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Azedumes

José Luís Montero

O Inverno não tem porque parecer a época dos azedumes. O Inverno se é frio; é aconchego; se é chuva; é recolhimento; não é barafusta. Mas, é o que se vive na Península Ibérica. Parece que a lenha para a lareira precisa de um condimento gourmet chamado quezília. E isso que cantam que o Natal é uma festa de paz e amor. E este ano saímos do Natal e do janeiro pior que entramos. Quando entramos, pelo menos, ainda a carteira parecia que cantava; quando saímos nem cantava, nem conservava os coiros.

Em Portugal não se sabe ao certo porque as caras mostram arrelia. Uns dizem que é porque o vinho bom anda caro e o que se pode beber está azedo; outros, os mais politizados, pensam que a Procuradora Geral da República deve continuar o seu mandato até o Juízo Final e os que têm a sua politização nas avessas, argumentam com contundência que é um período patado e não se deve alterar e muito menos prolongar.

A Justiça é, pelo visto, um pato político e não o pato da Lei. Isso sim, com ou sem arrelias, todos concordam com a perseguição ao fumador. Queres fumar? Fuma na rua; queres fumar? Mas, não sabes que o Serviço Nacional de Saúde esta de pantanas? Por tua culpa é que andamos assim; se não fumasses, as Urgências não estariam a viver uma crise existencial aguda. Seria, unicamente, a crise do costume.

No entanto, se fossem só o tabaco e o caso da Procuradora Geral da República os males do terreiro, isto pareceria um vale a florir nos alvores da Primavera. Anda pelas ladeiras ingremes do azedume uma coisa muito mais grave. Chama-se o pão de cada dia do entretém da Comunicação Social. É o amassar cerebral do Poder omnímodo. É o sinónimo do velho dito: oh patego olha o balão….

Chamam-se casos do mundo do futebol sejam dirigentes; árbitros ou personagens intermédias que não se sabe o que são, mas, sabe-se que existem porque são estrelas audiovisuais e quando escrevem uma frase entre vernácula e ingeniosa, correm pelas afamadas redes sociais como se fossem expressões da revelação divina. Provocam o êxtase coletivo e automaticamente salta a necessidade de pedir a demissão do Secretário de Estado do Desporto porque não se pronuncia sobre o penalti dos primórdios das civilizações ocidentais. Daqueles que correm no campo e jogam nem se sabem os nomes ou que dia que jogaram; sabe-se que estiveram em campo quando pontapearam o céu da boca a alguém e o arauto do clube rival faz um “post” que exclama instalado no horror e na indignação: o malandro que assobia não viu a biqueirada na estrela polar do nosso crack… e seguem-se os aplausos escatológicos dos que dizem que sim e surgem os ricochetes dos assobios escatológicos dos que dizem que não.

mesa de cafe - com jornal

A disputa instala-se, então, no terreiro do pontapé foi ou não foi e só o assobio que tem vídeo pode ver. E vê, mas, não tem linha. E não vê porque o assobio do campo assobiou antes de tempo…. E no meio de tudo, o estômago com arrelia ou azedume soa: clock-clock…

Espanha quando azeda é mais tradicional. A corrupção ganha dimensão de cátedra de Café. O governo rouba ou o teu governo roubou mais que o meu fica escrito no mármore das mesas de Café. Identifica as mesas. Os cronistas ilustram as mesas e alicerçam os argumentos coloquias e dão os cognomes. O Chefe da Oposição marca uma posição intermédia. O partido minoritário que aspira a ser Governo depois do novo apocalipse toma o partido das mesas que dominam os cognomes da anticorrupção. O Governo se é como o atual, cala; se é mais conversador fala da confabulação dos caídos.

Mas, a Segurança Social está sob efeitos sísmicos. Mas, o desemprego parece que foi semeado e abarca todos os campos e cultivos. E sempre salta uma voz saudosa que diz que o melhor toreiro de sempre foi o Manolete. E quando a conversa deixa de ter argumentos por culpa da iniciais que fundamentam a denuncia, aparecem os nacionalistas prenhos de iluminação a inventar novos Estados que começam pela bela dama: República. E a mesa do Café fica só. Os velhos amantes que fazem do Café, Lar, separam-se. Começam então as conversações passageiras nos portais de casa sobre os netos; os filhos; as namoradas ou namorados da vizinhança e das saudades do tempo de férias. Mal passa uma hora quando as luzes de casa se apagam. Notam-se resplandores entre os estores. O silêncio inunda Espanha. Algures, por uma janela, ouve-se: “el vino está muy caro; bebe água.”

Foto: pesquisa Google

01fev18

 

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1 Comment

  1. Julia Franco

    Boa noite!
    Muito obrigada pelo envio do Artigo.
    Parabens!
    Gosto muito da sua ironia pondo o dedo, nao numa Freida,em corpos que sangram…
    Quanto a Portugal,chega e did tudo:O patego olha o balao!
    Concordo.Entramos em Fevereiro em tempo pior que o anterior.
    O salero espanol,claro,e o responsavel pela elevacao a Mesa do Cafe…
    Que a sua voz surja algum imprevisto ouvida! Ja partilhei.
    E urgente um alertas, dois alertas,muitos alertas…

    Bom fim de semana!

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