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Os identitários

António Pedro Dores

Uma manifestante a reclamar contra o femicídio clamava contra o Presidente da República, por este ter ido ao bairro da Jamaica tirar selfies e não ter aparecido ou falado da questão da violência doméstica.

As mensagens televisivas valem o que valem. Mas ficou no ar a possibilidade de haver uma competição entre os activismos contra o femicídio e contra o racismo. Entre um tema fracturante e o outro, ter-se-á estabelecido uma concorrência? É mesmo para discutir sobre que prioridade haveria de haver, entre movimentos feministas e anti-racistas, em termos de políticas públicas?

Não é preciso recorrer a mensagens televisionadas para saber que algumas das vítimas de racismo serão autores de violências domésticas. Isto é, no rigor da nossa condição humana, como gostam de insistir os católicos, todos somos vulneráveis a violar os direitos humanos. O que remete para um relativismo abstracto que nos faz iguais entre todos, mas no pior dos sentidos.

No fim, cada uma das causas mais justas torna-se uma prioridade para os seus militantes, uma concorrência para militantes de outras causas e um espectáculo para a maioria da população. Embora, claro, a maioria se deixe influenciar paulatina, mas apenas moderadamente, pela insistência das campanhas de denúncia de casos intoleráveis de vitimação injustificável.

Se me perguntassem hoje qual seria a minha causa fraturante prioritária, diria a causa ecológica, porque me parece a mãe de todas as causas. Mas teria que ser interpretada como tal, e não como mais uma causa especializada, conduzida por profissionais e peritos, em concorrência com todas as outras, como infelizmente é geralmente o caso.

A questão prioritária, para mim, é a de abandonar o espírito imperial de imaginar que a Terra foi oferecida por Deus aos seus proprietários para brincarem com ela, e que nos cabe a nós, os comuns dos mortais, ajudar profissionalmente à sua exploração, crentes na promessa de um dia, uma geração vindoura será muito feliz e, para sobreviver, não terá que fazer mais sacrifícios no altar do trabalho.

Há que abandonar a ordem das coisas, tal e qual a imaginamos: Deus primeiro, inspirador dos proprietários, irredutíveis exploradores e implacáveis abusadores, sem os quais ninguém trabalharia. No fim da hierarquia, os invejosos, incapazes de olhar para cima, olham para o lado à procura de culpa e vingança no vizinho do lado: na verdade, de preferência, olham para um vizinho mais abaixo contra quem se possa vituperar sem grandes riscos.

Há nisto um misto de natureza humana e resultado da nossa civilização. As políticas de dividir para reinar utilizam, como bem explicou Maquiavel, a natureza humana. Através de experimentação e erro, os poderes públicos afinam e utilizam as suas relações com a população para os fins de manutenção do poder, enquanto for possível. Em democracia, a aliança de todos os poderosos tem conseguido manter oligarquias pacíficas para as classes médias, chamadas a votar no regime, e belicista contra imigrantes, refugiados, países escolhidos a dedo, sobretudo por terem petróleo no subsolo.

Como mostram as revoltas em França, o povo está a compreender os erros que têm sido cometidos, em nome da igualdade, do estado de direito, da liberdade, dos direitos humanos. Porém, ainda não se sabe que povo vai vencer: o povo racista e machista protagonizado pelas extremas direitas emergentes, como cresce aqui ao lado em Espanha? Ou o povo contra as guerras, internas e externas, à procura de novas formas de convivência em harmonia com a natureza e com a natureza humana, como é a herança do 15M, também em Espanha?

As estimativas de retorno das evidências da crise anunciada em 2008, entretanto mantida em banho-maria, fazem prever mudanças grandes, de resto já em curso de muitas maneiras, nos EUA e na Europa.

O racismo foi criado com a exploração industrializada da escravatura, faz mais de quinhentos anos. A violência doméstica, a acreditar na Bíblia, é bem mais antiga. A ultrapassagem dos consumos de elementos não renováveis do meio terrestre ainda não tem quarenta anos. Por mim, a urgência prioritária deveria ser manifestarmo-nos com os jovens que têm respondido aos apelos de Greta Thunberg, juntando-nos às marchas do clima, de preferência com a urgência reclamada por cada vez mais movimentos.

Não quer dizer que as outras causas fracturantes sejam menores e devam ser suspensas para que a causa da harmonia com a natureza possa passar. É precisamente o inverso: teremos de ter cada vez mais consciência que a questão não é de quem têm a culpa e menos ainda exigir aos estados e aos tribunais que nos protejam do racismo, da misoginia ou do clima. Na verdade, os estados e os poderes que se protegem e elevam mutuamente fora do alcance dos povos, em oligarquias, são os principais interessados em promover a divisão das pessoas e as suas lutas intestinas, para poderem aparecer como sensatos mediadores e juízes, em vez de exploradores e viciosos implacáveis belicistas.

A reconciliação da humanidade com a Terra deve compreender como as mulheres, antes, e os escravos, depois, foram milenar ou ao menos centenarmente equiparados à natureza, como seres não realmente humanos, mas muito úteis, quais robots de carne e osso, para servir os seres dominantes, isto é, simbolicamente todos os que quiserem sacrificá-los aos seus desejos de retaliação, tipicamente homens brancos. Politicamente, claro, enquanto as frustrações forem canalizadas para os do lado ou os de baixo, mais espaço de manobra fica para os exploradores e abusadores organizados da natureza e dos seus recursos humanos: nós todos.

PS: É significativo e relevante que o Papa e alguns movimentos religiosos se estejam a mobilizar em torno de causas ecológicas. Vale a pena notar como este Papa, por exemplo quando denunciou o clericalismo abusador de tudo e todos, está a questionar as práticas imperiais de que a Igreja e os estados são herdeiros. O exemplo de Gorvatchov, da auto-crítica que coincidiu com o fim da União Soviética, faz-nos perguntar se a Igreja será capaz de se reformar sem se negar?

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Google

01mar19

 

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