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Ilse Losa

No ano em que se assinala o 105º aniversário do nascimento da escritora Ilse Losa deixamos aqui algumas notas biográficas sobre a sua existência e a sua oba literária.

Ilse Lieblich nasceu a 20 de Março de 1913, na Alemanha, numa aldeia perto Hannover, concretamente, em Melle-Buer. A primeira infância passou-a com os avós paternos, indo depois viver com os pais e os irmãos. Frequentou o Liceu em Osnabrück e Hildesheim e, mais tarde, um Instituto Comercial, em Hannover.

Com a morte prematura do pai, vitimado por um cancro, surgiram muitas dificuldades financeiras na família, o que levou a jovem Ilse a partir para Londres a fim de aperfeiçoar o inglês e, ao mesmo tempo poder trabalhar, tomando conta de crianças.

O seu regresso à Alemanha foi marcado pela perseguição movida pela Gestapo, dado que Ilse tinha ascendência judaica. Depois de ter sido submetida, durante horas, a um exaustivo interrogatório, levado a cabo pela polícia política alemã, tomou a decisão de abandonar a Alemanha. Ilse tinha consciência que, com os nazis no poder, a sua vida e a dos seus familiares estava em perigo, pois corria o risco de ser conduzida para um campo de concentração.

Como a decisão do inquiridor demorava, normalmente, três dias a ser anunciada, Ilse aproveitou este interregno para fugir “[…] num barco miserável e superlotado de escorraçados […]”, segundo o que ela própria, um dia, recordou. Foi assim que chegou a Portugal, em 1934, com 21 anos, aqui se radicando, no Porto, onde já vivia o seu irmão Fritz que a acolheu. O resto da família seguiu outro rumo. No Porto, Ilse conheceu o jovem arquitecto Arménio Taveira Losa, com quem casou, em 1935 adquirindo, depois, a nacionalidade portuguesa.

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A sua condição de judia, na Alemanha, a fuga deste país e toda a contextualidade da época, marcada pelo nazismo e pela 2.ª Guerra Mundial, foram factores que a perturbaram e que lhe iam criando momentos de depressão, daí que o seu médico lhe aconselhasse que escrevesse para expurgar os males que a atormentavam – foi isso que Ilse Losa começou a fazer, a partir de 1943, quando já dominava bem a língua portuguesa. A sua estreia literária teve lugar com a obra “O mundo em que vivi”, de cariz autobiográfico, onde relata a sua infância rural, a sua adolescência e a sua juventude, até ao momento em que teve de abandonar a sua pátria para escapar à perseguição e aos horrores dos campos de concentração.

A abordagem literária do holocausto tornou Ilse Losa uma precursora desta temática, em Portugal, sobressaindo uma voz inovadora pela força de um testemunho vivido e afectivamente sentido.

A sua vida em Portugal dividiu-se entre a família e a literatura. Além de escritora foi também tradutora, quer do português para o alemão quer, sobretudo, do alemão para português, traduzindo conceituados autores como Brecht, Erich Kästner, Max Frisch, Adolf Himmel ou Anna Seghers, além de ter feito a tradução portuguesa do “Diário” da adolescente judia, Anne Frank. Foi ainda colaboradora em jornais e revistas, alemãs e portuguesas, de que salientamos “Seara Nova”, “Vértice”, “Jornal das Letras”, “Colóquio/Letras”, “Portucale”,  assim como  no “Jornal de Notícias”, “O Comércio do Porto”, o “Diário de Notícias”, “Neue Deutsche Literatur”, entre outros. Trabalhou também para a televisão, criando séries infantis.

Esta autora deixou uma obra vastíssima que inclui romances, contos, crónicas, teatro, trabalhos pedagógicos e, sobretudo, literatura infanto-juvenil. Destacamos algumas das suas obras: “Faísca Conta a Sua História” (1949), “Um fidalgo de pernas curtas” (1961), “Sob céus estranhos” (1962), “Um artista chamado Duque” (1965), “Beatriz e o Plátano” (1976), “O quadro roubado” (1985), “Silka” (1989),…

O-Mundo-Em-Que-Vivi

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Beatriz e o Platano

O quadro roubado

É de salientar o facto de Ilse Losa ter dado um grande destaque à literatura infanto-juvenil, retirando-a do desígnio de uma literatura menor, sendo pioneira no nosso país, no ensino da Literatura para a Infância e Juventude, por ter participado na leccionação de seminários e depois como professora convidada, na velha Escola do Magistério Primário, no Porto.

Ao longo da sua actividade literária Ilse Losa foi contemplada com várias distinções de que destacamos:

– Prémio Gulbenkian de Texto (1982), pela obra “A Quinta das Cerejeiras”;

– Grande Prémio Gulbenkian (1984), pelo conjunto da sua obra para crianças;

– Prémio Maçã de Ouro da Bienal Internacional de Bratislava (1989), pelas ilustrações de Manuela Bacelar, na obra “Silka”;

– Condecoração pelo governo Alemão (1991), pela tradução alemã de “O Mundo em que Vivi”;

– Grande Prémio de Crónica (1998), da APE (Associação Portuguesa de Escritores), pela obra “À Flor do Tempo”;

– Ordem do Infante D. Henrique (1995).

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Ilse Losa exprimia-se através de uma escrita muito simples, mas muito cuidada, por vezes, com ternura e com uma enorme carga poética, embora tivesse retratado a realidade cruel do mundo que vivenciou.

Segundo escreveu Óscar Lopes, grande especialista de literatura, Ilse Losa apresenta uma “[…] escrita inexcedivelmente sóbria e transparente […]” e “[…] os seus livros são uma só odisseia interior de uma demanda infindável da pátria, do lar, dos céus a que uma experiência vivida só responde com uma multiplicidade de mundos que tanto atraem como repelem e que todos entre si se repelem […]”.

Tanto Ilse Losa como seu marido, o arquitecto Arménio Losa eram assumidamente anti-fascistas e profundamente democratas, tendo enfrentado ambos as vicissitudes impostas pelo regime salazarista. À sua volta gravitava todo um conjunto de personalidades ligadas à vida cultural e cívica do Porto, como Óscar Lopes, Eugénio de Andrade, Luísa Dacosta, Papiniano Carlos e muitos outros.

Ilse Losa faleceu no Porto, em 6 de Janeiro de 2006, com 92 anos.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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