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Aurélio Paz dos Reis

Lembramos hoje um homem que fez parte da elite cultural portuense do seu tempo e que teve uma vida bastante actuante na cidade do Porto, onde assumiu uma notoriedade relevante, em várias áreas. Referimo-nos a Aurélio Paz dos Reis que, além de comerciante e floricultor, desenvolveu o gosto pela fotografia e pela sétima arte, recém-inventada pelos seus contemporâneos, os irmãos Lumière, no final do século XIX. Essa inovação técnica e artística foi introduzida em Portugal, por este portuense, considerado o “pai” do cinema, no nosso país e no Brasil.

Aurélio Paz dos Reis nasceu no Porto, em 28 de Julho de 1862, na freguesia de Cedofeita. Era filho de Miguel da Paz dos Reis e de Carolina Rosa dos Santos, modista de renome da alta sociedade e gerente de uma loja de vestuário feminino por medida, na Praça de D. Pedro, onde o casal também morava.

Aurélio Paz dos Reis frequentou o liceu, embora não tivesse prosseguido estudos, adquiriu uma vasta cultura, no convívio com inúmeras personalidades do mundo artístico e cultural e, num tempo em que o Porto tinha cafés onde se reunia uma elite cultural e política, principalmente no Lisbonense, no Central, no Suíço da Praça ou no Guichard, por lá eram veiculadas ideias republicanas e maçónicas, a que Paz dos Reis aderiu. Foi membro da Maçonaria, iniciado na “Loja Honra e Dever”, em 1889, onde adoptou o nome simbólico de Homero. Ao longo da sua vida, passou por várias Lojas Maçónicas e fez uma progressão rápida nos graus da Maçonaria do Vale do Porto.

Aurélio Paz dos Reis

Como, desde muito cedo, desenvolveu ideais republicanos tornou-se um republicano convicto e, com 29 anos, participou na Revolta Republicana de  31 de Janeiro de 1891. Dado que esta acção pró-republicana não teve êxito, nesta data, muitos dos participantes foram presos, como foi o caso de Paz dos Reis que foi detido na Cadeia da Relação e, posteriormente julgado, em Conselho de Guerra, acabando por ser absolvido.

Revolta de 31 de Janeiro de 1891

Aurélio Paz dos Reis viveu num palacete da Rua do Barão de Nova Sintra (n.º 125), onde possuía quinta, campos de cultivo e estufas. No horto, eram cultivadas as suas flores, pelas quais nutria uma grande paixão, sobretudo pelas dálias pois, com as suas experiências, criou uma variedade que ficou conhecida por “Mimo de Nova Cintra”, que lhe valeu uma medalha de mérito, numa exposição realizada no Palácio de Cristal.

Casa onde viveu Aurélio Paz dos Reis

Paz dos Reis era dono da loja “Flora Portuense”, fundada em 1893, sendo a primeira casa do género, no país, a vender e exportar flores, sementes e bolbos, provenientes dos seus campos de ensaio. A “Flora Portuense” localizava-se na então Praça de D. Pedro, mais tarde Praça da Liberdade, onde se situa hoje a Confeitaria Ateneia.  A publicidade a esta loja de floricultura ostentava a imagem dos seus terrenos em Nova Sintra.

Aurélio Paz dos Reis no interior da loja “Flora Portuense”

Este homem foi também jornalista e fotógrafo amador. Gostava de tirar retratos à família e aos amigos, aos actores de teatro, às viagens que fazia, às cenas de rua, às feiras, festas populares e outros eventos… Mas, também fazia reportagens políticas, sobretudo dos comícios republicanos. Assim, como Paz dos Reis estava presente em inúmeros eventos, as suas imagens eram frequentemente publicadas pela “Illustração Portugueza”, revista semanal editada pelo jornal “O Século”. Como grande fotógrafo que foi, ganhou várias medalhas de ouro e prata, em exposições nacionais e internacionais (Paris, St. Louis, Rio de Janeiro, Panamá,…).

Interior da Livraria Lello e Irmão (1906) – foto de Aurélio Paz dos Reis

Pela sua objectiva foram registados os principais acontecimentos  do seu tempo, essencialmente os que tiveram lugar, no Porto. É de salientar a capacidade deste português que, com meios tão reduzidos, conseguiu captar tantos instantes da vida quotidiana.

Palácio de Cristal – foto de Aurélio Paz dos Reis

A sua participação cívica, cultural e de beneficência foi significativa, dado que fez parte de várias colectividades, nomeadamente como membro da “Comissão Executiva dos Empregados do Comércio” (com apenas vinte anos de idade), da “Associação de Protecção à Infância Desvalida”, como sócio fundador da “Associação Portuguesa do Asilo de S. João”, como director e segundo secretário do “Ateneu Comercial” (1896), como fervoroso colaborador da Junta Patriótica do Porto… Foi também Vereador da Câmara Municipal do Porto (1914-1922) e Presidente substituto da mesma instituição, dirigente do Clube dos Caçadores, um dos fundadores do Orfeão Portuense e seu director, colaborador do Clube dos Fenianos,… Envolveu-se também na criação do Conservatório de Música do Porto, pois foi por sua proposta, de 17 Janeiro de 1914, que surgiu a posterior fundação desta instituição, em 1917, pela Câmara Municipal do Porto.

Aurélio Paz dos Reis com barba (outubro de 1927)

Apesar da sua vida tão activa em diversos sectores da sociedade ficou, na realidade, mais conhecido pela sua prática, enquanto introdutor do cinema em Portugal e no Brasil.

Cabe a Aurélio Paz dos Reis o mérito de ser o primeiro português a produzir um filme, feito em Portugal – “A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, realizado na Rua de Santa Catarina (no local onde hoje está a loja da Benetton). As imagens animadas por ele captadas são muito semelhantes às do primeiro filme produzido, em França, pelos irmãos Lumière, em 1894/1895, que tinha por título “La Sortie de l’usine Lumière à Lyon”.

Saída do pessoal operário da Fábrica Confiança

A 12 de Novembro de 1896, no Teatro  do Príncipe Real (hoje Teatro Sá da Bandeira), no Porto, foi feita a apresentação pública do cinematógrafo português, com a exibição de 7 quadros ou episódios (documentários) da vida nacional (“Jogo do Pau”, “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, “Chegada de um Comboio Americano a Cadouços”, “O Zé Pereira nas Romarias do Minho”, “A Feira de S. Bento”, “A Rua do Ouro” (Lisboa) e “Marinha”), todos com a duração aproximada de um minuto cada, acrescentando-se a estes sete, mais cinco produções de origem estrangeira.

Notícia sobre o “Kinematógrafo Portuguez”

Toda a imprensa da época se referiu a este acontecimento. Escolhemos uma observação retirada de “O Comércio do Porto”, do dia 13 de Novembro de1896:

“Num dos intervalos, o Sr. Aurélio Paz dos Reis exibiu no kinematógrapho vários quadros, alguns dos quais muito engraçados e que tiveram intensos aplausos.”

Também no Brasil, as primeiras imagens em cinema, foram filmadas por Aurélio Paz dos Reis, na Avenida Rio Novo, no Rio de Janeiro.

Da sua vida particular, sabe-se que casou a 11 de Agosto de 1866 com Palmira Cândida de Souza Guimarães, filha do comendador António Fernandes Guimarães, o célebre “Visconde das Hortas”, um grande negociante da cidade do Porto, que residia na Rua das Hortas (hoje rua do Almada). O casamento realizou-se na casa e quinta de Corim, em Águas Santas, propriedade do pai da noiva.

Retrato de família (1906)

Deste casamento nasceram quatro filhos mas, entre 1918 e 1919, vários acontecimentos marcaram profundamente a vida familiar de Aurélio Paz dos Reis, pois três dos seus filhos perderam a vida: Hilda Ofélia, Horácio Fortunato e Homero. Os dois primeiramente citados foram vítimas da pneumónica e Homero morreu de púrpura infecciosa, a 27 Fevereiro de 1919, vítima das muitas doenças que se espalharam com a 1.ª Grande Guerra, na frente francesa. Restou o filho Hugo que preservou todo o espólio de seu pai, Aurélio Paz dos Reis, documentação que passou para o seu filho, também ele de nome Hugo que, em 1997 entregou, à guarda do Centro Português de Fotografia, o valioso legado do avô.

A filha, Hilda Ophélia (foto de 1914) – Paz dos Reis tinha o hábito de enviar postais

Esta personalidade que sempre privilegiou o cumprimento dos seus deveres e o auxílio aos mais necessitados faleceu no Porto a 18 de Setembro de 1931, estando sepultado no cemitério do Prado do Repouso, também no Porto.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01fev19

 

 

 

 

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1 Comment

  1. Fernanda Miguel

    Muito interessante!
    Gosto muito de ler resumos biográficos de pessoas de mérito do nosso país, mas especialmente se naturais do Porto.

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