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A moral sacrificial e os fascismos, na era dos riscos ecológicos

António Pedro Dores

O moralismo é um instrumento para dividir e reinar, em nome de uma ordem imaginária que nos ofereceria segurança. Como nos dizem quando somos crianças, se nos portarmos bem vamos ser felizes. Se esta regra não se verificar, então é porque alguém se terá portado mal. Basta encontrá-lo e entregá-lo à sua sorte, ao sacrifício, para a ordem ficar restabelecida e poderemos, assim, voltar a acreditar no Pai Natal.

A corrupção deve ser combatida. Como deve ser combatido o moralismo com que o assunto é mais frequentemente tratado, não apenas pelos movimentos fascizantes mas também pelos políticos e pelos media. A corrupção não é um problema judicial: é um problema político, é um problema de como organizamos a vida. Ainda que passe a haver condenações por corrupção nos tribunais, o que interessa é saber como abolir a corrupção das nossas vidas.

O combate à corrupção é uma questão de sociedade. Faz-se anulando sistematicamente as oportunidades de concretização de transações financeiras opacas: acabando com os segredos dos negócios e do estado, com os paraísos fiscais e outras facilidades para a corrupção, como os Vistos Gold e os despejos de habitações para produzir lucros para as empresas sem escrúpulos. De uma forma mais geral, se se transformarem os trabalhadores e colaboradores, actualmente irresponsáveis pelos desígnios das empresas para que trabalham, em agentes com direitos morais de avaliação da qualidade dos resultados do trabalho que desenvolvem, como seria possível organizar redes de corrupção tão amplas como as que afundaram o sistema financeiro global? Porque ninguém deu o alarme? Pela simples razão de a cumplicidade dos trabalhadores com práticas imorais, como vender produtos capazes de destruir a vida das pessoas, serem admitidas em nome do emprego, da sobrevivência, do sacrifício para manter a economia a crescer. A crescer para quem? Com o sacrífico de quem?

Na genealogia da moral, Nietzsche escreve que ela foi criada como instrumento de adoração e mimetismo dos comportamentos públicos edificantes, a favor e em nome dos grupos dominantes. Porém, as pessoas não são heróis, quanto mais deuses. Os dirigentes não são necessariamente competentes e responsáveis. Como todos os outros trabalhadores, podem reclamar, e reclamam, irresponsabilidade nos desígnios das suas empresas, procurando avidamente a quem possam culpar para se safarem de condenações políticas e judiciais.

corrupcao

Será coincidência? Quando a luta judicial contra a corrupção se torna mais virulenta contra altas figuras da finança e da política, animam-se as hordas de fascistas contra os migrantes, os mais fracos entre nós? De onde passaram a vir os apoios para a propaganda fascista e para reduzir a oposição ao crescimento do fascismo, actualmente praticamente integrado nas direitas? É possível fazer oposição ao fascismo e lutar contra a corrupção?

1.º a principal característica dos seres humanos é serem adaptáveis;

2.º adaptam-se de forma extraordinária ao meio ambiente porque, antes disso, se adaptam à sociedade, isto é, fazem da sociedade uma coisa sempre diferente e em evolução, embora a espécie se mantenha fixada, em termos genéticos;

3.º para perceber isto é preciso compreender que cada pessoa é, ao mesmo tempo, corpo e mente, isto é, individuo e sociedade – ao contrário do que afirmam a religião e as ciências sociais;

4.º para poder pensar as pessoas como seres humanos, mutuamente dependentes entre si e do meio ambiente, em vez de semideuses autónomos e isolados, é indispensável recusar, negar, denunciar as religiões e as ciências sociais que opõem as pessoas à sociedade, os corpos à mentes, os heróis à vida quotidiana, e vice versa;

5.º educadas e endoutrinadas em pensamentos moralistas, que impõem padrões de comportamento não apenas alheios às suas vontades mas também às suas necessidades e às suas possibilidades, as pessoas sentem-se culpadas por não corresponderem a tais modelos idealizados, ideologicamente impostos, e/ou vivem como vigaristas a respeito de si próprias: fingimos tão completamente a dor que realmente sentimos, como disse o poeta, que nos sacrificamos aos humores dos investidores alienígenas expressos nas bolsas de valores;

6.º um dos resultados das dificuldades criadas de assumir diagnósticos correctos da situação, seja a falência do sistema financeiro global, seja os riscos ambientais provocados pelas indústrias, é o retorno das práticas instintivas, mágicas, culturalmente brutais, mobilizadas politicamente pelos fascismos, em nome do desespero;

7.º patrocinada pelos estados capitalistas exploradores dos recursos da Terra, incluindo os recursos humanos, a culpabilização distingue os sacrificados dos grupos dominantes: estes últimos aprendem e são autorizados a comportar-se como crianças irresponsáveis a quem Deus entregou soldadinhos de chumbo (o resto da humanidade) pelo Natal. Dizem que correm riscos e, por isso, merecem ter lucros, mas externalizam os riscos, destruindo a natureza. Dizem que são contra a subsidiodependência dos pobres mas não querem pagar impostos e negociam com o estado perdões fiscais de todo género, em cima de receberem subsídios chorudos, para ricos;

8.º quando, para os sacrificados, deixa de ser lógico continuar a colaborar com os políticos, informados por especialistas incapazes de prevenir os desastres financeiros, ecológicos, de infraestruturas, os palhaços moralistas, racistas e revanchistas, catalisadores de violentas angústias, tornam-se altas figuras de estado;

9.º os sacrifícios de bodes expiatórios passam a ser reclamados pelos fascistas e pelos povos enlouquecidos com maior veemência e violência, reclamando por novos heróis que podem aparecer, à custa das lutas desesperadas pela sobrevivência.

Com a guerra atómica, primeiro, e com a notícia do aquecimento global provocado pela acção humana, depois, a luta pela sobrevivência tornou-se uma coisa estranha. Espernear, agitar a vida em todas as direcções, bater em tudo o que mexe, em nome da moral violada que deve ser vingada, mesmo nos moldes civilizados como está institucionalizado pelo direito criminal, perdeu os seus poderes mágicos. Se se não se conseguir abolir as práticas que resultam em riscos incomensuráveis para a sobrevivência, seja o poderio concentrado nas mãos de alguns altos representantes, seja – sobretudo – o direito privatizado pelos estados de explorar a Terra e os povos, o Juízo Final pode estar mais próximo do que foi planeado por Deus.

É preciso (re)unir as pessoas/sociedades que conseguiram encontrar formas de harmonização/miscenização com a natureza e derrotar o espírito imperial. O império do capitalismo é muito eficaz a organizar a exploração, mas destrutivo do meio e das melhores condições de existência da humanidade.

Os impérios e as indústrias, construtores de monumentos para a posteridade e de altas tecnologias, são óptimos, em abstracto. Mas não devem ser adorados: devem servir a humanidade em vez de a sacrificarem, em seu nome. Não há nenhuma moralidade nisso: ou melhor, tudo deve ser ponderado em função da realidade e não das ideologias.

Iremos ainda a tempo de transformar as sociedades modernas, em vez de máquinas de produzir e destruir inimigos, em fontes de empatia para com a natureza e a vida humana, incluindo de outros povos, de outras classes, de outras pessoas?

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Cartoon: pesquisa Google

01jan19

 

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1 Comment

  1. Mr José Oliveira Oliveira

    Amigo António
    Embora me reveja em muitos dos pontos focados, não partilho de todo essa concepção amoral do ser humano ideal. Penso mesmo que isso nem sequer existe. Aliás, o próprio texto, no fundo, contesta uma dada moral em favor de outra, embora se esforce por passar a ideia de que todas as morais, por serem morais, são necessariamente um mal. As concepções morais referenciadas ao conceito de justiça fazem parte do ADN humano, como Truffaut tentou demonstrar em “L’enfant sauvage”, onde o professor castigou injustamente o aprendiz e este reagiu à injustiça. No caso do capitalismo, aplica-se o mesmo critério moral de justiça. É um sistema intrinsecamente perverso por beneficiar uma escassa minoria em prejuízo da quase totalidade das populações. Esta perversão básica é compreendida pelos seus defensores, pois pretendem fazer passar a ideia de que o capitalismo nada tem a ver com a moral, mas antes com a técnica e com a economia. Ou seja, os próprios cérebros do sistema sabem da sua iniquidade e tentam mascará-la, inventando outras morais: o crescimento é bom, o individualismo é bom, etc. No fundo, permanece a luta entre o bem e o mal. Temos de ver que é este quem está a ganhar.

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