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Amor Paterno

Weihua Tang

Como sempre, ao lembrar-me de um dos analectos de Confúcio: “Não vá longe enquanto os pais estão vivos”, recordo logo o meu pai, que está tão longe, na costa do Oceano Pacífico e vêm-me logo as lágrimas aos olhos.

De certo modo, esta sensibilidade não é apenas pela minha infância alegre e inesquecível que passava na minha terra, nem pelas minhas saudades da China. Nada disso. É apenas pela atenção única, pela consideração exclusiva, pela ternura típica, pela tolerância rara, pela gentileza masculina, e, sobretudo, por aquele amor paterno ímpar, não para com uma filha única, mas sim, para a filha preferida.

Na China temos um ditado popular: “A filha mais nova é um casaquinho pequenino dos pais”! Metaforicamente o “casaquinho” representa o sentido querido, amoroso, mimado e quentinho para os pais. Indiscutivelmente, eu sou esse tipo de “casaquinho”!

Se eu não conseguir memorizar alguns detalhes da minha juventude, pelo menos de duas coisas nunca me esqueci, nem me esqueço, e jamais me esquecerei na minha vida!

No início dos anos 80, na China, ainda não havia tantos meios tecnológicos de comunicação nem de transporte, como hoje em dia. As regras e as disciplinas eram muito exigentes e rígidas na faculdade. Portanto, os estudantes universitários normalmente voltavam para casa somente nas férias do inverno e do verão.

Um certo dia, durante um intervalo das aulas na faculdade, vi uma figura que estava a olhar para dentro da nossa sala de aula, pela frincha da porta traseira. Como estava ao fundo da sala, perguntei ao senhor:

– “Está à procura de alguém?”

Mal ouviu a minha voz, o senhor respondeu subitamente e surpreendentemente:

– “Ó minha querida filha, sou o teu pai”!

Imaginem que grande surpresa apanhei! Fiquei imensamente admirada por uma visita imprevisível do meu pai pois não estava à espera naquele momento. Em vez de dar um pulo de alegria e correr para os braços do meu pai, como antigamente, nem me preocupei em saber à quanto tempo ele estava em pé no corredor, e perguntei com indiferença :

– “Porque não vieste com o teu uniforme militar?”

O meu pai disse sorridentemente, contentemente e pacientemente:

– “Passei e aproveitei o caminho para ver se estava tudo bem com a minha filha e não tive tempo para mudar o fato.”

De repente, reparei que a minha colega estava a observar em silêncio e perguntou-me com um tom esquisito e um ar de desprezo:

– “É o teu pai?!”

Sentia-me um bocadinho envergonhada e embaraçada quando lhe disse “Sim”, com pouca convicção, com menos confiança, e sem aquele orgulho habitual, porque a minha vaidade, a minha expressão ou a minha surpresa ultrapassavam tudo!

Os dez minutos de intervalo passaram num instante. Contrariamente vi o meu pai satisfeito a descer as escadas e a desaparecer com aquele fato azul do laboratório…

Muitos anos depois quando nasceu o meu único filho, comecei a entender conscientemente, inteiramente e dolorosamente o verdadeiro significado dum provérbio antigo chinês: “Nunca sabemos a bondade dos pais até que nós próprios nos tornamos pais ”!!!

Esta afetividade paterna nunca acabou mesmo quando me formei na faculdade. Todos os dias, quando chegava a casa, ia diretamente para o meu quarto. Mas, um dia, quando me deitei na cama para descansar, encontrei um rebuçado ao lado da almofada. Peguei nele e abri a embalagem e, estranhamente, descobri só metade de um rebuçado! Quando falei com o meu pai, ele disse-me:

– “Filha, eu abri o rebuçado sem querer mas, mal trinquei um bocadinho, reparei que era o teu rebuçado preferido, por isso, embrulhei-o outra vez e guardei o resto para ti”.

Como não contava com esta atitude, fiquei caladinha, derretida e comovida pela delicadeza do meu pai. Que “grande pai” tenho na minha vida ! Este amor, este carinho, este cuidado, até esta ternura paterna, vêm mesmo da profundidade do coração de um “pai único”! Nada falso, nada forçado, nada artificial, tudo é natural, tudo é instintivo, tudo é autêntico e tudo é tão real! Por isso mesmo, nós chineses, consideramos o “amor paterno” como a montanha, como o mar e como o espaço! Na realidade nada é exagerado !

As saudades que tenho do meu pai aumentam cada vez mais, assim que se aproxima a “Revolução de Abril”. Mas, o que é que isso tem a ver com o meu pai?! A “Revolução dos Cravos” refere-se a um evento da história de Portugal que, coincidentemente, marca a “importância” da vida do meu pai! É impossível não acreditar no “destino”:

– O meu “grande pai” vai fazer 88 anos, no dia 25 de abril !!!

 

Foto: pesquisa Google

01abr19

 

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7 Comments

  1. Lurdes ferreira

    Olá candy.

    Adorei este texto. Infelizmente não tive direito a ter a mesma ou uma experiência similar à sua com o meu pai que sempre foi ausente. Costumo dizer que o meu pai foi o meu reprodutor nada mais.
    Mas Deus abre sempre outras portas e no lugar do meu pai tive e tenho tios que fizeram e fazem o papel destinado a de um pai.
    Mas devo dizer que ter um pai assim não é para todos hoje em dia e deve mesmo sentir se abençoada. Bjs . Lurdes ferreira sua aluna de mandarim. Xie xie

  2. Fernanda Miguel

    Adorei este texto que demonstra que amor entre pai e filha se pode expressar com gestos simples e carinhosos.
    Não tive a sorte de poder ser acompanhada pelo meu pai por ter falecido apenas com 36 anos, tinha eu 6 e o meu irmão 3, mas lembro-me bem que nos pegava ao colo e me sentava num joelho e o meu irmão no outro, para que não tivesse ciúmes, e nos lia livros de histórias, quase todos comprados na Feira do Livro.
    No dia 25 de Abril, transmita os meus parabéns ao seu pai.

  3. Ana

    Querida Candy:
    Gostei muitíssimo do texto que escreveu.
    Aproveite todos os momentos possíveis com o pai, porque serão esses bons tempos que ficam quando eles partem.
    O meu pai partiu vai fazer três anos em maio e são as memórias de todos os momentos passados com ele que ficam no nosso coração… e que falta ele faz!
    São as tardes de domingo a conversar na sala, os dias divertidos no ski na neve com ele e os meus filhos, o seu sorriso, o seu apoio, o seu interesse por tudo o que diz respeito a toda a minha família ( meu marido e filhos)… um pai espetacular!
    Gostaria que um dia os meus filhos se lembrassem de mim da mesma forma que eu e que eu consiga estar sempre tão presente nas suas vidas como o meu pai esteve na minha.
    Grande abraço querida Candy

  4. Paulo Alpoim

    Que artigo sincero, profundo e fantástico. Por momentos, viajei até à China…! Muitos parabéns pelo dom de transmitir as suas vivências de forma tão simples e aberta. Parece fácil, mas está destinado para poucos.

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