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Quando Sarah Bernhardt veio ao Porto

Maximina Girão Ribeiro

Corria o ano de 1822 quando o Porto vivia em alvoroço com a notícia de que uma das mais conhecidas actrizes de teatro de sempre, Sarah Bernhardt, viria actuar num dos teatros da cidade.

Sarah Bernhardt, a mítica e famosa actriz francesa, considerada por alguns como a mais famosa actriz da história (Paris, 22 de Outubro de 1844 – Paris, 26 de Março de 1923) era, na época, uma figura polémica, à volta da qual circulavam muitas histórias, devido à sua excentricidade, exuberância artística e sucessivos envolvimentos amorosos.

Sarah Bernhardt

O Porto da segunda metade do séc. XIX apresentava um dinamismo económico e demográfico, onde fervilhava uma animação cultural, proporcionada pelos vários teatros existentes na cidade e por diversos núcleos culturais e de entretenimento, como os cafés, os salões de baile, os jardins com a música nos coretos, os convívios e serões, em casas particulares entre famílias e seus convidados,… Todos estes lugares eram frequentados por burgueses abastados à procura diversão e de se mostrarem em público. As pessoas mais simples procuravam lugares públicos para usufruírem de alguma instrução e divertimento, nas escassas horas de lazer e ócio de que podiam dispor… A oferta cultural tornava o Porto numa cidade apetecível, sob o ponto de vista do entretenimento e como veículo cultural, aspectos motivadores para a actuação das grandes companhias de teatro estrangeiras e das grandes divas do panorama artístico internacional.

Praça D. Pedro IV (actual Praça da Liberdade)

A cidade e os seus habitantes valorizavam o teatro. Numa descrição do jornal O Tripeiro (V Série, Ano V, nº 1), encontrámos esta passagem bem elucidativa do apreço dos portuenses por esta arte:

“A Invicta era uma cidade muito teatreira. A chegada duma companhia, a estreia duma peça, a festa duma actriz, significavam acontecimentos que interessavam a cidade e alimentavam as conversas dos cafés e das casas particulares, onde se discutia com paixão tudo o que se relacionava com a vida teatral.”

E era esta paixão pelo teatro e pelos actores e actrizes famosos que tornou possível a vinda ao Porto da mais famosa de todas – Sarah Bernhardt, facto que se transformou num dos maiores acontecimentos teatrais até àquela época.

Sarah Bernhardt foi contratada para actuar em duas récitas no Teatro do Príncipe Real, por um preço exorbitante, nesse tempo. O contrato contemplava o preço da viagem, a hospedagem em hotel de primeira, bem como as despesas com quem a acompanhava.

Theatro do Príncipe Real

A sua chegada ao Porto, à Estação de Campanhã, no dia 22 de Abril de 1882, teve um acolhimento de tal forma efervescente que se poderia comparar à chegada triunfal de um rei. Esperavam-na o director do Teatro e toda a companhia dramática, assim como personalidades de grande envergadura cultural e artística. Transportada num landau [carruagem puxada por cavalos, com dois bancos situados frente a frente] até ao Grande Hotel do Porto, tinha os seus admiradores amontoados pelas ruas para a verem passar, apreciarem a sua beleza, observarem as suas roupas ousadas e o seu porte altivo… Foi mesmo necessário um forte dispositivo policial para conter a curiosidade da multidão!

Grande Hotel do Porto

A primeira récita, com a lotação completamente esgotada foi logo no dia em que chegou ao Porto, estando o Teatro do Príncipe Real enfeitado a preceito, especialmente o seu camarim, apresentado com muita elegância.

A actriz representou a peça “A Dama das Camélias” [peça elaborada a partir da obra literária de de Alexandre Dumas (Filho)]. O desempenho foi admirável e encantou os espectadores que muito apreciaram o “tom harmonioso” da sua voz, o “olhar vivíssimo”, o “jogo das fisionomias” e as diferentes indumentárias que utilizou em cena.

A segunda récita, também com casa cheia, no Teatro do Príncipe Real, teve lugar na noite seguinte, representando Sarah Bernhardt uma comédia intitulada “Frou-Frou” que mereceu repetidos aplausos do público, no final de cada acto.

Sarah Bernhardt partiu de Campanhã, no comboio expresso, na tarde do dia 24 de Abril de 1882.

Importantes figuras das letras portuguesas, como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Fialho de Almeida, assim como o famoso caricaturista português, Rafael Bordalo Pinheiro, não ficaram indiferentes à presença desta grande actriz, entre nós, chegando mesmo, este artista, a caricaturá-la diversas vezes nos seus jornais.

Sarah Bernhart no jornal “A Paródia” – caricatura de Bordalo Pinheiro

A loucura e a atracção por esta actriz eram enormes. Conta-se que Ramalho Ortigão foi um dos seus grandes admiradores, desde que a viu em 1878, na Comédie Française, quando ela desempenhava o papel de Doña Sol, da obra “Hernani”, de Victor Hugo, Chegou mesmo a ter um caso com Sarah, após a sua primeira vinda a Portugal.

Ramalho Ortigão foi o repórter que noticiou no jornal “O Século” a primeira presença da actriz, em Portugal, em Abril de 1882. Foi, porém, na segunda visita de Sarah a Portugal, em 1888, que a actriz lhe escreveu uma carta íntima, onde sugere algo mais do que uma amizade. Ramalho, em 1889, encontrava-se em Paris e acompanhava, publicamente Sarah, com enlevo, fazendo com que a sua própria mulher se dirigisse a Paris para o chamar à razão. Mas, mesmo assim, continuou a escrever sobre a actriz e a enviar-lhe bilhetes…

Igualmente Fialho de Almeida se refere a Sarah Bernhardt exaltando a sua expressão de arte dramática e a sua beleza, considerando-a como uma das “musas da poesia dramática moderna”.

Esta diva do teatro que fez digressões mundiais que incluíram a Europa, os Estados Unidos e Canadá, a América do Sul, a Rússia e a Austrália, veio quatro vezes a Portugal (1882 – Porto e, depois, Lisboa em 1888, 1895 e 1899), sempre com muito sucesso. Presenteou também o Porto com a sua presença que, apesar de meteórica, ficou amplamente divulgada em todos os periódicos que existiram na cidade, nessa época. A sua vinda foi motivo de grande regozijo, mostrando a população um grande interesse pelo teatro e, em especial por esta intérprete tão reconhecida internacionalmente.

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01abr19

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