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Uma Primavera sem flores

José Luís Montero

Estou com dor de estomago. Tenho cara de azia muito semelhante à que nos brindava o ex-presidente Cavaco Silva. Penso em Manchester, nas religiões e na barbárie e penso que a barbárie histórica que faz da tragédia humana fator de pressão pretensamente política se repete século trás século. Somos tão malditos e tão bárbaros como nos tempos idos quando se ajustiçavam pessoas ceifando cabeças ou arrancando os corações pela frente e pelas costas. Somos uns bárbaros que nos diferenciamos do passado pela moda prêt-à-porter. Zara faz de nós primatas elegantes e desinibidos. Manchester viveu o horror e o terror. Nós vivemos o risco de viver. A morte pode chegar na carroça dos tresloucados divinizados.

Nem o Mourinho com mais uma final jogada e ganha com cabeça, corpo e cotovelos apaga a tragédia. A minha avó diria, simplesmente: o mundo tresmalhou. Eu não digo nada; unicamente passeio a minha cara de azia semelhante à cara do ex-presidente Cavaco.

Com esta triste cara também passeiam em carroça jacobina os líderes históricos do PSOE. Os Filipes, os Guerras, os mitos que, antanho, correram com o PSOE histórico que hibernava no exílio depois de mil fugas e mil pequenas batalhas travadas contra o ditador Franco, foram postos na arrecadação das traseiras do PSOE. A militância foi chamada a votar num processo de primárias e disse: Rua! No grupo de apoio a Pedro Sanchez não existiam vedetas do passado. Estavam cabeças que no passado foram arrecadadas tal como Josep Borrell, Cristina Narbona ou Margarida Robles. Eram notáveis que feriam a estabilidade dos Filipes. Mas, o tempo, descolocou os Filipes e colocou os Joseps…

manchester - atentado 17

Mas, ainda tenho mais medos. Temo por tudo. Saio à rua e temo a chuva. Chego a casa e receio ler a fatura da eletricidade. Estou com um amigo e tremo perante a sua imaginação empresarial. Relembro as eleições francesas e quando leio a informação que aponta o apoio da Banca Rothschild ao vencedor Macron entro em pânico. Joga o Benfica e estremeço pelo que podem dizer sobre o árbitro as claques dos adversários e os comentadores adscritos. Pego num livro e vejo que me saiu alguma coisa escrita pelo Sousa Tavares e desato a correr para que ninguém me apanhe. Vivo em pânico. Vivo a contramão.

O referente social Mourinho, depois de vencer, falou com os jornalistas. Falou dos Poetas. Disse que existiam muitos poetas no futebol, mas, não ganhavam títulos… O futebol não enxerga Poesia. O grande referente social foi claro. Nesse caso parece-me que no futebol só cabem animais de tração com o olhar direcionado ou seja: mulas. E ao chegar a este ponto não entro em pânico; sou a personificação do pânico. Não vejo uma flor e estamos na Primavera.

No entanto, tenho uma satisfação que me acompanha em silêncio. Uma manhã, levantei-me e fui para uma esplanada ler o El País. Estava em Espanha depois de alguns meses sem a visitar. Pedi café com leite e uma tortilha de batata, a famosa tortilha espanhola. Pousei o jornal. Saboreei o café e trinco a tortilha espanhola. Vejo de esguelha o jornal. O jornal que dominou a chamada transição política espanhola e que colocou ministros e presidentes; participou em operações políticas no mundo da Banca e promoveu o Saramago aos píncaros; vendeu, o seu presidente Jesus Polanco, livros escolares no Chile de Pinochet e estava imerso na defesa dos líderes históricos do PSOE não sabia explicar a hecatombe dos Filipes. Mas, os dados falavam sem necessidade de explicação. Sorri e fiquei feliz. O Jornal que acamou com a transição do ditador Franco para o Rei Borbón ficou sem tecla e sem saliva.

E agora o ministro Centeno, dizem as línguas faladeiras, que é o Ronaldo das contabilidades… Se é ou não é, não sei, no entanto, se é um Ronaldo seria melhor que tivesse aparecido anos atrás quando o Ronaldo corria a toda a velocidade, a banda esquerda ou direita, e chutava misseis sobre a baliza contrária. Agora é um avançado-centro e como tal não tem a classe do José Águas. O Centeno tem que procurar outro referente.

Foto: Pesquisa Google

01jun17

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4 Comments

  1. Maria Fernanda Lança

    o único medo que me resta, é que não se faça nada para acabar com esta feira. De resto, o que sinto é uma profunda revolta, sinto-me enganada

  2. Graça Costa

    Magnifica reflexão, como já me habituaste.
    Se te tornas a personificação do pânico quando analisas certas coisas , imagino como te sentirias se estendesses a reflexão, para lá dos muros de Europa.
    Entendo os teus medos, porque também os sinto; as tuas raivas surdas, porque também as ouço e as tuas angústias porque também as vivo – não consigo é ter a tua clarividência em passá-las para as palavras.
    Obrigada por o fazeres por mim.
    Fico à espera do próximo.

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