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Há vida, nas ruas da minha cidade – Avozinho António

Carla Ribeiro

Há Vida, nas ruas da minha cidade…

Tantas que são as vidas, que deambulam nas ruas da minha cidade, mas hoje, irei focar-me apenas em uma de muitas, que constituem a antropologia da nossa sociedade.

Iremos ter mais histórias nos próximos meses.

Avozinho António

Abeirei-me à sua procura e esperava encontrar uma Pessoa suja e até de cheiro nauseabundo, mas isso nem me importava…

Desenganem-se, pois nesse dia não aconteceu, como se adivinhassem que o ia conhecer.

– Veja lá menina, estas doidas da limpeza, hoje ligaram esses chuveiros que estão por cima de si, e resolveram dar-me banho, aqui mesmo e com desinfetante… até parece que precisava! Hoje ninguém se chega a mim, cheiro a lixivia, nem os bichinhos querem nada comigo.

E foi assim que conheci este Homem, com setenta e muitos anos, no seu T0, na entrada de um hospital da nossa cidade.

Sempre bem-disposto, e disponível para conversar, lá foi contando umas anedotas e deixando transparecer alguns pedacinhos da sua vida.

Não nego que este Homem me marcou, pois revi nele a figura, de um Avô, como tão carinhosamente sempre me acostumei a chamar-lhe.

Falava saudoso e de coração cheio de Amor, quando as suas lindas histórias nos contava.

– Menina, sabe quando eu tinha os meus 17 anos, tinha uma vizinha a “Rosinha”, que o marido era militar. Um dia quando eu ia a sair para a escola, veio há porta e chamou-me:

– Toninho, podes vir aqui a casa um momento, não te preocupes que o meu marido já saiu…

– Fui, claro que fui – disse ele com um imenso sorriso malandro e um brilho no olhar, que brilhava mais que a lua numa noite de Lua cheia – e ela lá começou a chegar-se para mim, e a dizer-me que seria um segredo apenas nosso.

– Toninho, tu queres? – perguntou-lhe.

– Quero, claro que quero. Ela era toda jeitosa, e estava ali a arder de desejo, e eu ali cheio de vontade…

– Toninho, quando queres mais? – perguntava ela para me provocar.

– Hoje não Rosinha, que tenho que voar para escola, senão a minha mãe pode desconfiar, mas quando quiser, eu também quero…

– Ora, claro que queria, aquela Mulher era um vulcão, e o homem pelos vistos não prestava, senão não vinha ter comigo… E logo eu que era tão bonito. Ai se queria, até os bichinhos gostam, menina, ia agora desperdiçar uma coisinha daquelas…

– Ai se eu soubesse que era tão bom, já tinha querido há muito mais tempo. – dizia-me ele, com um imenso brilho no olhar e uma felicidade que se crava no rosto.

E nesta simplicidade o Toninho, ia contando uma e outra história, e sempre falava destas mulheres “Rosinha”, “Maria”, “Isilda”, não importa o nome, pois nas suas palavras transpirava-se ternura, candura, carinho, e brilho no seu olhar, a sua expressão enternecedora, sempre que de uma ele falava. Como é lindo assim Amar…

Quanto Amor, ele me fazia sentir quando na candura da sua voz ele me dizia:

– Ai, se eu fosse mais novo… você deve ser fresca… não me escapava…, está sempre bem disposta, sempre aqui fica horas, sentada até no chão, com chuva ou não, só a ouvir-me…

E a sua pergunta secular, a todos as equipas, em que sempre me dizia:

– Você já sabe, não lhes diga, eles têm que aprender.

E lá perguntava ele:

– Então, o que é o metro?

E os olhares entre os elementos da equipa cruzavam-se na busca de uma resposta…

– É uma unidade de medida, é um meio de transporte…

E no seu olhar o brilho e a espera de uma resposta que nunca era a correta. E sabedor da resposta, como que, se de uma melodia se tratasse, lá dizia ele feliz:

– É uma unidade de medida, de comprimentos, larguras e alturas. É a décima milionésima, quarta parte do meridiano terrestre.

Prosseguia com mais uma e outra anedota e as belas histórias da sua vida.

– Há – dizia ele – esta semana vieram as meninas dos médicos para me levarem para dar banho. Serviço completo! Sabe menina, eu ensino-lhes tudo… e olhe que elas gostam, nunca dizem que não! – e estas palavras são ainda mais belas, quando vejo no seu olhar sorriso sincero e mesureiro.

– Esta semana apanhei o táxi do costume, e fui a Fafe visitar a minha amiga, foi uma festa menina! – dizia com o seu ar malandro e feliz.

– Próxima semana vou a Barcelos, já não vou lá visitar a minha amiga há muito tempo, mas vou levar o Francisco comigo, assim sempre vai passear um bocado e faz-me companhia. Olhe, pode ser que também por lá arranje uma amiga, a menina entende-me! – risos… e um olhar sagaz.

Francisco, é o seu amigo, partilham o T0, as alegrias e as agruras da vida.

Tanto que nos ensinava a cada noite, o amor que nos transmitia com as sua historias, aventuras e amores de outrora, que no seu presente, ainda perduravam e o faziam caminhar.

Avozinho António, ele que tanto gostava de ver os jovens a rodeá-lo e contar-lhes histórias da sua vida e lições para apreenderem e fixarem. Falávamos de Amizade, e no auge e pleno da sua sabedoria, dizia:

– Uma triste realidade menina. A Amizade é como as Putas, mesmo vestidas de Senhoras, serão sempre Putas. As falsas Amizades sempre vêm ao de cima menina, mesmo que vestidas de amigas, quando não passam de cobras.

Perguntava sempre com sabedoria:

– Sabem dizer-me quantos tipos de Putas existem?

O ar de espanto e sem saberem bem o que responder, fazia com que ele prosseguisse:

– Temos três tipos de Putas. As Putas, a Puta Senhora e a Senhora Puta. Mas eu explico-vos!

– A Puta, é aquela Mulher, que para alimentar os seus filhos, e a si mesmo, vende o seu corpo, e presta um serviço, é tantas vezes mal tratada, mas fá-lo pela necessidade, para sobreviver. – Prosseguia com a sua calma e sabedoria, um ensinamento, com a sua graça e um enorme veracidade.

– A Puta Senhora é aquela mulher que faz sexo com uns e outros, para fazer mais dinheiro, para pagar os seus luxos, e viver acima da média que o seu ordenado permite.

– E chegamos há Senhora Puta, sim essa que gosta de sexo, e que não olha a meios nem a fins para atingir os homens que quer. Essa apenas os usa para ter sexo, pois o que tem com o seu marido, pois por regra são casadas, não lhes chega. São como os viciados, uns necessitam de droga e compram-na, elas querem sexo, e são as chamadas “porquinhas”, pois usam os homens apenas para ter sexo, e muitas das vezes usam esses favores sexuais para os ter presos e atingirem objetivos sociais.

E desta forma tão clara e simples este Senhor, este Homem, mostrava-nos o quanto os valores sociais e antropológicos da nossa sociedade se destroem a cada dia.

Queria tanto ter um avô assim…

As vezes, uma lágrima corria-me no rosto, de alegria, de carinho ou até de dor.

Este Amigo de Rua era como um pássaro que voa livremente, sem gaiola onde ficar.

Percorre estradas, montes e vales, e sempre trás com ele uma nova historia para nos contar.

Agora que partiu, deixa em mim, o coração repleto de recordações, com a certeza que no meu rosto lágrimas se cravaram, pelas recordações, pela saudade, pelo Amor incondicional que em cada partilha me enche e esvazia o coração.

Jamais conseguirei esquecer as lágrimas da dor do nosso Amigo Francisco… e aquela sua expressão:

– Sabe cara linda, a linha dele chegou ao fim, … parece um bebé naquela cama…-dizia-me, poucos dias antes do nosso Avozinho António partir. E lágrimas corriam dentro de mim, transbordando de dor pelo meu rosto, entre chuva e dor.

Eu sabia que tu já lá não estavas, mas, tu sabias, que eu iria lá voltar…

FOTO_Há Vida, nas ruas da minha cidade (1)

Obrigada

Até breve com novos “sentir”, novos “amar”…

 

Foto: pesquisa Google

01abr18

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