Menu Fechar

Pedrógão Grande

José Luís Montero

Há dias que não consigo escrever a palavra felicidade. Outros dias nem preciso de a escrever porque os meus olhos dizem mais que qualquer texto. Ultimamente, só sei dizer e escrever: horror. Sou um espectador de televisão muito renitente. No entanto, sempre tenho um dia que não me apetece nem ler, nem ouvir, nem ver, então, ligo a televisão. Uma noite destas de incerteza e onde a apatia marca presença real, liguei a televisão calcei os chinelos e acendi um cigarro.

Marquei o canal que o meu dedo escolheu e olhei sem ver. Falavam de futebol, dos árbitros e de penaltis. Não quis saber nada. O meu dedo esforçou-se novamente e vi umas chamas tremendas. Parecia que ardia o mundo. O brilho escaldante do fogo acordou os meus olhos, soprou os meus ouvidos e escutei: Pedrogão Grande. Aparece então uma espécie de clamor noticioso e um secretário de Estado. O homem com semblante grave e carregado de tristeza anunciava duas dezenas de mortos. Pontualizava o pormenor trágico de pessoas que encontraram a morte dentro dos seus carros numa estrada algures nas bandas de Leiria.

Tremi; estremeci; arrepiei. Constrangi-me. Senti a sensação do desespero. Pensei, mas, não me saiu o menor pensamento. Era terrível o que ouvia e não percebia nada. Unicamente, comecei a sentir aflição e a cismar na terrível aflição da morte noticiada. Levantei-me do sofá e fui fumar para a janela. Senti vertigem e voltei para o sofá. Apaguei como um autómato o cigarro e novamente como um autómato acendi outro.

A ideia que pessoas em fuga de um fogo assassino morrerem encerradas apoderou-se de mim. Remexia-me no sofá. A minha casa parecia que escaldava. A minha cabeça afundava-se num poço profundo de sensações e emoções.

Anunciavam a presença do Presidente da República a horas intempestivas no cenário da tragédia. Anunciava-se que ainda não fora possível calibrar bem a dimensão da terrível tragédia. Afundei-me no sofá. Perguntei-me: acabam de noticiar uma tremenda tragédia e ainda não está calibrada… Não é possível; digam-me que não é possível… estou a ver mal e a ouvir pior… Mas, era verdade. Era real.

O Inferno instalara-se nas bandas de Leiria e o fogo assassino avançava mascarado de diabo pelas redondezas. Os bombeiros atuavam, mesmo que a possibilidade de atuação se chamasse zero. Senti que a morte invadira terras e devorara vidas. Um munícipe da localidade estimava que as mortes se duplicariam ou talvez, mais… Horror! Havia terras e terreolas incomunicadas. Horror! Senti que o diabo instaurara a claustrofobia como leito de morte. Desesperei.

pedrogao grande - incendio

Apaguei a televisão; fui para o meu quarto e fiquei na penumbra do meu aconchego. Não era capaz de dormir. O Inferno daquela noite matava e impunha a insónia generalizada. Finalmente perto da alvorada adormeci, mas, mal o sol quente daqueles dias de inferno abri os olhos e não procurei nada. Fui para a rua. Caminhei apressadamente. Bebi uma bica e enfiei pela ingrime Calçada do Monte. Necessitava ver gente; estar entre gente e a Baixa Pombalina enche-se de gente bem cedo.

Os transeuntes que procurava para misturar-me vinham uns da outra banda do Tejo; outros chegavam procedentes de Sintra enquanto turistas madrugadores saiam de hotéis e outros notívagos e boémios entravam, meios desequilibrados, sem olhar para os porteiros.

Caminhei para o Caís das Colunas. Fui visitar o meu rio e o lugar onde, muitas vezes, fui, durante a noite, esvaziar tensões e pensamentos. Cansado e mal dormido, apanhei um táxi e regressei a casa. Liguei a caixa tonta conhecida como televisão. O horror era cada ver mais profundo e intenso. O narrado é inenarrável pela minha tecla. O sentido não o consegue narrar nem o maior dos Poetas… Só Lucifer consegue falar do Inferno.

Passaram os dias e o diabo perdeu protagonismo e a possibilidade da mão humana criminosa ganhou expressão. Os políticos, uns generosos no esforço e outros a falar da Pedra Filosofal, apareceram no corredor da solução. A varinha mágica apareceu na mão de todos, no entanto, o fogo assassino de Pedrogão Grande queimara cruelmente seis vezes a área de uma cidade como o Porto. A morte de idosos saudáveis, enclenques ou crianças com ar de querubins já não tinha solução.

Os políticos, por norma, chegam aos problemas quando a solução é irremediável. Portugal enlutou. O ser humano enlutou. As soluções serão soluções que na próxima tragedia, iniciada por mão assassina e humana como nesta, serão questionadas. E dizia o cantor: “a morte saiu à rua”. A realidade diz-nos: a morte apoderou-se dos bosques.

Foto: Pesquisa Google (SIC Notícias)

01jul17

 

Partilhe:

2 Comments

  1. Maria Fernanda Lança

    é indescritível e ainda pior , é assistir impotente ao espectáculo do desfile dos políticos a tirarem dividendos à custa do sofrimento inqualificavel dos cidadãos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.