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Agustina Bessa-Luís

Embora estejamos ainda a poucos dias após a sua partida deste mundo e, depois de tantos artigos de opinião já terem sido publicados em tantos órgãos de comunicação social, pensamos que nunca será demais escrever sobre Agustina, estudá-la e interpretá-la, publicá-la e lê-la,… pois, só assim, ela jamais morrerá.

Agustina e as suas obras são, sem dúvida, um património nacional que extravasam as nossas fronteiras, com múltiplas traduções em numerosas línguas, mas que é preciso continuar a preservar, tal como uma jóia preciosa que se guarda num cofre e que de lá se retira para se expôr à curiosidade de todos, da mesma forma como se devem abrir os livros para se descobrir o seu conteúdo em toda a sua essência.

Este nome maior da literatura portuguesa contemporânea, figura caracterizada por uma argúcia acutilante e um estilo de escrita incomparável, dotada de uma inteligência intuitiva e de um sentido crítico ímpar, onde sobressaía uma fina ironia e um sentido de humor relevante, deixou-nos páginas de uma escrita vigorosa, em que se salientam os romances, as biografias, os contos, as obras de teatro, os ensaios, assim como crónicas, artigos, notas, comentários, diálogos, memórias, aforismos e a sua autobiografia.

Nascida em Vila Meã, Amarante, a 15 de Outubro de 1922, aí passou a sua infância e, entre os 12 e os 18 anos, viveu na Régua.

Agustina era filha de um empresário, ex-emigrante no Brasil, Artur Teixeira Bessa, ligado ao negócio do jogo de casino e à exploração de casas de espectáculo, homem proveniente de uma família rural de Entre Douro e Minho e de Laura Jurado Ferreira (filha de pai português e de mãe espanhola – Lorenza Agustina Jurado Franco, nascida em Zamora).

Agustina foi, desde cedo, muito precoce e determinada. Aprendeu a ler com uma professora, D. Inês, que lhe dava lições em casa.

Com seis anos e entre 1929 a 1933, Agustina frequentou, como aluna externa, o Colégio do Sagrado Coração de Jesus das religiosas de Santa Doroteia, na Póvoa do Varzim. Depois do exame de instrução primária, Agustina frequentou o Liceu Eça de Queirós, também na Póvoa, deixando incompleto o 3º ano, altura em que foi para o Porto estudar, em 1936.

Quando uma crise financeira atingiu a família, mudou-se com os seus pais para o Peso da Régua onde, na Casa de Godim, Agustina teve aulas particulares de latim e francês. Foi um período da vida de Agustina em que esta leu muito, nas duas bibliotecas que a casa possuía, a do avô materno, Lourenço Guedes Ferreira, onde descobriu os clássicos da literatura europeia e na do tio António, onde encontrava romances mais frívolos.

Por essa altura, também as grandes obras da literatura portuguesa lhe iam enchendo a alma e, toda esta febre pela leitura a foi conduzindo para a escrita. Escrevia com uma caligrafia miudinha que, por vezes, se apresentava quase misteriosa.

Depois do tempo passado na Régua, regressou ao Porto, onde viveu entre os 19 e os 20 anos. Foi a época em que começou a estudar inglês com uma professora particular e chegou a frequentar o Instituto Britânico. Talvez curiosa pela pintura, tal como outras jovens burguesas da sua época, frequentou o Salão Silva Porto, que funcionava na rua de Cedofeita, no actual n.º 285, onde se iniciou na pintura, embora sem grande entusiasmo, por não encontrar uma real vocação para esta actividade. Por essa altura, Agustina concluía um novo romance, “Deuses de Barro”, que tinha iniciado, ainda na casa de Godim. A sua estreia literária tinha tido lugar em 1948, com a novela “Mundo Fechado”. Agora, com a obra “Deuses de Barro”, para uma principiante, uma rapariga de dezanove anos, a autora revelava uma escrita madura, segura e acutilante e o seu nome começava a soar nos círculos literários portugueses.

Com esta idade não se lhe conheciam namoricos, nem aventuras amorosas. Eis senão quando, esta jovem arrojada colocava um anúncio no jornal “O Primeiro de Janeiro”, do dia 5 de Fevereiro de 1944, com o seguinte teor:

Jovem instruída procura correspondência com pessoa inteligente e culta.

Resposta à administração, N.º 61.

Este anúncio vem citado na página 35, da obra “O livro de Agustina Bessa-Luís” (Três Sinais Editores, Torres Vedras, 2000). Com esta mensagem, a jovem instruída recebeu cerca de 30 respostas, mas encetou correspondência com um estudante de Direito, Alberto Luís, residente em Coimbra, que lhe enviara uma primeira carta com um desenho de sua autoria, representando uma mulher sentada a ler… Esta imagem que parecia adivinhar o que Agustina tanto gostava de fazer –  ler – encantou a jovem. Um ano e meio após o anúncio no jornal e já depois de se terem conhecido pessoalmente, no Porto, Agustina decidiu casar-se, mesmo sabendo da oposição familiar a um casamento precipitado de dois jovens sem futuro assegurado.

Casaram-se na Igreja românica de S Martinho de Cedofeita, no dia 26 de Julho de 1945. Neste casamento, tudo foi inusitado e fora das convenções da época: casaram sem a presença dos pais de ambos; a noiva ia de vestido preto; não houve copo-d’água, mas um chá na Confeitaria do Bolhão, com os noivos e algumas pessoas que estiveram presentes na celebração. Depois do casamento o casal passou a viver em Coimbra, numa minúscula casa, muito modesta.

A partir de 1950 e, após a conclusão da licenciatura de Alberto Luís, o casal fixou definitivamente a sua residência no Porto vivendo, ao longo dos anos, em várias casas. Mas, desde 1973, passaram a morar da Rua do Gólgota, um lugar sossegado, situado numa encosta que dá para os Caminhos do Romântico. O casamento de ambos, que se prolongou por sete décadas, foi vivido até ao fim, nesta casa, até 2017, quando o companheiro inseparável de Agustina faleceu. Alberto Luís foi uma figura de extrema importância, na carreira literária da escritora, pelo papel que sempre teve nos bastidores: passava à máquina os textos de Agustina e desempenhava outras tarefas para que ela tivesse tempo para escrever.

Esta mulher que nunca foi uma pessoa consensual nem convencional, ao longo de toda a sua vida, marcou a literatura portuguesa, desde a obra “Mundo Fechado” até ao último romance que publicou, “A Ronda da Noite” (2006). De todas as obras que escreveu destaca-se “Sibila”, uma narrativa que a projectou no mundo literário. Dela ficaram as personagens inconfundíveis e a descrição de toda a ambiência rural da sua infância e juventude que, tão fortemente marcaram a obra desta escritora.

Muitas das obras de Agustina foram adaptadas ao cinema, pelo cineasta Manoel de Oliveira, nomeadamente “Francisca”, inspirada na obra “Fanny Owen” (1980), “Vale Abraão” (1991/1992); “O Convento”, inspirado nas “Terras do Risco” (1995); “Party” (1996); cujos diálogos foram integralmente escritos por Agustina; “Inquietude” (1998) inspirado no conto “A Mãe de um Rio” (1981); “O Princípio da Incerteza” (2001); “O Espelho Mágico”, adaptado a partir do romance “A Alma dos Ricos” (2005) e, uma outra obra de Agustina, “A Corte do Norte”, adaptada por João Botelho.

Agustina ocupou vários cargos, nomeadamente como Diretora do Jornal diário “O Primeiro de Janeiro” entre 1986 e 1987 e, entre 1990 e 1993 assumiu a direcção do Teatro Nacional de D. Maria II, em Lisboa; foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social; membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris) e da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras).

Foi-lhe atribuído o doutoramento “Honoris Causa”, em Vila Real, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; foi agraciada com inúmeros prémios, como o Prémio Eça de Queirós (1954), Prémio Nacional de Novelística (1967), Prémio D. Dinis (1981) Grande Prémio Romance e Novela (1983 e 2001) e Prémio Camões (2004).

Foi igualmente distinguida com a Ordem de Santiago da Espada (1980) e Officier de l’Ordre des Arts e des Lettres, atribuído pelo governo francês (1989).

Esta grande senhora da literatura, que afirmou na sua obra “Um Cão que Sonha”: «Nasci adulta, morrerei criança», deixou-nos aos 96 anos, no dia 3 de Junho, deste ano, no Porto, a cidade que ela considerava não ser um lugar, mas um sentimento – “O Porto não é um lugar, é um sentimento.”

Texto: Maximina Girão Ribeiro

Fotos: pesquisa Google

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01jul19

 

 

 

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