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Quando se promove populismo em vez de transparência

José Lopes

A ascensão do populismo e intolerância, que cavalga sem freio sobre o património humanista de liberdades e democracia de vários povos do planeta, que assistem, ainda que, com focos de resistência ao retrocesso das suas conquistas históricas. É cada vez mais, tema de inquietação, tanto mais, quando é mesmo legitimado pelo voto popular, como acontece no Brasil com a presidência bolsonarista e sua legião negacionista, que está a transformar este país numa trágica-comédia. Também a Itália, entre outros exemplos de países europeus, apesar das teias de corrupção lhe serem tão familiares na sua própria história das últimas décadas, os eleitores, naturalmente desacreditados nas políticas e seus políticos, cederam à tentação do populismo e das promessas fáceis que abriram caminho à extrema-direita para chegar ao poder, nomeadamente, com os imigrantes como inimigos, entre todas as consequências das opções nas urnas, que acabam por incidir sempre sobre o conjunto da população.

Os insistentes alertas para os riscos de crescimento do populismo, fazem-se ouvir em várias línguas e de diferentes origens políticas, culturais e religiosas. Vozes que se fazem ouvir, mesmo pelo exemplar legado de humanismo de que são portadores, como Louis-Philippe Mendes, neto do cônsul Aristides de Sousa Mendes, que, em entrevista à Lusa “recordou o legado do seu avô como exemplo que deve ser divulgado para mostrar que os populismos e os nacionalismos são um risco para o futuro do mundo” (DN, online, 05/02/2019), porque, como refere ainda o neto do cônsul que em nome dos valores da humanidade, à revelia de Salazar atribuiu em Bordéus (França) cerca de 30 mil vistos a refugiados, incluindo judeus, perseguidos pelo regime nazi, em 1940. “A sociedade de hoje está a enfrentar vários desafios quando vemos a ascensão do populismo e da manipulação. Perante todas essas razões só nos podemos levantar, tornando-nos ativistas. Cada um de nós tem esse dever de se pronunciar perante tal manipulação”, lê-se no DN.

Alerta sobre riscos do populismo que o Papa Francisco partilhou também com os jovens durante audiência celebrada ao Sínodo dos Bispos, em que afirmou, que “o populismo não tem relação com o que é popular”, ou seja, “o populismo é o contrário, é fechado em si próprio. Quando se permanece fechado, não se pode seguir adiante. Estejam atentos”, alertou o Papa, como escreveu a Agência EFE, 06/10/2018.

O tema do populismo não deixa igualmente de merecer a atenção dos partidos políticos, mesmo quando o debate é promovido contraditoriamente por responsáveis políticos, que nos órgãos de soberania promovem populismo em vez de transparência.

Recorrendo a uma noticia do jornal Público (online), 13/10/2018, com o título “PS debate riscos do populismo e da sociedade digital”, lê-se curiosamente, que para este partido social-democrata, como certamente para vários outros quadrantes políticos, o tema do populismo, deve-se ao facto de “a evolução política por todo o mundo” demonstrar que, “há uma imergência do fenómeno dos populismos autoritários, que são conhecidos do passado, hoje são diferentes, mas são demasiado iguais para serem olhados de ânimo-leve”, dando exemplos de que é “visível na América do Norte e do Sul, no Leste, nas Filipinas, o próprio Brexit tem contornos de populismo e até na social-democrata Suécia ele regressa”, segundo declarações de um dirigente socialista, a propósito do debate intitulado “O regresso de velhos riscos: os populismos nacionalistas”.

Com uma tal iniciativa de debate e aprofundamento tão recente, sobre este tema do populismo, só poderiam resultar práticas políticas coerentes, o que nem sempre parece ser o exemplo dos partidos que ao longo de décadas vêm partilhando o poder.

Se perante tal fenómeno social e politico, ainda que, com diferentes realidades de crescimento em vários países, a perda de confiança por parte dos cidadãos nos políticos e nas instituições democráticas, são algumas das condições para o sucesso dos populismos numa Europa sem rumo mobilizador dos povos e a braços com inquietante crescimento da extrema-direita, que as próximas eleições para o Parlamento Europeu a 26 de maio, podem refletir com aparente naturalidade em vários países. Porque se continua a fazer do povo “burro”?

É pois nestas circunstâncias, por mais “insignificantes” que os burocratas possam achar o tema, que se pode questionar. Como é possível que, por cá, mesmo sem perspetivas de vingarem, pelo menos para já, projetos populistas, sejam os próprios legisladores a promoverem ainda mais desconfiança nos cidadãos, quando na Assembleia da República em vez de mais transparência, o PS e o PSD se entendem sem preconceitos políticos numa indigna promiscuidade, no sentido de permitir que, os deputados advogados possam vir a ter participação em processos legislativos em que tenham algum interesse enquanto membros de uma determinada sociedade, mesmo invocando que não participam diretamente no processo em que a sua sociedade de advogados participa.

São “bandeiras” oferecidas a candidatos ao populismo, tão ultrajantes como mais a recente polémica das nomeações familiares para o governo, que, mesmo sendo prática corrente em diferentes legislaturas e órgãos de soberania, é tempo de respeitar o civismo dos eleitores que ainda vão às urnas legitimar os eleitos, os deputados à Assembleia da República e os respetivos governos, os presidentes da república, os deputados europeus ou os autarcas no poder local. Considerando como é óbvio e também inquietante, o elevado nível de abstenção, porque o populismo em Portugal espreita oportunidade, 45 anos depois do 25 de Abril!

Foto: Pesquisa Google

01mai19

 

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