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Brasil: alternância, desigualdades e retaliação

António Pedro Dores

Tenho do Brasil uma ideia de quem lá passou algumas vezes, sobretudo como turista. Recordo uma graça de um patrício português, radicado há tempo suficiente para ser militar: o Cabral dormitava na sua cabine, a caminho de Terras de Vera Cruz, quando o vigia gritou: “Um monte à vista! Vejo um monte ao fundo!” Estremunhado, o capitão perguntou: “Um monte de quê?”

Esse homem, cujo tipo de amor pelo Brasil fica bem espelhado na anedota, explicou-me em 2001 que caso Lula fosse eleito presidente, ele próprio participaria numa revolta militar para acabar com tais pretensões. Enganou-se.

Quase 20 anos depois, continuo a ler análises sociológicas de esquerda coincidentes com a do militar, que afirmam que as classes dominantes brasileiras jamais aceitariam ou aceitaram Lula, o símbolo do povão, como presidente. Porém, durante os anos de 2002 a 2011, e depois com Dilma até 2016, foi isso que fizeram. Durante esse período, como anteriormente, as classes dominantes dominaram, passa o pleonasmo. A economia cresceu e o Brasil deu o “B” à sigla BRICS, frente financeira dos países emergentes sob a globalização para criar uma alternativa ao comando norte-americano.

A ideia de que as classes dominantes deixaram de dominar, e por isso surgiu a corrupção, é a tese do Bolsonaro e dos seus apoiantes. Como se fosse o PT a inventar a corrupção no Brasil. As classes dominantes, como se sabe também pela experiência portuguesa, são corruptas sempre que isso dá lucro e esconde prejuízos. Também no Brasil, enquanto houve afluência a corrupção era um jogo de soma positiva: uns ganhavam mais e outros ganhavam menos. Em tempo de vacas magras, todavia, como em todo o lado, alguns começam a perder mais do que são capazes de suportar. E há sempre disponível um recurso: comprar crédito a quem esteja disposto a dar-lho. Vender-se às necessidades das estratégias financeiras, agora divididas entre “América first” e a “Nova Rota da Seda”.

Que o PT foi a jogo e fez uso dos esquemas de compra de votos, ninguém nega. Que o fez à revelia das classes dominantes, isso é falso, simplesmente. Pelo contrário: foi por ter alinhado no sistema vigente que o PT pode servir as classes dominantes, ao mesmo tempo que servia também milhões de brasileiros sem rendimentos ou com baixos rendimentos, que assim puderam entrar nos mercados formais anteriormente vedados. Alguns deles aspiraram a subir na vida, por exemplo através dos estudos.

Moralista, Bolsonaro apresentou-se virgem, qual fenix do meio do Senado dos três B: Boi, Bala e Bíblia. Mas não é a virgindade que atrai os eleitores: é o moralismo. A verdade irracional do vigarista que encanta o otário com o flagelo da verdade: “Vou fazer do Brasil uma economia liberal!” – anuncia, como se o Brasil tivesse sido outra coisa qualquer nos últimos anos e, sobretudo, com Temer. “Me castiga!” – diz metade do povão, como também fez o povo português ao votar em Passos Coelho. Todos esperançados que os sacrifícios santifiquem as suas vidas, até agora infernizadas precisamente pela economia liberal. Isto é, pela conversa dos economistas que dizem ser essa uma ciência exacta e, portanto, serem os políticos de turno os responsáveis por os mercados não estarem a funcionar a favor dos trabalhadores.

Vimos o mesmo documentado nos EUA, quando imigrantes que votaram Trump imaginaram estar acima dos repatriamentos. Otários. Não há ninguém que lhes diga que estão a ser otários numa vigarice global? Experimente o leitor denunciar actos de corrupção e verá como ficará isolado, à mercê de violências extremas, que levam os movimentos anti-corrupção a pedir legislação para protecção de testemunhas, sem sucesso.

As classes dominantes, no Brasil e em todo mundo, mudaram de convicções e de estado de espírito. A globalização, mesmo tão grande como é, pode falir e faliu. O Brasil, estrategicamente alinhado com os BRICS através da política independente de Lula, passou a estar com um pé no campo do inimigo do império ocidental. Dizia-se, então, que o Brasil estava a chegar ao 1º mundo, à independência. Mas não resistiu à crise global. Tornou-se presa fácil dos interesses pró-ocidentais instalados no seu próprio território. Cedeu pelo judiciário e pelo Senado, sem rei nem roque. De que lado ficará o Brasil? De quem der melhores condições – como se as relações internacionais fossem um mercado? Ou do lado dos que conseguirem comprar políticos mais bem colocados no desregulado sistema de poder brasileiro?

O dilema do Brasil não é saber quem vai para o Planalto: é saber se há massa crítica empresarial capaz e interessada em resistir à nova/velha postura norte-americana, que tirou a pata da América Latina quando dispersou forças e recursos por todo o mundo, imaginando uma globalização que lhe fosse favorável. Vai o Brasil optar pela continuidade da tradicional subserviência aos EUA, enterrando consigo toda a América Latina, já comprometida com as políticas da Argentina e com o fracasso político na Venezuela? Ou terá forças para seguir a nova potência global, a China? E no segundo caso, o que ganhará com isso?

Infelizmente para a democracia, nenhuma destas opções é recomendável para a saúde do planeta nem para o bem-estar das populações. Isso nota-se na ausência de debate político na política brasileira e mundial sobre opções sociais promissoras: tudo parece demasiado negro para se vislumbrar votos pela positiva: uns votam contra o fascista “Ele não!” e outros votam contra a corrupção “PT não!”.

brasil - futuro

Ainda assim, o voto é decisivo para o futuro do Brasil, da América Latina e para o resto do mundo: pode ser mais um posto conquistado para os fascistas, confirmando a sua ascensão global, que era preferível ver interrompida. Isso tenderá a fixar a corrupção, o mercado político, num único jogador, o que favorece os corruptores: só pagam a um lado e podem organizar as suas conspirações para militares à vontade, contra qualquer oposição, como temem com toda a razão os apoiantes de Haddad. Ou poderá haver uma reviravolta eleitoral que inspire outras, noutras partes do mundo: um sucesso eleitoral dos movimentos de mulheres, a favor de decisões independentes dos poderes imperiais (ao menos daqueles actualmente vigentes).

As massas seguem as classes dominantes, isso é pleonasmo. As classes dominantes seguem também as suas melhores oportunidades de negócio. Claro que o fazem, sem o que nenhuma classe dominante existiria. O voto popular, mesmo que débil, abrirá para os fascistas ou para os democratas, no Brasil e noutras partes do mundo, espaços de afirmação do revanchismo, por um lado, do respeito pelas instituições, por outro lado. A corrupção permanecerá lubrificante das decisões políticas principais, a menos de uma transformação do mundo mais profunda, que infelizmente não se vislumbra.

Será melhor que vença a democracia, claro. Mas ainda que seja o caso, isso é insuficiente. Para reverter os movimentos fascistas, os processos irracionais de utilização do poder como legitimação da violência contra bodes expiatórios, não basta resistir-lhes. É preciso compreender e acabar com a fonte de tais necessidades políticas das populações.

Dos 46% de eleitores que votaram Bolsonaro à primeira volta, a maioria não é, evidentemente, membro das classes dominantes. A maioria irá sofrer bastante, como sofreu com Temer, consequências negativas nas suas vidas. Não se pode dizer que os brasileiros não sabem o que fazem. Que foram enganados. O que muitos dos brasileiros que votam Bolsonaro querem dizer é que já votaram PT e Lula e sentiram-se enganados. Desta vez querem vingança. Como os antigos eleitores do PC francês passaram a votar Le Pen e assim por diante noutras partes do mundo.

Nos EUA, o socialismo, expressão praticamente proibida desde o Macartismo, serve de âncora a novos movimentos políticos promissores, dentro e fora do Partido Democrático. Poderão os democratas brasileiros contar com eles? Quando poderão ter impacto efetivo na vida brasileira? Da Europa, pelo que se vê, pouco podem esperar os brasileiros.

Foto: pesquisa Google

01nov18

 

 

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