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José Joaquim Leite Guimarães, o Barão de Nova Sintra

José Joaquim Leite Guimarães, nascido a 21 de Julho de 1808, na Casa de Sapos, propriedade de seus pais, António José Leite de Faria e de sua mulher D. Custódia Maria Machado, num lugar próximo de Guimarães, na freguesia de S. João Baptista de Pencelo.

Seus pais, proprietários, tiveram outros filhos, nomeadamente Domingos e António, mais velhos do que José e duas filhas mais novas, Maria Leite Guimarães e Joana Leite Guimarães. Todos os filhos (homens) deste casal procuraram o Brasil, onde fizeram avultadas fortunas.

Quanto a José Joaquim deixou a sua terra natal aos onze anos, quando rumou para o Porto, a fim de trabalhar como caixeiro, numa casa de comércio de lãs, onde se manteve até aos dezassete anos, altura em que embarcou para o Brasil, em 1825, onde já se encontrava o seu irmão António. No Brasil, José Joaquim começou por trabalhar numa casa de fazendas brancas, no Rio de Janeiro.

Em 1831, entrou como sócio na casa comercial de Luís Joaquim Moreira & Companhia, no Rio Grande do Sul. Aí, envolveu-se na luta contra o partido republicano, pegando em armas na defesa do Império mas, saindo dessa contenda, com um ferimento grave. Logo que se restabeleceu voltou ao Rio de Janeiro, onde constituiu sociedade com seu irmão António, o barão da Glória, sociedade que durou até 1837.

Em 1846, essa sociedade desfez-se e José Joaquim acabou por regressar a Portugal, quando tinha quarenta e dois anos e era já detentor de uma enorme fortuna, adquirida não só pelo seu árduo trabalho, como através de um dos seus casamentos.

Foi o seu sócio, Luís António da Silva Guimarães que assumiu o papel de procurador de todos os bens de José Joaquim, no Brasil, após o regresso deste a Portugal.

À imagem do que faziam outros emigrados portugueses no Brasil, também José Joaquim decidiu viajar, em 1847, visitando os países mais desenvolvidos da Europa, tendo estado presente na Exposição Universal de Londres, em 1852. Passou depois a Itália, percorreu a Alemanha, Suíça, Holanda, Inglaterra, Bélgica e França, chegando a fixar a sua residência, em Paris, onde fundou uma casa de comissões, que manteve até 1855, ano em que regressou a Portugal.

Enquanto viveu em Lisboa (cerca de seis anos), adquiriu a Quinta de Nova Sintra, situada na Calçada de Carriche, local onde existiam outras propriedades de famílias abastadas, provavelmente amigas de José Joaquim, que faziam desta zona um local de veraneio.

Quando decidiu instalar-se no Porto, não descurou a actividade no meio comercial portuense, pois participou em diversos bancos e companhias de seguros e assumiu a administração da Companhia de Iluminação a Gás, que reabilitou financeiramente. Também nesta cidade, foi Vice-presidente e Presidente da Associação Comercial de Beneficência do Porto, assim como Administrador do Asilo da Mendicidade (situado nas Fontainhas), sendo depois nomeado pelo governo, como Provedor deste último estabelecimento. Em todos estes cargos, conseguiu uma revitalização económica e administrativa, a par de uma melhoria de condições e de um grau de prosperidade e dignidade, nunca antes alcançados.

Por decreto de 8 de Março de 1862 foi-lhe atribuído o título honorífico de “Barão de Nova Sintra” (Nova Cintra, segundo a grafia da época), título criado por D. Luís I de Portugal. Foi o nome da quinta que possuía em Lisboa, que serviu para o título de Barão de Nova Sintra, que lhe foi concedido, tendo “[…] em consideração os valiosos donativos com que contribuiu para a manutenção e progressivo melhoramento do Asilo de Mendicidade, confiado aos seus sentimentos de generosa  caridade […]”. Recusaria, porém, o título de Visconde que lhe foi oferecido, em 1866.

Colégio do Barão de Nova Sintra, antigo Estabelecimento Humanitário

José Joaquim viveu muitos anos no Porto, mas nunca se desfez da Quinta de Nova Sintra, em Lisboa, deixando-a em testamento à Santa Casa da Misericórdia do Porto.

Este “brasileiro de torna viagem” casou duas vezes. A primeira, em 1820, com D. Mariana Casal Ramos, brasileira, de Porto Alegre, que faleceu em 1845, ficando deste matrimónio dois filhos, que faleceram de tenra idade. O segundo casamento foi no Rio de Janeiro, com D. Albina Augusta de Araújo, uma portuguesa, sobrinha de um rico comerciante, o Visconde de Araújo. Deste casamento nasceu uma menina que faleceu vítima de um incêndio que, talvez por negligência, veio a ocasionar a separação do casal, recolhendo a esposa a um convento, concretamente ao de Santa Ana, em Viana do Castelo, de onde só saiu dois meses após o falecimento do barão.

A sua obra filantrópica maior foi a fundação do Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra, hoje denominado Colégio do Barão de Nova Sintra (CBNS). Depois de retirar da “falência moral e administrativa” o Asilo de Mendicidade, criou um Estabelecimento de Artes e Ofícios, aprovado em 3 de Dezembro de 1863, pelo rei D. Luís I e pela rainha D. Maria Pia. Três anos depois, em 19 de Outubro de 1866, inaugurava-se na quinta da Oliveira (a sul da rua do Heroísmo), na mesma rua e na mesma casa onde hoje ainda se encontra, também com a presença dos monarcas, o Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra. Este edifício de linhas muito simples é encimado, no portal principal, pelo busto de D. Pedro V, rei falecido muito jovem, irmão do monarca que inaugurava este estabelecimento de ensino.

Este organismo, proposto por José Joaquim Leite Guimarães sob a designação de “Estabelecimento de Artes e Ofícios” pretendia recolher, segundo as suas próprias palavras, “[…] não só as crianças abandonadas e sem família a quem pais desnaturados arrastaram ao caminho do vício e da perdição, mas também aqueles que, não tendo a infelicidade de ter perdido os carinhos e afectos paternais, carecem de auxílio e agasalho durante as horas em que suas mães se empregam no trabalho de todos os dias, para granjear os meios de subsistência para as suas pobres e muitas vezes numerosas famílias […]”, assim como também “[…] os desgraçados que apenas saídos da infância se encontram, especialmente nas grandes povoações como esta cidade, vagueando pelas ruas, sem lares nem família, sem trabalho que lhes garanta a subsistência e lhes modere os instintos [“sic”], sem religião, e sem a mais leve consciência dos seus deveres sociais […]”. Aqui, neste estabelecimento de ensino, José Joaquim pensava dar abrigo aos rapazes saídos da Casa da Correcção e oferecer-lhes a aprendizagem de diferentes ofícios, ou empenhá-los nos trabalhos agrícolas, conforme as suas vocações e aptidões.

Anexo ao edifício principal, o barão de Nova Sintra, talvez inspirado nas “workhouses” inglesas, cuja ideia deve ter colhido na Exposição Internacional do Porto, de 1865, instalou uma fábrica de fiação de seda tendo, para o efeito, um local próximo, onde se produzia a matéria-prima, a partir da criação de bichos-da-seda.

Também, junto ao edifício principal, José Joaquim Leite Guimarães mandou construir, em meados da década de 60 do século XIX, a sua residência, um palacete com vários andares e águas furtadas, uma imponente claraboia, uma cocheira para as suas carruagens puxadas a cavalos, um chafariz e um jardim de laivos românticos, com camélias.

Palacete do Barão de Nova Sintra

Este negociante, retornado do Brasil, capitalista, abastado proprietário, um dos grandes beneméritos da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que desempenhou um relevante papel na vida económica e de benemerência da sociedade portuense da segunda metade do século XIX, faleceu no Porto a 3 de Julho de 1870, estando sepultado num jazigo, por ele mandado construir, no cemitério do Prado Repouso, no Porto.

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

OBS: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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