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Bernarda Ferreira de Lacerda

O Porto tem uma Praceta, na freguesia de Paranhos, com o nome de Bernarda Ferreira de Lacerda, uma desconhecida para a maior parte das pessoas mas, uma mulher que se destacou, pela sua cultura, no séc. XVII.

Bernarda Ferreira de Lacerda nasceu no Porto, na freguesia da Vitória, em 1595, pertencendo a uma família aristocrática. Era filha do Dr. Inácio Ferreira Leitão, de origem beirã, que foi Chanceler-mor do Reino e Desembargador do Paço e de uma portuense, D. Paula de Sá Pereira.

Numa época em que a educação da Mulher não era tão valorizada como a dos homens, pois a condição da mulher estava intimamente relacionada com a procriação e a obediência ao pai ou ao marido, como Bernarda manifestara desde muito cedo um interesse diferente por tudo o que se ligasse com a aprendizagem e, como era muito religiosa, pensou em ingressar na ordem das Carmelitas.

Contudo, os pais dissuadiram-na dessa escolha e, como a situação social em que viviam era favorável, proporcionaram-lhe ter em casa bons professores para a instruir. Um dos seus biógrafos realça que ela era dotada de “[…] uma inteligência e capacidade para o estudo pouco vulgares, sobretudo naquela época e no sexo feminino […].” Por isso, foi aprendendo de tudo um pouco, mas destacamos a Música (tocava vários instrumentos com perfeição), a Matemática, a Filosofia, assim como várias línguas de que salientamos o latim, o grego e o hebraico, além de Português, Espanhol, Italiano e Alemão. Toda esta diversidade de conhecimentos fizeram dela, uma das mulheres mais cultas da sua época, chegando mesmo a ser convidada por Filipe IV de Espanha (III de Portugal) para ser mestre dos seus filhos. Contudo, ela terá recusado este encargo.

Na sua vertente literária sobressai a poesia, tendo-nos legando obras que não podemos deixar de assinalar, como “Soledades de Buçaco”, em que descreve a flora e fauna da mata, pondo em evidência a beleza natural do local, além de apresentar alguns aspectos, relacionados com a vida de solidão e devoção da ordem dos Carmelitas Descalços que habitavam o Convento do Buçaco. É também autora da obra “Hespaña Libertada”, poema épico, publicado em duas partes, respectivamente em 1618 (ainda em vida da autora), obra dedicada a Filipe III, em que aborda a reconquista cristã da Península Ibérica, a partir das Astúrias. Já depois da morte de Bernarda Ferreira de Lacerda, foi editado em 1673 o segundo volume de “Hespaña Libertada” (obra inacabada), mas publicada por sua filha, Maria Clara de Meneses.

Hespanha Libertada

Bernarda Ferreira de Lacerda produziu outros poemas que se encontram dispersos em obras de outros autores, assim como elaborou notas introdutórias em livros de outros escritores, como é o caso de “Malaca conquistada pelo grande Afonso de Albuquerque”, poema heróico escrito por Francisco de Sá de Meneses.

Embora tenha escrito em português, a maior parte da sua obra encontra-se escrita em castelhano, dado que, entre o final do século XVI (1580) até meados do século XVII (1640), Portugal esteve sob o domínio de Espanha (Monarquia Dual: Espanha-Portugal) e, a maioria dos autores, começaram a escrever em castelhano ou nas duas línguas. Este bilinguismo é também seguido por D. Bernarda Ferreira de Lacerda e pensa-se que assim procedeu para relatar as façanhas dos heróis portugueses e ser entendida por muitas mais pessoas que, não só, os falantes da língua portuguesa. Pensa-se também que a preferência pelo castelhano pode significar a busca de maior prestígio e uma difusão mais alargada daquilo que escrevia.

Foi casada com o fidalgo Fernão Corrêa de Sousa, de quem ficou viúva, oito anos após o casamento, ficando com seis filhos pequenos, dos quais apenas chegou a adulta, a filha Maria Clara de Meneses.

O trabalho literário desta escritora centra-se, essencialmente em dois períodos fora do casamento: o primeiro, enquanto era solteira; o segundo, quando já era viúva. Por estas razões, ela consegue também destacar-se e conseguir produzir mais do que uma obra em plena época de submissão da mulher e de domínio masculino.

O Padre Rebelo da Costa, na sua obra “Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto” refere-se a esta personalidade como “[…] senhora ilustríssima e por todos os títulos a mais admirável entre as mulheres sábias do mundo, que tanto imortalizou a glória e o nome da sua pátria.”

  1. Bernarda Ferreira de Lacerda morreu (com menos de 50 anos de idade),nos braços de sua filha, em Lisboa, no dia 1 de Outubro de 1644, sendo sepultada na Capela de S. José, do Convento de Nossa Senhora dos Remédios, dos Carmelitas Descalços, dos quais foi muito devota.

 

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

 Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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