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Barro Preto – Encenar a tradição

Lurdes Pereira

(texto e fotos*)

Quem merca panelas

O pregão finou com o adeus do Mestre Joaquim de Alvelos, o último oleiro de Fazamões. Contam as memórias que, desde os tempos medievais, na Freguesia de S. Pedro de Paus, quase todos os moradores eram oleiros que trabalhavam o barro mais tosco nas rodas baixas e os transformavam em obras singulares dotadas de autenticidade. Depois de passar pelo sequeiro, coziam as peças nas soengas e vendiam-nas nas feiras da região ou mesmo de porta em porta.

Resende guarda na memória um leque aberto de cultura artesanal, contudo o barro preto de Fazamões e a técnica da soenga utilizada podiam ser hoje ex-libris do concelho. Mestre Joaquim teimosamente lutou até ao último sopro, mas ninguém seguia o caminho das tão nobres mãos que fizeram a história singular e mais antiga que há conhecimento na arte do barro preto. A violência desta epopeia é uma das razões porque todos querem deixar esta arte e ninguém quer lembrar o passado quase inglório de gerações atrás de gerações.

Mestre Joaquim, oleiro e artista autodidata é uma lenda que nos reforça a identidade

Porque sou escultora e ceramista de profissão, jamais poderia deixar morrer uma tradição que outrora fez a história económica de Resende. Com a ajuda de César Teixeira, oleiro de Gondar, consegui manter a tradição e identidade de Resende e não deixar cair no esquecimento os saberes que os nossos antepassados nos deixaram de herança.

Ninguém com o mínimo de cultura poderá ficar indiferente, a uma arte tão genuína como autêntica, tão rude quanto delicada, tão bela quanto tosca, tão esquecida quanto expressiva. Nem o Sr. Presidente da Câmara de Resende, Dr. Garcia Trindade, ficou indiferente quando lhe apresentei, em Janeiro de 2016, um plano de continuidade desta nossa tradição.

Digo-vos que a reação foi muito positiva para a dinamização da Escola de Cerâmica, no lugar de Raposeira. Não escondeu perante mim e perante a Vereadora da Cultura, Sandra Pinto, o sentimento de alívio, o sentimento de uma golfada de ar fresco para esta dinamização cultural que nos preserva a história, pois estava à sua frente a Salvaguarda e Continuidade de uma tradição metamorfoseada pela modernidade de um novo design. Ficou a promessa que, em breve eu irei encabeçar e desenterrar do esquecimento uma arte que vem ao encontro de um justo honrar e enraizar a tradição. Quem mais poderia ser?

Foto: Vítor Santos

Foto: Nelson Rosário

Todos os leitores sabem o que é o Barro Preto, mas alguns perguntam: O que é a Soenga? É um processo arcaico de cozedura de louça em barro que remonta o neolítico, melhor dizendo, o primeiro forno da era neolítica a atingir 1000ºC. A operação demora umas horas e é compreendida por três momentos: Aquecimento, cozedura e abafamento.

Numa fossa aberta no chão, a louça crua é colocada em circunferência e ateado o fogo no centro. O volume da fogueira vai aumentando lentamente e as peças em seu redor vão aquecendo, fazendo libertar a água de modelação.

No centro da braseira, as peças têm de ficar encasteladas com algum rigor. Novamente o fogo vai proceder à fase da cozedura, cujo processo faz a louça entrar ao rubro, atingindo 1000ºC. O processo parece simples. Lenha, muita lenha e uma constante insistência do volume de fogo para que a louça atinja um grau muito considerável de resistência.

O abafamento é a fase mais importante na história do Barro Preto, responsável pela coloração que as torna tão singulares entre as demais. Depois da fogueira extinta, as peças são tapadas com caruma, torrões ou terra sem que nenhuma fuga de fumo se escape. A importância deste processo reside na técnica de oferecer uma atmosfera redutora no ambiente da louça. A ausência de ar obriga o fumo a penetrar nas paredes da louça, dando-lhe a cor negra que lhe é característica.

O processo de cozedura está concluído, agora esperam-se umas horas e procede-se à desmontagem da soenga. Entre terra, cinza e carvão vão surgindo os pedaços negros que se colocam num ritual silencioso nas margens da soenga. As obras que acabaram de ver são de minha autoria, registadas na Sociedade dos Direitos de Autor. Ainda que para alguns possa ser um nada de especial, para outros, são pedaços que as mãos modelaram, de novo com o objetivo de elaborar justificação e motivo para que as técnicas Neolíticas continuem a fazer parte da nossa história, mais concretamente, espelhar a arte ancestral das terras de D. Egas.

(*)Fotos: com Nelson Rosário e Vítor Santos

01fev19

 

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3 Comments

  1. Anónimo

    Amei a descrição detalhada, e pormonerizada…de todo o processo, das peças do mestre Joaquim…Oleiro de Fazam?es…Obrigada…Apesar de alGuns cursos…e formações, levadas a efeito, na sede do Rancho Folclórico e Etnográfico de S. Pedro de Paus, apoiadas pelo Presidente da Junta de Freguesia de então, posso dizer…que havia jovens com imenso talento…para continuarem..com essa arte tão digna. No entanto esses jovens optaram por emigrar…Porque naquela época, quem trabalhasse no barro negro…era apelidado de paneleiro..e os jovens eram gozados…infelizmente…Daí não manterem a continuidade…da holaria negra do Mestre Joaquim…..Como lamento….Obrigada Lurdes…pela esperança…..

  2. Zulmira Oliveira Mendes Santos

    Excelente artigo!
    Muito Bom, o resultado. Quando nos reconhecem trabalho, dedicação, saber e sobretudo a vontade em prevalecer as tradições. Essas formam a nossa identidade.
    Bjnhs. Parabéns.

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