o Sistema com a fantasia americana de eleger um pagliaccio ou o orgulho francês ferido pela presença relevante de Marina Le Pen na vida pública mostra na sua etiqueta uma indicação: Caducado. Por isso, o temor que existe instalado nas entranhas de todos os países e de todos os políticos. Não estamos a viver, somente, uma crise económica; vivemos uma grande crise de pensamento e ação social. As paredes desta moradia podem desabar enquanto dormimos, falamos com a namorada ou maldizemos o árbitro.

ninho liberdade - 00

Cada palavra que escrevo está prenha de toda a confusão e incerteza reinante na sociedade. Todas significam alguma coisa específica e toda a barafunda universal; são a lenda de Babilónia. Saio à rua; peço um café; sou atendido por um trabalhador que fala francês e inglês; trabalha dez horas e ganha 600 euros fora as gorjetas… No entanto, quando passo ou passava pelo Pátio de Salema, por cima do Palácio da Independência, há um Sindicato de Hotelaria que todos os 1ºs de Maios passeia cartazes pelas ruas. Se este facto não representa, cabalmente, a confusão universal que entranham as palavras que escrevo, quer dizer que não estou a escrever, estou a ver penaltis reclamados pelos honoráveis presidentes dos grandes clubes.

Chega um dia destes o Papa. Fátima será outra correria de crentes. Milhões em forma de moeda ou em plástico encherão os sacos da Fé. Ouviremos tantos elogios ao Papa que adormeceremos a pensar que estamos perante um Ser Divino. O céu também tem um valor e um preço. Tudo se compra tanto durante a vida como na morte. O fenómeno Fátima não foi aceite durante a República. Veio o ditador Salazar e o seu companheiro Cerejeira, misteriosamente, e Roma aceitou o fenómeno chamando-lhe, como é habitual, milagre. Começou, então, a fábrica dos sonhos. Arribou o El Dorado da Fé. A pequena terra transformou-se. O que era bar de aldeia transformou-se, como a multiplicação dos pães, e é muitos e diferentes espaços de restauração; o que era quarto para alugar, virou hotel com ou sem SPA; o que era telheiro para albergar a jarrete, transformou-se num gigantesco parque de estacionamento. Eis o milagre! Eis a entranha dos segredos de Fátima.

Este Abril está a anular todas as saudades que tinha de que chegasse Abril. Fiquei com a sensação que Abril é – foi um mês como outro qualquer. Era um mês que assumira na sua essência alegria. No entanto, transformou-se num mês, outro mês que se consome como uma fardo de bacalhau que está em promoção no Pingo Doce. A passear pelas ruas de Lisboa encontra-se em abundância o slogan: “Pura Poesia”. Mentira. Propaganda. A Poesia jaz no cemitério onde estamos todos: o cemitério da apatia e desengano.

Foto: Pesquisa Google

01mai17

 

Partilhe:

4 Comments

  1. Eduardo Guerra

    … e é(?) muitos e diferentes espaços de restauração
    … jarrete(?) de Jarreteira, (a Ordem)?

    Seja como fôr, concordo, dum modo geral, com as ideias expressas.

  2. Fernanda Lança

    é o culminar da engenharia social ao serviço dos lucros pornográficos. Há que retirar a identidade ao indivíduo, a esperança aos povos e fazer de todos uns zombies servis agarrados pela dívida. O resto, há que dar circo ao povo para que este deixe fluir as frustrações sem que o sistema corra riscos

  3. Graça Maria Marques Costa

    Um dos melhores textos que li ultimamente .
    Lúcido, amargo, tão real que chega a magoar.
    Dizes , algures no texto que “As televisões derrotam a palavra escrita e muitas destas palavras nem precisam de ser derrotadas porque não são lidas.”
    Podes ter razão mas estas tuas são lidas sim amigo… são lidas e apreciadas , mesmo que sejam murros no estomago.
    Não posso é concordar com o fim…
    Para mim a Poesia não pode morrer, senão morro com ela.
    Obrigada por mais um belíssimo texto , para ler, reler e relfectir. Pode ser que ainda não seja tarde demais, apesar de ter muitas duvidas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.