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“Bênção” ou “Azar”?

Weihua Tang

É óbvio que toda a gente quer “sorte” e não “azar”, mas um antigo provérbio Chinês interpreta o significado de “azar” numa perspetiva oriental bem diferente da ocidental. Ou melhor dizendo: “ninguém sabia que uma perda ou desgraça porventura poderia tornar-se uma bênção”.

Evidentemente é fácil distinguirmos as pessoas pela cor, pela língua e pela nacionalidade, mas é muito difícil e complicado conhecer bem a cultura de cada um. Também entendemos com facilidade o provérbio: “Em Roma, sê um Romano”. Contudo, quando a nossa cultura enfrenta um “conflito”, ou seja, uma enorme “divergência” com a de outros países, como vamos reagir? Depende da sua mentalidade? Atitude? Equilíbrio? Opção? E quando não há nenhuma hipótese de escolha? O que aconteceu comigo aqui em Portugal representou verdadeiramente uma cena da obra “ Vento do Oriente, Vento do Ocidente” da escritora Pearl S. Buck.

Conforme a filosofia chinesa, o “aniversário” é o dia mais importante e mais comemorativo da vida, por essa razão, tem de se festejar os anos ou dar os parabéns antecipadamente, como significado de “sinceridade”. Não é correto celebrar depois nem recompensar mais tarde, como se fosse lembrar que se faz duas vezes anos em vez de uma, pois é inaceitável e significa “azar”. Sem dúvida, que aqui em Portugal é completamente o contrário.

Quando fiz anos no dia 07 de maio do ano passado, aproveitámos um jantar no restaurante para festejarmos o dia 06 — “Dia da Mãe”. Mal chegou a meia-noite, alguns clientes começaram a cantar “parabéns”, e assim que souberam que eu também fazia anos, vieram junto de mim cantar de propósito outra vez. Fiquei super feliz e emocionada pela simpatia e hospitalidade dos portugueses.

Nesse mesmo dia, como ia dar aulas à noite na Faculdade de Letras, já havia combinado com os alunos de Chinês 2 uma festinha novamente na sala de aula. Desta vez, cantámos “parabéns” em Chinês para ficar um bocadinho mais pedagógico e diferente. Assim, realmente acabava de fazer anos duas vezes. Naturalmente, que adorei, pois representou uma mistura de cultura oriental e ocidental.

A meu ver, esta “festa” deveria ser o “ponto final” do meu aniversário. Porém, na quinta-feira dia 10 de maio, cheguei à sala de aula pontualmente como habitual e surpreendentemente, não apareceu ninguém! Comecei a estranhar! Entretanto, veio uma aluna e pediu desculpa pelo atraso. Respondi com calma e tranquilidade visto que de facto ela era a primeira a chegar e eu sem suspeitar de nada. De repente, ouvi um coro a cantar parabéns. Virei as costas e os meus alunos estavam a entrar com um bolo de chocolate, uma vela em cima acesa, enquanto estavam a filmar. Saltei e tapei a boca para controlar a minha reação para não gritar. Foi uma grande surpresa, um momento inesquecível, amigável e agradável! Foi fantástico e espetacular! Confesso que foi o melhor “aniversário” que fiz na minha vida em Portugal!

Nesta situação, se refletir segundo as nossas “tradições” na China era inacreditável e inaceitável, era “proibido”, era “azar”. Contrariamente, em Portugal, era alegre, normal, simpático e bendito, era “sorte”. Como poderíamos ultrapassar a “discussão” ou “controvérsia” relativamente à cultura da nossa vida? A minha experiência já me deu a melhor resposta: seja racional, seja tolerante, seja positivo, seja gentil, seja flexível e seja otimista! Nada é impossível, tudo é possível!

Foto: pesquisa Google

01fev19

 

 

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12 Comments

  1. Joao

    É um artigo muito, muito interessante e revejo-me muito nas suas conclusöes, por também já ter morado em alguns países fora de Portugal (embora nunca na china) e ter tido “divergências” culturais semelhantes (que normalmente se revelam como muito positivas).

  2. Flávia

    Adorei o artigo. Que linda experiência. Me fez pensar que cultura é que nem senso de humor. Nem todos temos o mesmo, mas seria tolice perder a oportunidade de rir juntos.

  3. Ana

    Como seria de esperar, um artigo interessante, animado, divertido e curioso como só a Candy consegue.
    Tenho uma grande admiração pela Candy, por todas as adversidades que teve, conseguindo ser sempre uma pessoa muito positiva, animada e super divertida.
    Gostei, “Chefe”!
    Grande abraço, Ana

  4. Marta Craveiro

    Gostei muito do artigo!
    É muito interessante conhecer as diferenças culturais entre o Oriente e o Ocidente.
    Aprendi que “uma perda ou desgraça porventura poderia tornar-se uma bênção” e gostei muito da lição: “seja racional, seja tolerante, seja positivo, seja gentil, seja flexível e seja otimista! Nada é impossível, tudo é possível!”.
    Belo ensinamento para os leitores!

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