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O Jardim de São Lázaro

Maximina Girão Ribeiro

Este belo jardim do Porto, Jardim Marques de Oliveira mas, popularmente conhecido por Jardim de São Lázaro, deve o seu nome à zona em que está inserido, perto do local onde existiu, desde o séc. XVI, um hospital de leprosos, ou lázaros, cujo santo padroeiro é S. Lázaro. Era este local, também conhecido por Largo do Arrabalde, uma zona fora da muralha, de características muito rurais. Só a partir do séc. XVIII é que esta zona da cidade se tornou mais concorrida, com a construção, em 1722, do Recolhimento das Órfãs e da Igreja de Nossa Senhora da Esperança que se incorpora neste conjunto. Mais tarde,  em 1783, o Convento dos Capuchos de Santo António da Cidade, instalou-se no edifício, onde hoje funciona a Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Jardim de S. Lázaro no início do século XX (1905), num postal da época

Foi entre estes dois grandes edifícios que se realizou, durante muito tempo, uma feira de porcos servindo este espaço, depois, para criar o jardim, por iniciativa de D. Pedro IV, em 27 de Janeiro de 1833, dedicando-o às mulheres do Porto, como forma de as homenagear e lembrar como elas também sofreram, durante o Cerco da cidade, mas que contribuíram de igual forma para a vitória da causa liberal.

De forma muito significativa, este jardim foi inaugurado em 4 de Abril de 1834, no dia de aniversário de uma mulher importante no coração do rei – a rainha D. Maria II, filha de D. Pedro IV. O rei expressava o desejo de que este jardim fosse, ao mesmo tempo, passeio público, jardim de recreio e instrução, sendo um local de pura recreação para as damas portuenses. Talvez por isso, o jardim tivesse sido concebido com um gradeamento e com quatro portões, como se houvesse a preocupação de proteger quem o frequentava.

O Jardim de S. Lázaro foi elaborado, após o cerco do Porto, com base num risco do pintor João Baptista Ribeiro e executado pelo jardineiro municipal da cidade, João José Gomes.

Em 1869, o jardim teve uma intervenção do arquitecto paisagista, o alemão Emílio David. Sofreu outras intervenções, ao longo do tempo, contudo conserva ainda os laivos de um jardim romântico, ostentando diferentes espécies arbóreas de proveniência geográfica muito diversa (magnólias, tílias, camélias, sequoia,…), tal como foi moda no século XIX. Conserva ainda o coreto que tanto animou as famílias que para lá se deslocavam para ouvir música. O lago, o repuxo e o chafariz de mármore permanecem neste ambiente carregado de efeitos de luz e sombra, conforme o baloiçar dos ramos das árvores frondosas que povoam o jardim.

O lago do Jardim de São Lázaro

O belo chafariz barroco, com uma decoração vegetalista exuberante, localizado no lado norte do jardim, é proveniente do convento de S. Domingos. Em 1838, por indicação do pintor João Baptista Ribeiro, grande dinamizador cultural da cidade, foi este lavatório de sacristia trazido para o local onde ainda se encontra, já não como lavatório, mas como um chafariz, portanto, com um papel mais decorativo do que utilitário.

Avenida Rodrigues de Freitas, vendo-se (à direita) a Igreja do Recolhimento das Órfãs

Este jardim que é o mais antigo jardim municipal da cidade foi, desde cedo, “um centro do janotismo e da moda”, segundo as palavras do escritor Alberto Pimentel (1849-1925), constituindo um dos espaços de lazer das classes altas do Porto oitocentista. Até meados da década de 60 do século XIX, foi o principal local de passeio e de confraternização dos burgueses portuenses, só substituído após a criação do Jardim da Cordoaria, em 1866 e do Palácio de Cristal, é que este jardim deixou de ter a primazia, na cidade do Porto.

No meio destas árvores e arbustos, nos bancos e por entre canteiros e estátuas, continuam a passar vidas e a deixar rastos de vivências e todos os elementos do jardim, na sua mudez, como testemunhas passivas, vão cristalizando o tempo e guardando a memória desta cidade.

 

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Fotos: pesquisa Google

01jul19

 

 

 

 

 

 

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