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O peso das palavras

António Pedro Dores

A condição pós-moderna, definiu-a Lyotard, nos anos 80, como o predomínio da performatividade, isto é, a prioridade às aparências e uma relevância menor dos conteúdos. Em termos religiosos, poder-se-ia traduzir isso pelo aumento da influência do materialismo e uma redução das práticas de espiritualidade. Em termos económicos, traduzir-se-á pela sobredeterminação financeira das actividades produtivas. Na ciência será o pragmatismo metodológico que se sobrepõe à tradução conceptual e imaginativa das experiências observadas. Na política é o predomínio da simpatia de plástico pelos comunicadores testada pelos shares televisivos, independentemente dos programas e acções políticas. Na justiça é o grassar da corrupção dos princípios para justificar a ilegitimidade das políticas.

A hiperespecialização profissional é uma das formas de concretização da reforma neoliberal do capitalismo. Ao serviço da sociedade, como um todo, cada um expõe-se tal como pensa poder melhor contribuir para ajudar a fazer crescer a economia, a doméstica, sua, e a dos empresários, a economia nacional. Cada um constrói honestamente um Currículo Vitae para se expor a quem tiver boas ideias de como usar aquilo que é capaz de fazer, sem perguntas sobre o que é isso com que está a colaborar: corrupção, poluição, exploração, assédio? Como as senhoras de sociedade, os profissionais ouvem e calam.

É certo que há diferenças de classe e de nacionalidades no modo como se vive esta característica das sociedades actuais, a prioridade às aparências. Uns acumulam registos de cursos universitários feitos entre amigos, estágios remunerados e lugares de confiança política. Outros vêm transformadas as suas competências exploradas em falsas posições não remuneradas em empresas fictícias. No fim da escala, há as vítimas de tráfico humano, misturadas como migrantes, traficantes, meliantes, refugiados, prostitutos, aventureiros.

A exigência geral de performatividade, é sabido, pode ser estimulante para alguns; para muitos até. Os espectáculos nunca tiveram tanto sucesso, mesmo ou sobretudo quando são reality shows. (As pessoas estão fartas de profissionais). Mas a performatividade é estigmatizante para outros. As crianças que vão para a escola sem comer não têm boa aparência e, com toda a probabilidade, jamais saberão como se consegue ter boa aparência. As pessoas a quem um acidente ou uma doença tornam incapazes de trabalhar e necessitadas de pagar cuidados de saúde para sobreviver entram facilmente em depressão, doença que afecta grande parte dos portugueses. A Guida Brito chamou-me a atenção para as pessoas que tiveram condições para continuar a vida que tinham antes da onde pós-moderna, beneficiando dos recursos próprios da autossubsistência somados aos disponibilizados à cidadania, pela democracia, mas que se veem esmagadas pela pós-modernização.

Um exemplo mais conhecido é o dos habitantes das zonas do centro das cidades metropolitanas alvo de especulação que, sem se poderem defender, são expulsos das suas habitações e das suas vizinhanças, de sempre. O exemplo que a Guida nos mostra é desconhecido: são aldeões, no Alentejo, que não têm forma de denunciar o facto de estarem a ser tratados como lixo urbano nas suas próprias terras.

O Alqueva acumulou água para alimentar uma mono agricultura industrializada que faz do território uma fábrica a céu aberto, como se vê na foto. “Os novos contratos já assinados (…) levam a crer que nada restará do Alentejo e grande parte do Algarve. Além dos milhares ou milhões de árvores milenares e centenárias arrancadas, já é visível, através de fotografias aéreas, o início da queima ou arranque das que sobejaram. É a dor e a morte, por todo o Alentejo”, escreve a autora.

Houve tempo em que a isto se chamava progresso. Ainda hoje essa ideia atormenta as pessoas. Será que uma vida pré-moderna é admissível na era pós-moderna? Será que a vida que as pessoas levam é de tal modo errada que deve ser erradicada? E poderá fazer-se isso sem eliminar essas pessoas, as que restam no Alentejo?

“Morro lentamente” – diz Rosa Venâncio. “Meu cuspo é sangue” – diz Rosa Dimas. “Extermínio. Genocídio” escreveu Artur Pissarro, à procura de palavras para descrever aquilo que não é performativo.

As aparências, vistas de fora, não morrem nem sofrem. Nas fotos, os aldeãos alentejanos continuam a parecer pessoas, embora vivam com a morte a cercá-los. A esperança está na performatividade: será que a página da internet da Guida chegará a alguém que possa reverter a situação? Ou continuará a indiferença? Será isso, o sucesso ou o mais provável insucesso, culpa da Guida?

Não estamos a falar da escravidão ou semi escravidão dos nepaleses, nem da fome e pobreza das crianças e de suas mães solteiras. Estamos a falar do abandono de alentejanos que resistiram aos latifúndios mas se sentem impotentes face à conjugação de regimes políticos que seduzem os seus filhos, empurrados para a emigração, e a indiferença com que o superficial trata as profundezas da condição humana: das condições de vida daqueles que vivem eventualmente noutro tempo histórico mas que, teoricamente, humanitariamente, deveriam ter direito a viver bem. Ao menos, tão bem quanto viviam no tempo em que lhes disseram a eles, convencendo-os e aos seus filhos, que se vivia melhor fora dali.

Réné Girard é um antropólogo maldito por ter, entre outras coisas, reparado que os mitos de origem das identidades sociais das comunidades humanas falam todos de um genocídio preliminar. A separação de grupos de pessoas de dentro de outros grupos, desenvolveria uma espécie de complexo de Édipo, um desejo instintivo de se ver livre das suas origens primeiras.

Tal como os novos ricos, por vezes, se sentem envergonhados dos seus progenitores, a pós-modernidade, ao criar mundos globais, barragens para uso universal de empresários ainda mais distantes da terra do que os latifundiários, tornou os locais meras figuras na paisagem.

Foto: pesquisa Google

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

01jul19

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