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A geração mais bem formada de sempre

António Pedro Dores

Os norte-americanos chamam-lhes os do milénio. A geração que mais tempo passou nas escolas. Em Portugal houve quem lhes chamasse geração à rasca.

Ao passear num jardim, deparei-me com um casal de gatos com dois gatitos. Um deles atravessou-se no meu caminho a fazer-se grande, arqueando o dorso. Mudei de caminho por respeito ao sacrifício parental. Dispôs-se a apanhar um pontapé e ir pelos ares para proteger o bem-estar das suas crias.

Os portugueses, como outros povos, fizeram isso mesmo. Sacrificaram-se por acreditarem que a educação serviria para que os seus filhos viessem a viver melhor. A questão é saber se houve respeito por tal atitude.

Prescindiram de usar o dinheiro noutras coisas. Tanto empenho mostraram nisso que os estados perceberam que podiam privatizar o ensino, tornar a produção e divulgação de conhecimentos num negócio privado, e como se fosse privado. As famílias passaram a pagar ainda mais. Mas pagaram sempre, e continuam a pagar.

Os investigadores sociais falam da educação como um ascensor social. Porém, eles podem estar equivocados ou mesmo simplesmente errados. O facto de haver cada vez mais certificados escolares, universitário e politécnicos e mestrados e doutoramentos, quer dizer que as pessoas sabem mais? Têm mais oportunidades de emprego? Estarão mais capazes de perspectivar soluções para os problemas?

Esta discussão está pervertida pelo saudosismo dos que – formados em épocas anteriores, com complexos de inferioridade perante a juventude e o ânimo dos mais novos – entendem poder simplesmente dizer mal das qualidades pessoais das gerações que agora querem entrar nos mercados de trabalho. O que não quer dizer que não haja questões cuja resposta merece não ser precipitada: sabemos hoje mais, enquanto sociedade, do que sabíamos há 50 anos?

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Quando vamos a uma garagem arranjar o carro, parece que entramos numa fábrica, não numa oficina. Os trabalhadores são especializados e sabem trabalhar com computadores. Incapazes e sem nenhum desejo, porém, de recuperar um pequeno defeito de fabrico: substituem todo o módulo do carro onde está a avaria. Isso faz crescer a economia à custa das despesas dos clientes, das seguradoras e do desperdício. A sensação de que estamos a ser roubados pelas oficinas de marca faz florescer garagens de marca branca, em que operários competentes vão transmitindo os saberes dos velhos mecânicos, já retirados, que ainda podem ser utilizados.

A mesma lógica tem menos graça quando se trata da medicina e da mania das cirurgias ou da mania dos checkups. Chantagem pura: os sistemas de saúde dizem-nos ou gasta aqui o seu dinheirito ou não sei como o possa ajudar de outra maneira. E não sabem mesmo.

A minha avó queixava-se dos netos que não se sabiam lavar. Dia em que não havia água disponível para tomar duche – o que aconteceu naquele dia – os netos não souberam lavar as partes essenciais do corpo com a pouca água disponível em bidões.

Dependentes das máquinas, de facto, tornamo-nos alheios e ignorantes de como nos relacionar com os princípios mais básicos da circulação da água, da mecânica, da sabedoria, do respeito pelos instintos da natureza. Fechados entre as residências, os automóveis de família e as escolas, os mais privilegiados das novas gerações ignoram que há gente que vive sem abrigo e espoliada de acesso a meios de sobrevivência. Aprende, todavia, a evitar cair nessas situações, estudando como quem trabalha: para obter um resultado prático individual. Um certificado com valor capaz de assegurar, ao menos ideologicamente, uma vida melhor que a dos seus pais. Então porque é que não assegura?

As escolas tornaram-se, ao mesmo tempo, um modo de responsabilizar as vítimas desta sociedade implacável (na Europa há ¼ de pobres) e de chantagear individualmente os estudantes e suas famílias, responsabilizando-os pelo (in)sucesso na vida, em concorrência com todos os outros. Nas escolas, tipicamente, os estudantes não falam uns com os outros nem com os professores, a não ser a respeito de como ultrapassar os métodos de avaliação. Nas universidades não há debates – há conferências e publicações que ninguém lê, a não ser por obrigação e sacrifício profissional.

As famílias, claro, compreendem muito bem a chantagem, o alheamento das escolas da sabedoria, a desvalorização dos certificados, o incompreensível desemprego juvenil. Por isso, incentivam mais, pagam mais, para que os seus possam sobreviver à selva moderna. Para que possam ter alguma oportunidade de constituir uma família que os abrigue ao longo da vida, e os ajude a aturar os sacrifícios laborais.

A crise financeira de 2008 e, sobretudo, a solução política encontrada a partir de 2010 de socializar a falência do sistema bancário global e manter o sistema de retribuição dos rendimentos do investidores, sem nenhuma relação com a vida social e económica, tornou muitos dos certificados escolares uma anedota. Como disse o então primeiro-ministro, o melhor é emigrarem…

Os que não podem emigrar, podem usar a imigração e os refugiados como culpados da violação das expectativas e pelos sacrifícios vãos, enquanto a vida piora. Culpam, portanto, a corrupção, os políticos, os imigrantes, tudo e todos, incluindo a si mesmos: votam com raiva em quem sabem que lhes vai tornar a vida num inferno, Trump, Putin, Bolsonaro, Macri, Erdogan, Orban, Morawiecki, Duterte e muitos outros, numa tendência fascizante.

É claro que, para os mais educados e bem sucedidos, é sempre possível escapar a esta avalanche de esterco mental e político, abstendo-se. Há excepções, como Varoufakis, Assange, Manning, Snowden, Chomsky. A pergunta é: será a educação escolar actual garantia da melhor formação de sempre? Para quem insista em responder que sim, segue outra pergunta: porque é que a democracia está em risco, como o esteve há cem anos atrás? A educação será capaz de evitar a violência dos estados e a reacção da natureza à poluição?

Foto: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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