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Tostões de vida morta

Bruno Ivo Ribeiro (*)

Sonhar a Vida e praticar a morte, é como morrer sem ter nascido, viver sem ter morrido, sonhar sem desejar, ou ver sem olhar.

Assim se esvai a vida, num sopro de paz perpétua.

Assim se morrem os sentidos numa expiração, já que à primeira inspiração ganharam vida, fechando assim seu ciclo.

Morrem os sentidos, morre o corpo, livra-se a alma desta cruzeta de ossadas que sustém carne e músculos, e tomba por terra, porque à terra o corpo deve sua origem.

Desfaz-se a carne em pó, e morrem os olhos como pedras ao vento que aos poucos se vão desgastando, e cada vez mais, e mais, e mais, até que por fim restará uma caverna, um espaço, enfim, só mais um buraco a somar aos demais que a carne já perdeu amor de preencher.

Apodrece a cerne, morrem dos sentidos mas viverão as obras que cá se fizeram enquanto a vida e a alma animavam o espírito atormentado.

Perde-se o sentido existência, reencontra-se novo rumo, o novo rumo a caminho dos astros.

TROVOADA_LITERÁRIA_BRUNO BRÉ_ ABRIL-2018

Trilha-se entre quasares e buracos negros, a nova rota da liberdade e do crescimento, e assim de delineia a Vida no novo sopro quente, jovial e brilhante.

Novos passos que não marcam, nova vida que se cumpre, e novo traço de luz que se delineia.

Novo brilho, nova vida; nova morte e nova sorte.

Por lá, ou por cá, ficam os mortos que se julgam vivos, e que encontram êxtases numa noite de sexo, numa droga bem fumada, ou numa maldade cometida em segredo. Por cá vivem os mortos que se acham vivos e que roubam das carteiras dos outros, a prata e ouro que lhes roubam a eles constantemente, e assim renovam e alimentam a cadeia hipócrita, podre e infecundo.

Os vivos que estão mortos, por se acharem vivos, julgam-se no direito de se irem matando mutuamente. E matam-se sob as mais diversas capas e engenhos. Matam-se aos poucos, matam-se, esfaqueiam-se hoje para só sangrarem amanhã, até perceberem que a faca do vizinho espeta nos dois sentidos com um só golpe.

Mata-se a Vida, morrem os sentidos, e mortos os mortos, morrem mais uma vez querendo a vida… haverá maior falácia hipócrita que esta?

(*) Texto e foto

01abr18

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