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“Perante a gravidade da situação, como devem reagir os democratas?”

António Pedro Dores

“O caso da Suécia vem apenas confirmar que a praga neoliberal e o seu cortejo de desequilíbrios sociais e austeridade é a grande responsável pela ascensão consistente dos populismos e neofascismos através da Europa”, João Goulão “Suécia Vítima da Praga Neoliberal”, em “O Lado Oculto”, 14.09.2018

Desde 1989, com o massacre de Tiananmen e a queda do muro de Berlin, a democracia deixou de ser uma tendência ocidental. Na Suécia, por exemplo, os Democrata Suecos é o nome do partido neo-fascista.

A tendência fascizante tem vindo a afirmar-se na política ocidental. Quando Mário Soares e Freitas do Amaral, no princípio do século, chamaram a atenção para o facto foram desqualificados na praça pública. Nem o seu prestígio pessoal fez com que a nossa sociedade tomasse a sério o risco, actualmente uma evidência.

Nem a evidência actual parece ser suficiente para despoletar a acção: tal como no caso das mudanças climáticas, os estados e as populações arrastam os pés, na esperança que as predições da ciência, mesmo aquelas que se concretizam aos olhos dos leigos, não passe de ilusões. Para que tudo fique na mesma (ou volte para trás, aos tempos quase benignos de George W. Bush e Tony Blair – que escaparam ao Tribunal Penal Internacional), todos estamos quietos, como os avestruzes.

Os esforços para tal exercício de acriticismo e de estupidez são risíveis. Ouvir representantes de partidos populares, como os que dominam a cena política europeia há décadas, acusar de populismo os partidos que captam os votos de cada vez mais eleitores, ouvir representantes dos Partidos Populares, europeu ou nacional, a falar de populistas como se fossem outros, só por paródia. Paródia, todavia, com muitos cúmplices. Isto é, paródia que não dá vontade de rir.

Sem pretensões de rigor histórico, lembro-me de, no tempo do Sócrates, ele e os seus apoiantes acusarem de populismo os seus adversários, ao mesmo tempo que usavam os professores, os juízes (parece que foi má escolha), as profissões liberais, os funcionários públicos, como bodes expiatórios a quem atiçou o povo. O erro de análise sociológica que fez aparecer as elites onde estavam funcionários, tal e qual hoje argumenta Trump, serviu – então como hoje – para desviar a atenção dos eleitores e dos jornalistas dos desmandos que as elites faziam, fizeram e continuam a fazer, estilo Correio da Manhã.

Populistas demagogos a apontar, furiosos, terceiros, chamando-lhes populistas, parece uma ópera bufa. Não tivesse já servido para nos paralisar face à enormidade das responsabilidades privadas (não só a respeito do sistema financeiro) que passaram para mãos públicas e que, por sua vez, servem para justificar a imposição da continuação da baixa de salários, que não começou com a troika mas aumentou bastante nessa altura.

Tal como Sócrates paralisou os portugueses (e outros fizeram semelhante noutros países do Sul da Europa, de que Tsipras é o mais conhecido) também os democratas têm estado paralisados perante a emergência de um sentimento de repulsa pela política populista. A democracia é usada como lixo, sendo possível aos neo-fascistas apresentarem-se como democratas, não só na Suécia.

populistas - cartoon

Dizer que é preciso participar para legitimar o populismo que finge que é anti-populista (qual deles? O neoliberal ou o neo-fascista?) tem levado eleitores pacíficos a cerrar os dentes e votar em facínoras que prometam estragar a vida aos demagogos. “Ah querem populismo?” – pensarão os eleitores conscientes da sua irrelevância na condição dos destinos dos estados. Então, tomem lá populismo pelas vossas ventas!

Quem já passou por uma experiência de isolamento prolongado sabe que, a determinada altura, a par das alucinações, e pior do que elas, há a perda da consciência da própria existência. Como ocorre actualmente com os povos. Sem referências sociais, sem referências materiais (como se faz na tortura branca, com luz acesa 24 horas por dia e paredes brancas), o torturado pergunta-se se está vivo ou tudo não passa de uma espécie de sonho. Assim estão as sociedades ocidentais, hoje. A violência física, nestas circunstâncias, torna-se uma bênção para o sequestrado. Os hematomas ou mesmos os ossos partidos são sintomas evidentes de vida, para o próprio, que a julgava perdida. É, pois, com satisfação, que recebe os golpes, que vão demorar a parar e, depois, a sarar.

Os eleitores têm clara consciência do carácter revanchista, retaliador, das propostas fascizantes, incluindo do que os próprios eleitores podem sofrer com a sua aplicação. Estão é fartos de serem tomados por tolos e a violência prometida pode obrigar o povo (as relações sociais e materiais de auto-organização) a manifestar a sua existência.

Quando isso acontecer, os apelos dos partidos saídos da II Grande Guerra serão ainda mais ignorados que hoje em dia. Há que resgatar a democracia dos tratos de polé. Como disseram os professores em luta, a certa altura: respeito!

Cartoon: pesquisa Google

Obs – Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa. 

01out18

 

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1 Comment

  1. Mr José Oliveira Oliveira

    O texto é muito certeiro na sua denúncia. O capitalismo está a demonstrar que já desistiu de todas as antigas veleidades democráticas e pseudo-libertadoras, encaminhando-se agora resolutamente para um paradigma crescentemente autoritário, anti-democrático e fascizante. Não poderia ser de outro modo. A desigualdade galopante só pode manter-se através de soluções musculadas, concentracionárias e cada vez mais violentas para os 99%. O florescimento dos populismos e da extrema-direita, apesar da sua perigosidade, apenas pretende manter o sistema de encaminhamento dos rendimentos de baixo para cima, na pirâmide social. O resto é paisagem. As lágrimas de crocodilo das virgens ofendidas apenas pretendem aliviar a sua má consciência. De facto, a libertação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios…

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