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De Mijavelhas ao Monte do Bonfim

Maximina Girão Ribeiro

Percorrer a zona a que hoje nos referimos é imaginarmos um cenário que, em grande parte, já desapareceu há muito, onde a azáfama era grande devido à existência de diferentes fábricas, à circulação de muitos operários, aos sons das máquinas a trabalhar, à algazarra das muitas crianças que viviam nas “ilhas”, aos pregões cantantes a chamar os fregueses para os mil e um artigos que pelas ruas se vendiam… Estamos no actual Campo 24 de Agosto, designação que nos remete para a Revolução Liberal de 1820.

Campo 24 de Agosto (vista parcial)

Ao longo do tempo, este local teve vários nomes: “Campo de Mijavelhas” (na Idade Média); depois, “Poço das Patas” tendo em conta as caraterísticas alagadiças do terreno, sulcado por um ribeiro que corria em direcção a Sul, até se despenhar no rio Douro. Teve ainda outras denominações como “Campo Grande” (a partir de 1839) e “Campo da Feira do Gado”, porque aí, já desde 1833 se realizava um grande mercado de gado bovino. Finalmente, por edital camarário de 1 de Agosto de 1860, o espaço tomou o seu nome actual.

Campo 24 de Agosto no início do século XX

O topónimo “Mijavelhas” tem levantado muitas suposições, afirmando alguns que ele se deve ao facto de as mulheres que vinham de Valongo e de Gondomar para vender as suas mercadorias, o pão e os produtos agrícolas, se “aliviavam” por aqueles lados… Contudo, o nome deste sítio, “Mijavelhas”, parece ter uma antiguidade considerável, pois aparece referenciado documentalmente, quer em forais do Porto, por exemplo quando se alude a delimitação do antigo concelho, como nos Livros de Vereações, entre 1393 a 1395, quando se menciona a localização da “[…] forca do concelho, posta por ordem do Senado, aonde padecem de morte natural os condenados pelo crime de roubo […]” e, também, na Carta Régia de D. João I (1385), em que este local é referido quando se confirmam os privilégios dos gafos do Cimo de Vila de Mijavelhas.

Igualmente, Fernão Lopes narra, na sua “Crónica d’ El Rei D. João I”, que foi junto ao chafariz de Mijavelhas, num momento da crise de sucessão ao trono (1383 a 1385), que se juntaram 700 homens do burgo do Porto, apoiantes do Mestre de Avis que, sob o mando de João Ramalho, aguardavam as tropas galegas comandadas por D. João Manrique, Arcebispo de Compostela. Mais acrescenta que o combate não chegou a ocorrer, nesse dia, dado que as tropas galegas se retiraram, ainda antes de chegarem a este local, tendo o confronto ocorrido, no dia seguinte, nas margens do rio Leça, com vantagem para os seguidores do Mestre.

Campo 24 de Agosto, antes de eclodir a explosão industrial

O Campo de Mijavelhas foi, por muitos anos, o sítio da forca do Concelho, para onde eram conduzidos os condenados por crime de furto, levados em procissão, desde os calabouços da cidade. Mas, como o local era considerado longe dos sítios mais povoados e, porque era preciso que o castigo máximo servisse de exemplo ao maior número possível de pessoas, em 1714, a forca foi transferida para a Ribeira, sob o pretexto deste sítio ser mais povoado e os castigos se tornarem mais públicos e, também, ser mais fácil dar sepultura aos justiçados, isto porque, em Mijavelhas, os cadáveres ficavam por muito tempo expostos e, sem lhes darem sepultura, acabavam por ser comidos pelos cães… Ao certo, não se sabe o local exacto onde esteve montada a forca, havendo sobre este assunto várias suposições. Mas, há quem defenda que possa ter estado no cimo do monte onde foi construída a primitiva Igreja do Bonfim, chamada do Senhor do Bom Fim e da Boa Morte…

Forca (desenho simbólico)

O Campo de Mijavelhas era muito mais vasto que o actual Campo de 24 de Agosto pois, a construção de casas e fábricas e a abertura de ruas, nesta zona, só se avolumou a partir da segunda metade do século XIX. Por estes sítios, ainda com características muito rurais, existiram várias quintas e alguns mananciais (reservatórios de águas, as chamadas Arcas d’ Água do Campo Grande e/ou de Mijavelhas) que abasteciam de água este arrabalde e a cidade propriamente dita.

A água de Mijavelhas, além de abastecer fontes e chafarizes, ainda fazia girar azenhas, mós e moinhos e servia para regar campos e courelas. Este manancial era pertença dos donos da Quinta do Reimão, a família Cirne de Madureira que tinha como habitação um solar que, ao longo dos séculos, sofreu significativas alterações, dando origem ao edifício, construído em 1812, onde hoje se encontra a sede da Junta de Freguesia do Bonfim. A Quinta do Reimão era uma propriedade vasta, com os campos de cultivo nas traseiras da residência, que iam até à Quinta do Prado que é hoje o cemitério do Prado do Repouso.

Arca-de-água de Mijavelhas

Um outro manancial era o de Montebelo, pertencente à Mitra, que corria ao longo da rua que tinha esta designação, a qual corresponde hoje à Avenida de Fernão de Magalhães. A abundância de água, por estes sítios, fez surgir os reservatórios ou arcas de água, verdadeiros armazéns que “guardavam” a água, para depois esta ser encanada e distribuída por fontes onde se abasteciam as pessoas, já que as casas que não possuíam terrenos com poços, tinham de ir buscar a água às fontes! Efectivamente, a água só chegou às torneiras de algumas casas, em Janeiro de 1887…

Arca-de-água de Mijavelhas (preservada) na Estação de Metro do Campo 24 de Agosto

A arca de água de Mijavelhas que tinha sido soterrada quando deixou de ter utilidade pública foi recuperada aquando das obras do Metro e está hoje preservada na Estação de Metro do Campo 24 de Agosto, como vestígio de relevante interesse patrimonial. No passado, a arca construída no século XVI, era constituída  por um poço com mais de seis metros de profundidade e servia para captar o precioso líquido, proveniente dos mananciais circundantes, armazenando essa mesma água. Ostenta no frontispício uma pedra de armas (as Armas Reais Portuguesas) e tem uma outra pedra, onde está gravada a letra P (de grande dimensão), que se pensa ser a inicial da palavra “Porto”.

Brasão de Armas

Junto desta arca existiam lavadouros públicos, abastecidos pelas águas que sobravam. Eram compridos tanques de pedra lavrada, com as devidas divisões, sendo frequentados por muitas lavadeiras que lavavam muita da roupa da cidade.

Para “transportar” a água, desde o Poço das Patas (Campo 24 de Agosto) até São Lázaro, existiu o aqueduto de Mijavelhas, que daí partia até à cerca que envolvia o Convento de Santo António (actual Biblioteca Pública do Porto), no Campo de São Lázaro. A construção deste aqueduto teve lugar já em finais do século XVIII, no tempo de Francisco de Almada e Mendonça, grande impulsionador de importantes obras públicas, na cidade.

Também perto da arca, o ribeiro de Mijavelhas era atravessado por uma ponte, a Ponte do Poço das Patas, situada no caminho para o Bonfim, a chamada Estrada do Senhor do Bonfim. A ponte tinha a largura de 4 metros e assentava sobre um arco de granito. Para o lado da feira tinha um bem lavrado parapeito e, junto dele, existiam alguns bancos de pedra. A sua construção data do ano de 1700 e foi soterrada em 1850, pela necessidade de urbanização e nivelamento da zona do Campo Grande.

A partir desta data, a Câmara procedeu ao encanamento da ribeira de Mijavelhas e ao soterramento de uma capela ali existente. Por estas imediações existiram várias capelas, hoje todas desaparecidas: capela da invocação da Senhora da Saúde (em frente à rua Duque de Terceira); ”Capela do Poço das Patas” (de formato redondo, junto à residência dos Cirnes, desaparecida no século XVIII, onde os condenados iam rezar, antes de subirem ao lugar de execução da pena de morte); Capela da invocação de S. José si­tuada um pouco além da saída da Rua de Santo Ildefonso.

Deixando a parte mais baixa desta zona que acabámos de descrever, vamos imaginar o que teria sido a actual rua do Bonfim, cujo sítio, no passado, foi conhecido por “Chão dos Olivais”, no cimo do qual estava o Monte de Godim, com saída para a chamada “Estrada para Valongo e além”, também conhecida por “Estrada do pão”, através da qual este alimento chegava à cidade. Em tempos remotos, o lugar tinha grande arborização, moinhos de vento, fontes e, segundo uma descrição de 1913, da autoria de João G. O. Oliveira Torres, transcrevemos o seguinte texto:

“Há quase dois séculos […] chegando ao sopé do Monte chamado então de Godim, defrontar-se–ia com uma abundante fonte e, subindo por um caminho sinuoso, onde as madressilvas e o rosmaninho perfumavam o ar, e as oliveiras, sobreiros e castanheiros espalhavam agradável sombra, lá ao cimo ia deparar com o cruzeiro.”

Ao longo da subida, por entre olivedos, perfilavam-se várias cruzes que, no tempo da Quaresma, constituíam uma Via Sacra de doze Estações. Segundo alguns autores começava junto da capela de Nossa Senhora da Batalha (à entrada da Rua de Cimo de Vila), ou, segundo outros começaria junto da capela de S. José, com o cruzeiro do Senhor da Escuridão. A Via Sacra terminava no alto do Monte de Godim, com a duodécima cruz (a última Estação) que era a Cruz do Calvário. Esta última cruz representava Cristo crucificado, pelo que o lugar começou a ser designado por Bom Fim e Boa Morte. A implantação desta cruz teria ocorrido por volta do ano de 1740 e logo foi objecto de grande devoção. No entanto, como esta cruz era de madeira e estava exposta às intempéries, naquele alto desabrigado, quiseram os devotos do sítio fazer uma pequena capela, capaz de recolherem dentro dela a santa cruz.

A construção desta pequena ermida enfrentou vários problemas para a angariação de fundos, só tendo sido possível a sua concretização, graças ao contributo de uma devota de nome Maria Pinta. Devido ao tempo entretanto decorrido, não foi a cruz de madeira que foi então abrigada, mas uma imagem do Senhor do Bonfim, também ela mandada fazer pela mesma devota.

Capela do Senhor do Bonfim – calótipo de Frederick William

Mas, a devoção ao Senhor do Bonfim foi aumentando constituindo-se, então, uma confraria. Também a ermida começou a revelar-se pequena, pelo que, em 1774, a irmandade fez um pedido à diocese de Penafiel para obter licença para uma nova construção que veio a fazer-se mais deslocada a poente, devido aos escavamentos que se iam fazendo para alargar o pavimento da via.

Igreja do Bonfim – Archivo Pittoresco, 1862

Assim, entre 1874 e 1894, edificou-se a actual Igreja Paroquial do Bonfim, um belo monumento dedicado ao Senhor do Bonfim e da Boa Morte.

OBS: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01fev19

 

 

 

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1 Comment

  1. Fernanda Miguel

    Fiquei admirada, porque pensava que havia uma arca de água, no actual Jardim da Arca d’Água, e daí a água era distribuída por toda a cidade por condutas subterrâneas.
    Gostei muito do artigo.

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