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As Baterias do Bonfim durante o cerco do Porto

Maximina Girão Ribeiro

Falar hoje sobre as baterias do Bonfim é recordar o cerco do Porto (1832-1833) e algumas referências toponímicas ainda existentes no vasto aglomerado de ruas, praças e travessas, vielas ou escadas, espalhados pela freguesia porque, as memórias imateriais ou materializadas dos factos ocorridos em cada local, ficaram preservados nos nomes inscritos, no espaço urbano, em arruamentos ou em monumentos.

Sabemos como foi difícil a transição do regime absolutista para o regime liberal, com uma guerra civil dura e cruel, em que o Porto foi protagonista dos episódios mais marcantes, como o cerco à cidade, feito pelo exército de D. Miguel, entre Julho de 1832 a Agosto do ano seguinte, envolvendo a urbe desde o Freixo até S. João da Foz, na margem Norte do rio Douro.

Os soldados do Exército Libertador, comandados por D. Pedro IV, montaram as suas baterias defensivas, na cidade sitiada pelas tropas miguelistas.

Linhas defensivas do Porto durante o cerco

Na freguesia do Bonfim todos os locais mais altos foram ocupados por baterias de defesa, posições estratégicas que per1mitiam observar e atacar as movimentações dos adversários. Estes redutos e entrincheiramentos eram construídos com troncos de árvores, pedras, todo o tipo de entulho, pipas e barricas cheias de terra, as chamadas barricadas.

As baterias mais importantes do Bonfim foram a:

– da Quinta da China (que se situaria onde hoje se encontra a base Norte da ponte de S. João);

– da Lomba (junto à rua da Lomba);

– do Bonfim (junto à igreja, no Monte do Bonfim);

– do Bom Retiro (junto à rua Barros de Lima);

– de Goelas de Pau (junto à rua Câmara Pestana);

– do Cativo;

– da Póvoa de Cima (na encosta da rua da Bataria);

– dos Congregados (na zona do Monte Belo e junto à rua Monte dos Congregados).

No antigo Sítio da Póvoa de Cima (antigo Monte Belo) existiu uma bateria que ficava junto da actual avenida de Fernão de Magalhães (zona que na época era pouco urbanizada), servindo esta bateria para controlar o Vale das Antas e a estrada de Valongo. Foi a Bateria da Póvoa de Cima, que deu o nome à actual Rua da Bataria [sic].

Esta bateria era apoiada por outras, nomeadamente a das Goelas de Pau e a do Cativo, situada nos terrenos que eram propriedade de Vicente Francisco Guimarães, conhecido pela alcunha de Cativo, por ser o proprietário da Quinta de Sacais, também conhecida por Quinta do Cativo.

Na actual rua de António Carneiro ficava a bateria do Mirante de Barros Lima, também designada por Bateria do Bom Retiro, em conexão com o reduto da Lomba, dominando o vale de Campanhã. A linha continuava para o alto do Senhor do Bonfim, onde estava a bateria com este nome, seguindo daqui até à bateria das “Guellas de Pao” que, com a do Bonfim, dominavam o vale e a estrada de Valongo. Depois, a linha prolongava-se para a Póvoa de Cima, que dominava o vale das Antas, seguindo para os campos da Aguardente (hoje Praça do Marquês de Pombal), onde se localizava uma outra bateria.

As baterias da Lomba e da Quinta da China cobriam o lado leste da cidade.

Foi a batalha de 29 de Setembro de1832 – “a quase queda do Porto”, que representou um duro teste às baterias, aos fortes e aos redutos que guarneciam a linha defensiva do Porto, sob o comando de D. Pedro, pondo à prova, também, a capacidade ofensiva do exército miguelista, que se revelou ineficaz, perante a determinação do exército liberal. Nesta batalha destacaram-se algumas das baterias liberais, como as do Cativo, a do Fojo [Quinta do Fojo onde foi erguida a Capela do Senhor Jesus da Boa-Vista. Desse Fojo descia-se pela Viela da Palha (Rua do Amparo) para o Fojo de Baixo (actual Praça das Flores)], assim como as baterias do Bonfim e da Lomba. Esta última ficou assinalada pelos cronistas da época, como o Marquês de Fronteira que, nas suas “Memórias”, relata:

“O inimigo, apesar da carga de cavalaria conservava-se ainda na posse da bateria da Lomba, que tinha tomado no começo do combate e onde os bravos académicos [Batalhão Académico, composto por estudantes da Universidade de Coimbra] que guarneciam as peças preferiram a morte a retirar-se. O bacharel Negrão era o digno comandante: vi-o morto no centro da bateria. Os dois bacharéis e irmãos Luiz e José Serrão também os vi mortos, abraçados um ao outro junto de uma peça, e o bacharel Guilherme António de Carvalho também morto ao lado d’outro.”

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: Pesquisa Google

01mai19

 

 

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