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Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira

Joaquim Ferreira dos Santos, nascido a quatro de Outubro de 1782, no lugar de Vila Meã, na freguesia de Campanhã (actual lugar de Azevedo) era o quinto e último filho de um modesto casal de lavradores, proprietários pouco abastados, João Ferreira dos Santos e Ana Martins da Luz.

Foi baptizado também em Campanhã e aí cresceu até ingressar no seminário, pois seus pais destinavam-lhe a carreira eclesiástica, a fim de enfrentar uma vida digna, dado que, em Portugal, antes do Liberalismo, só herdavam os bens dos pais, o filho mais velho, daí que os outros irmãos tivessem de encontrar outras soluções para sobreviverem, o que passava, quase sempre, pela vida religiosa, mesmo sem que existisse qualquer tipo de vocação. Foi o caso de Joaquim Ferreira dos Santos que, tal como o seu irmão segundo que seguiu o sacerdócio, também ele chegou a frequentar o seminário, onde estudou humanidades que incluíam, entre outras disciplinas, o latim, a lógica e a retórica, conhecimentos que tiveram grande utilidade para o seu enriquecimento cultural.

Joaquim Ferreira dos Santos, por falta de vocação, acabou por abandonar o seminário e, aos 14 anos, começou a trabalhar como caixeiro, no Porto. Em 1800, emigrou para o Brasil, com uma carta de recomendação de um familiar que se comprometia a responsabilizar-se por ele. Nessa terra distante, dedicou-se ao comércio por consignação de produtos enviados do Porto e, mais tarde, esteve ligado ao comércio negreiro, calculando-se que tenha levado de Angola para o Brasil cerca de 10.000 escravos que vendia aos senhores de engenho recebendo, em troca, o açúcar produzido nas fazendas o qual, posteriormente, vendia com altíssimos lucros.

Contudo, esta prática trouxe-lhe grandes contrariedades, pois, após a abolição da escravatura, no Brasil (1830), foi apodado de “negreiro” e “esclavagista”.

Brasão de Joaquim Ferreira dos Santos

No Rio de Janeiro casou com D. Severa Lastra, uma senhora argentina, natural de Buenos Aires, detentora de uma enorme fortuna. O único filho que tiveram morreu em criança e, quando Joaquim Ferreira dos Santos enviuvou, tornou-se herdeiro de todos os bens de sua mulher.

Sem herdeiros directos, senhor de uma incalculável fortuna e abastado proprietário, quando regressou a Portugal, em 1832, instalou-se na cidade do Porto, onde continuou a dedicar-se à vida comercial e bancária, à benemerência e à participação política, apoiando a causa constitucionalista de D. Maria II. Alcançou vários cargos de relevância de que destacamos o facto de ter sido Par do Reino, Conselheiro de Sua Majestade Fidelíssima e Membro do Conselho de Sua Majestade, a Rainha D. Maria II de Portugal.

Foi esta rainha que elevou Joaquim Ferreira dos Santos a 1.° Barão de Ferreira, depois, a 1.° Visconde de Ferreira e, por fim, criando para ele, o título nobiliárquico de Conde de Ferreira, por decreto de 6 de Agosto de 1850.

Retrato de Joaquim Ferreira dos Santos (autor desconhecido)

Joaquim Ferreira dos Santos deixou o seu nome perpetuado em obras de significativo impacto na sociedade portuguesa pois, além de contemplar, no seu testamento, colaboradores, parentes (nomeadamente sobrinhos) e amigos, legou à Santa Casa da Misericórdia do Porto uma quantia extremamente avultada para a edificação de um hospital para doentes mentais, que tomou o seu nome, Hospital de Alienados do Conde Ferreira, ou seja, destinava-se a doentes do foro psiquiátrico.

Hospital do Conde de Ferreira, no Porto

Para além desta significativa doação, também legou ao Estado uma elevada quantia para construção e mobiliário de 120 Escolas de Instrução Primária, para ambos os sexos, embora ocupando espaços diferentes, pois não existia co-educação. Estas escolas tiveram, todas elas, uma planta igual, para que fosse mais prática, económica e rápida a sua construção, num país tão carenciado de instrução que combatesse o alto índice de analfabetismo que na época existia. As designadas “Escolas Conde de Ferreira”, com um estilo arquitectónico muito próprio, inconfundível, foram um marco fundamental na história da educação, em Portugal e um passo decisivo, de Norte a Sul do País, para o arranque e a consolidação do ensino público.

Escola do Conde de Ferreira, em Setúbal
Gravura do Mausoléu de Joaquim Ferreira dos Santos no Cemitério de Agramonte, no Porto

Este capitalista e benfeitor, um dos grandes impulsionadores da instrução pública em Portugal, faleceu no Bonfim, na cidade do Porto, em 24 de Março de 1866, com 84 anos de idade. Está sepultado num mausoléu, no Cemitério de Agramonte, concluído em 1876 (dez anos após o seu falecimento), obra do escultor António Soares dos Reis.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01abr19

 

 

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