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Povo sem alegrias

José Luís Montero

Quando se entra num Café e se encontra, comodamente sentado, o Presidente do Governo esfuma-se a realidade. Os clientes cochicham. Os empregados sorriem e o patrão parece realizado. Como é Domingo, o Correio da Manhã está em várias mesas e os incomodados sociais dividem-se pelo Diário de Notícias, o Público e pelo lençol Expresso. Parece dia de festa. Mesmo perdido o costume de ir à missa para ouvir o padre, as pessoas ganham o ar cristalino de quem acaba de confessar. As crianças, curiosamente, não fazem barulho e não apremiam os pais e os avós com caprichos. As discussões sobre futebol não existem e ninguém quer parecer fanático do futebol mania. O Bruno de Carvalho nesse ambiente perderia todas as votações. O problema deste ambiente presidencial foi que ninguém me deixou ler o jornal com sossego. Toda a gente queria saber se o café, neste belo momento de glória do Café, era gratuito. O Patrão foi inquerido. Sorria triunfante e sussurrava para que o seu ilustre cliente não ouvisse:” ainda não…” Os clientes habituais pagavam a sua despesa e ficavam desiludidos. Alguns diziam com a boca retorcida: “o Povo nunca tem uma alegria…”

Quando não há cochicho, encontrámo-nos com a morte; o desastre ou a hecatombe. A hora introspetiva do Café onde aparecia o amigo do costume e se cumprimentava a amiga mais desejada, desapareceu e com ela desapareceu o Café. Desapareceu o centro de mil conspirações; de severos escárnios; de amores proibidos; de leituras emocionais de poesia; de leituras escolhidas e únicas que revelavam a verdade universal; de favores entre doutores; de ódios entre bandos. Morreu o Café. Vive o descafeinado com sacarina e sem copo de água. E languidesce o Humanismo. A internet apaga fronteiras e derruba o portal da solidão, mas, não dá calor à comunicação. A famosa interação não tem a vibração espontânea das tertúlias. As famosas mobilizações que se apoiaram nas redes sociais como o 15-M morreram assim que o primeiro demagogo impos o calor do seu discurso. Começaram, como os que combatiam, a corrida caminho do cadeirão ministerial e a alegria da revolta transformou-se na banalidade do voto como delegação de Poder.

cafes - sem alegria

Vivemos num enredo. A voz está moldada. E a realidade não se mostra como tal. As palavras do poeta que transcendem dormem empoeiradas nas prateleiras das Livrarias. Os poetas não são capas de revista. Escrever? Escreve-se, mas, onde os filtros tampam as palavras sãs que falam desde as entranhas não alcançam as fenestras. Estamos no elogio da vulgaridade. Os passeios do Presidente da República são a viva imagem; são imagem; gesto; não são feitos; não são essência; conteúdo. E a sociedade languidesce apanhada por um lucro pueril derivado dos ciclos económicos que quando acabam, a sociedade enterra-se na pobreza donde só saíra aparentemente. Mergulhamos na História e encontramos que depois das euforias económicas, entramos em depressões mais profundas e impérios emergem das cinzas de outros impérios. A economia nega-se porque ela própria se desmorona. Só existe uma realidade económica: a doméstica.

O ciclo económico que nos toca viver é uma invasão. É um motor de expulsão da cidadania dos lugares onde estava enraizada. De longe chega dinheiro para instalar-se, para viver porque há Sol, comida e vinho. E existe cultura e história. Instala-se nas zonas nobres, enraizadas e antigas das grandes cidades peninsulares – Lisboa, Porto, Madrid, Barcelona…- onde vive de geração infindável o castiço; o do lugarejo. O castiço é expulso. É expulso o que trabalha e mantem o lugar vivo através da História. O lugar é invadido pelo ocioso opulento que comprou a bondade, beleza e história do lugar. Transformam a gastronomia. Transformam a estética dos antros de conforto ancestrais. Como são poderosos e supérfluos impõe-se outra Língua; a Língua do novo senhor. E começa-se a beber whisky misturado com cerveja. É a nova modernidade. O novo ciclo e o início do pós-castiço.

Foto: pesquisa Google

01mar18

 

 

 

 

 

 

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2 Comments

  1. Célia

    Quando as palavras desnudam a realidade, esta torna-se ainda mais crua sob a luz branca e fria. Conseguiste despertar o desânimo, a desesperança e a angústia nos nossos passos rumo a um desconhecido medonho. Texto lunar, disfórico…
    Quero acreditar no lado solar, preciso de olhar a simplicidade das coisas e colori-las.
    Ânimo.

  2. Julia Franco

    Muito grata pelo envio.Creia.
    Foi uma delícia e uma tristeza ler o seu texto.Delicia porque senti o meu pensamento espelhado nas suas palavras.Tristeza porque são a descrição da nossa presente realidade.
    Permita-me me…Povo sem alegria a perder a sua identidade.
    Não me julgue contra a evolução.Essa é a única certeza que o tempo nos dá.
    O que vemos,do que fala é simplesmente não cumprir a História .Que a História tem alma.
    Muito obrigada!

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