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A tal Geringonça provoca os pigmeus

José Luís Montero

O calor é tanto que imaginei que debaixo da minha cama estava uma piscina. E lá fora onde o calor aperta, os políticos atiram-se a uma piscina também imaginária para refrescar-se e refrescar a realidade. Acontece que nada refrescam e só aquecem ainda mais o meio ambiente.

É uma pena, mas, ouvi-los utilizar a tragédia de Pedrógão como arma arrojadiça revolta-me as tripas. As minhas entranhas não estão preparadas para chafurdar na lama. E todos os dias temos notícias que a oposição à tal geringonça anda no baile sensacionalista no tratamento da tragédia que comoveu os corações de aqui e de além. É uma pena. É lamentável. É próprio de quem não tem vergonha, nem coração. Não sei quem é o Costa ou sei que é filho do Orlando Costa que se notabilizou como romancista da corrente neorrealista. Como político, parece-me que tem a habilidade dos práticos para gerar alianças de Poder.

Resumindo: é um político com habilidade para escalar, por isso, é mais um que anda no baile do erotismo do Poder e não me interessa, nem gosto. Mas, o filho do Orlando Costa deveria atiçar nas orelhas dos opositores à geringonça até chegar ao ponto rouge da ferida. E o presidente dos selfies, das amabilidades, dos afetos e da pasmaceira informativa deveria dizer com tom grave e bem sonoro: “meninos: tenham juízo e comportem-se como pessoas porque já sabemos que todos somos animais; não precisam de evidenciar essa condição.”

Perante o desagrado do combate político sobre a tragédia, o roubo ou não roubo ou como donde saíram ou se entraram das armas é menor, mas, não deixa de mostrar-nos que o Estado sabe comprar armas ou submarinos, no entanto, não sabe arrecadar o que é perigoso, mesmo fora de uso, porque a Vida é sagrada e qualquer arma é um instrumento da Morte.

Além do dispendioso que pode ser qualquer conjunto de parafusos que só servem para matar; para aniquilar um ser vivo e causar dor e sofrimento. O Estado, realmente, nas questões verdadeiramente graves mostra-se totalmente inoperante; incapaz; caducado de longa data. Mas, mais grave é ainda se temos em conta ou consideramos as declarações do coronel Vasco Lourenço que pensa que no meio desaparição dos brinquedos mortíferos, pode existir uma jogada política para desacreditar um governo. Se tal é possível, nem que seja só imaginar tal coisa, só podemos concluir: “a casta política é pior que o lixo fedorento.”

ferias - pintura de andre prints

A Primavera foi triste e o Verão chegou na carroça do lodo. As próximas notícias versarão sobre os fatos de banho da jet-set e dos políticos e escritores – políticos que num exercício de vaidade pesada, nos dirão que lerão duas resmas de livros que irão desde a literatura infantil e acabarão na literatura de terror. O ano passado o escritor-político Miguel Sousa Tavares espantou-me porque disse que começaria não sei por onde e acabaria por reler os escritores russos. Fiquei a pensar e calculei que o Miguel Sousa Tavares teria, talvez, três ou quatro meses de férias.

Relembrei, então, a minha infância quando as obrigações escolares permitiam que crianças e jovens pudessem gozar o ócio abundantemente e viver novas ou outras experiencias como ver e viver as colheitas; o fazer o vinho; contemplar o alambique a fazer bagaço; ouvir os contos da aldeia; aprender a dançar; caminhar pelos caminhos pela noite fora de regresso das romarias e festas; ouvir os velhos da família e da vizinhança a contar as suas aventuras pelo mundo da emigração; saber dos contos tenebrosos que nos falavam como caminhar de noite e proteger-se dos espíritos malignos; pensar que a moça com quem dançavas era o amor desejado para a vida inteira e para toda a eternidade; brincar com os cães do palheiro; chafurdar os pés nos regos de água ou nos regatos. Comer uvas; maças, figos, cerejas depois de baloiçar na árvore. Comer carne ou peixe que cheirava a erva ou mar.

Hoje, todos escancaramos o sorriso porque talvez possamos passar dez horas nas redes sociais e mais dez horas a percorrer quilómetros para comer algum prato gourmet que lemos num suplemento domingueiro de jornal e posteriormente, voltar aceleradamente para casa porque pagamos meio ordenado pelo prato gourmet, mas, estamos cheios de fome. A vida é misteriosa e anda sempre à procura de inovar ainda que muitas inovações não sejam mais que borradelas de pintura.

Foto (pintura): Pesquisa Google

01ago17

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2 Comments

  1. Fernanda Lança

    nada acrescentar. É bom que haja quem coloque o dedo na ferida. Os políticos tornaram-se hienas, apenas pretendem ver sangue para usufruírem de benefícios

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