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Nada a declarar

Miguel Correia

“Nada a declarar” é uma expressão que sempre associei como sendo uma palavra mágica, que tinha o poder de nos safar de qualquer eventual problema alfandegário. Agora, com a livre circulação de pessoas, perdeu-se aquele momento grandioso – que apenas durava alguns segundos – de passar diante do agente da alfândega. Aquilo era coisa para me fazer sentir um verdadeiro gangster! Mesmo sabendo que, na bagagem, trazia apenas cuecas sujas e produtos de limpeza… Atualmente as forças de autoridade desenvolvem, nos diversos pontos de entrada rodoviários do nosso país, um trabalho mais pedagógico e preventivo tendo em conta a sinistralidade. Com maior expressividade nos meses de Agosto, tendo em conta o fluxo de entrada dos Tugas que resolveram voltar por uns dias.

Já muita coisa foi escrita sobre os nossos cidadãos que rumaram ao estrageiro. Uns, como cantava Serafim Saudade, foram ganhar dinheiro. Outros quiseram escapar do regime político em vigor. Quem não se lembra da saudosa Linda de Suza?! E a mala de cartão numa Terra de França?! (Pensei no Tony Carreira, mas há limites para a lamechice). A verdade é que seria expectável que os hábitos culturais, dos que partiram, fossem aprimorados pelos costumes dos países que os receberam. Contudo – e analisando o panorama que me rodeia – chego à conclusão que algo correu mal. Talvez seja uma questão de Adn Tuga…

manif de emigrantes, rossio.

Assim sendo, é necessário estar atento aos sinais que nos possam alertar para a presença de Tugas de França: vulgarmente conhecidos por Avec’s! A bagnole (viatura) é um dos primeiros alertas. Em França não há carros económicos ou antigos! A julgar pelas matrículas que por cá andam, todos os motores são de elevada cilindrada e saíram de fábrica este ano. Julgo que alguns ainda trazem o plástico protetor nos assentos! Como prova de amor eterno (ou puro ato de imposturice) alguns trazem um autocolante gigante da Federação Portuguesa de Futebol colado no vidro traseiro. O máximo que se faz, por cá, é aproveitar o espelho retrovisor para pendurar um galhardete pequenino dos “três grandes”. E o pinheiro do cheirinho…

A indumentária é outro aspeto a ter em conta! A oferta nacional é escassa e, mesmo assim, há combinações de roupa que conseguem afetar a visão de um qualquer míope. Ora, se adicionarmos mais trapinhos à falta de cultura da moda, o resultado será ainda mais devastador! Afinal, encontra-se mais filas na Primark Paris que em qualquer loja de haute-couture. Resta abordar a incompatibilidade linguística. Mais detetável em espaços públicos, é perfeitamente audível uma mescla de dialetos consoante o estado de espírito. De quem fala… e de quem ouve! “Je veux un ice-cream de fraise!” A funcionária do quiosque – que recebe um salário miserável por falta de estudos – responde que não percebe. Fraise! Fraise! Enquanto começa a apontar para o respetivo retângulo dos gelados. Nada! Um impasse linguístico. Aumentando o ritmo cardíaco e com um olhar capaz de a trespassar com os olhos, acaba por lhe dizer que o gelado é de morango! Miracle! Afinal, sabem falar português!

Bom, o meu serviço público está feito. Espero que prestem atenção aos alertas e que não me interpretem mal, porque nada me move contra os que regressam! A constatação destas peripécias tem sido bastante lúdica e divertida! Até nas praias, quando ouço o vendedor gritar: “Ici! Regardez la bola de Berlim!”. Estamos ao mesmo nível dos indianos e o mais que mítico: “Qué Frô?!”. Deve ser este o preço da internacionalização…

Foto: pesquisa Google (in Jornal do Luxemburgo)

01out18

 

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