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A política conta

António Pedro Dores

Durante décadas, os politólogos conformistas explicaram que uma das características das sociedades modernas era o alheamento da política de grande parte das pessoas, satisfeitas e entretidas com as suas vidas pessoais e profissionais. Outros sinalizaram o abstencionismo como um risco para a democracia. Todos admitem que o estado promova dinâmicas de discriminação social, cabendo aos políticos, por sua vez alheados dos seus representados, minimizar os estragos.

O estado, por exemplo, pode entrar num processo de degradação do Sistema Nacional de Saúde, como efectivamente entrou a pretexto da intervenção da Troika, como forma de criar espaço para o sector privado de medicina. Como acontece em muitos outros sectores económicos, o seguidismo do modelo de saúde alemão presume haver em Portugal o enquadramento social e político suficientemente semelhante para que a receita estrangeira torne os portugueses numa coisa que não são. Dá barraca.

Há quem pense que o problema de Portugal são os portugueses, que resistem a ser alemães e preferem ser como os gregos. Quem assim pensa esteve no poder durante quatro anos com o objectivo de ser mais duro do que a troika. Depois deles veio quem, condescendentemente, saiba que os portugueses são diferentes de outros povos e que os processos de adopção de receitas políticas europeias é sempre contingente. É preciso ajustamentos para que funcionem. Foi um grande alívio das tensões anteriormente criadas. Portugal tornou-se no único país com um governo de esquerda.

Mas ninguém se lembra de perguntar aos portugueses o que querem fazer das suas vidas. Se alguém o fizesse, estou certo, os portugueses responderiam: “Vai-te catar!”

Em Portugal a lógica política mais típica é ninguém assumir responsabilidades. Fugir às responsabilidades é o desporto nacional mais praticado. Todos condescendemos com quem faz isso, “para evitar trabalho”. Desde o condomínio, aos hospitais, às escolas, à gestão de donativos solidários, aos desastres, aos assaltos, ao uso de crianças para os mais diversos fins, às barracas políticas, fingir que não se passa nada é a forma mais maligna que se pode imaginar de impedir imaginar um futuro melhor.

Os portugueses resistiram à troika e aos políticos que usam a retaliação contra o seu povo. A democracia – a possibilidade de encontrar alternativas pacíficas aos caminhos em curso – funcionou in extremis. Deu-nos a geringonça, resultado de uma manobra política que abriu o espaço político português a territórios anteriormente fechados. Mas não nos iludamos: nesta terra, “o povo [que] é quem mais ordena” não está a funcionar.

Retaliação e empatia disputam o poder, a partir de partidos alheados dos seus representados. Na Europa, a extrema-direita e a extrema-esquerda debatem-se por ocupar os lugares deixados vagos pelo centrão. A criação de falsas espectativas sobre o progresso, as carreiras profissionais, o crescimento da economia, o aumento do bem-estar, a integração social, levam as pessoas a reagir contra, votando para que alguém faça o trabalho sujo de correr com as fake news, as promessas vãs, do cenário político.

A confusão está instalada: fake news significa para uns as promessas vãs e para outros a corrupção. Da extrema-direita, no poder e fora dele, grita-se contra a liberdade, especialmente a liberdade de expressão. Dos restos do sistema em decadência grita-se contra o papão da extrema-direita como forma de tentar poder continuar a persistir nas mesmas políticas que geraram a bancarrota do sistema financeiro global, cuja segunda edição está prevista para este ano ou para o próximo. As propostas de promoção da empatia vêm de grupos vanguardistas de extrema-esquerda, cuja credibilidade está ferida desde a implosão da União Soviética.

Os politólogos, os conformistas e os outros, podem todos ter razão. Os povos integrados na União Europeia viram, durante as últimas décadas, a suas vidas piorarem. Mas comparativamente com o que se passou em outras partes do mundo, como nos Balcãs, no Médio Oriente, nos países da antiga União Soviética, nos novos países saídos da descolonização dos anos sessenta, nos próprios EUA, na Europa – como se diz – não nos podemos queixar muito. Não fazer política significa, para muitos, evitar a guerra e as lutas fratricidas.

Os povos alheados da política para evitar convulsões que os pudessem levar a viver conflitos e violências que não fazem bem à saúde, porém, deixaram de responder como faziam antes da crise financeira. Alguma coisa mudou o estado de espírito dos europeus da União Europeia. Deixaram de viabilizar o centrão político, porque deixaram de o entender como uma protecção: não protegem das más práticas, genericamente referidas como corrupção, da continua redução de rendimentos, dos riscos ambientais, das vidas destruídas pelos créditos (que para os amigos são mal parado e para outros são desemprego, despejos, destruição de famílias e miséria).

Os tempos novos são os tempos do Brexit, dos Gillets Jeunes, do independentismo catalão, do novo fascismo italiano e de muita agitação política de base, desencadeada pela indignação contra o sistema político que voltou a recorrer à xenofobia entre povos para escamotear o modo como a falência do sistema financeiro global exigiria, nas palavras do antigo presidente Sarkozy, refundar o capitalismo, isto é, rever os fundamentos do nosso modo de vida.

Em 2008, o acrónimo PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, literalmente porcos) não gerou nenhuma reacção por parte dos representantes nem dos povos atingidos pelo insulto. Foi recebido como uma tecnicidade. Destilado com a década que temos em cima de tal acontecimento, são outro tipo de porcos que emergem da sua hibernação a ameaçar tomar o poder: os porcos imaginam que a retaliação – sobretudo contra os mais fracos, como os migrantes e as mulheres, por exemplo – funciona como redenção sacrificial para que tudo possa voltar à normalidade. Não há muita diferença entre este tipo de perspectivas nacionalistas, cada vez com mais apoio na União, e as que levaram o Califado à guerra terrorista na Síria.

As eleições europeias de 2019 estão a gerar expectativas extraordinárias para uma sondagem – já que o Parlamento Europeu tem poderes muito limitados. A melhor interpretação da importância das próximas eleições é considerar que quando os povos acordam, como aparenta ser o caso nesta época que vivemos, todas as instituições representativas inflam de poder, sobretudo se receberem a pressão popular. Em tais circunstâncias, mesmo uma sondagem, pelo facto de ser oficial, gera expectativas a que o sistema político, de uma forma ou de outra, é chamado a dar respostas.

Já não são apenas as instituições que produzem decisões. Os povos encontram sempre as suas formas de impor as suas decisões. Democraticamente ou à bruta.

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa Google

01abr19

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