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Obstruídos pelas nuvens

Miguel Correia

Qualquer adulto que se preze proferiu, alguma vez na vida, a ameaça de apenas dar a sobremesa ao filho (ou filha) depois de ter comido a sopa. Um gesto de chantagem, é certo, mas assegurava que o petiz enfiava no bucho a quantidade recomendada de legumes e que a panela da sopa não andava a estorvar na cozinha por mais oito dias. Os mais otimistas encontram, neste gesto disciplinar, uma forma de recompensar algo que foi feito com dificuldades ou de forma contrariada. Muitas vezes, durante a minha infância, a minha mãe pegou na colher e começou com a lengalenga do aviãozinho. A magia perdeu-se e chego à triste conclusão que a malta que gere os aviões borrifa-se para os sacrifícios ou dificuldades. Atacam a sobremesa como leões famintos…

A TAP, como qualquer empresa pública que se preze, dá prejuízo. De acordo com o último relatório de contas o valor do rombo financeiro é equivalente ao preço da transferência do João Félix para Madrid. Seria de pensar que os administradores fizessem uso das suas capacidades de gestão para resolver (ou minorar) a situação financeira da companhia. Porém, em Terras Tugas, tudo funciona ao contrário! Os senhores da Comissão Executiva juntaram-se e resolveram atribuir prémios chorudos de desempenho a 180 funcionários. Afinal, no meio de tanto prejuízo, é mais milhão, menos milhão!

O conceito inerente (ou vontade de premiar o desempenho) dá-me vontade de rir e o mais irónico é que os restantes funcionários da companhia aérea lutam por melhores remunerações e condições de trabalho! Recorrendo a um chavão: viram o dinheiro a voar! O Estado, na pessoa do Ministro das Infraestruturas e Habitação, defendeu-se com o desconhecimento e discórdia da atribuição dos prémios e que tal gesto constitui uma quebra da relação de confiança. O Primeiro-ministro, António Costa, subscreveu a defesa e apoiou o ministro.

A notícia gerou bastante alvoroço! Comunicados, entrevistas e toda uma panóplia de engravatados nos principais serviços informativos; muitas opiniões dos comentadores de serviço afetos aos vários canais e todos – exceto os funcionários que receberam o dinheiro – discordaram com tamanha injustiça e abuso de poder. Num cenário ideal (de um qualquer país civilizado) estes ilustres premiados seriam afastados dos cargos e responderiam, perante a justiça, pela atitude prepotente. Neste retângulo à beira-mar plantado, onde reina a anarquia e compadrio, não há registo de qualquer devolução do “guilho”, mas sim, da promessa de não voltar a fazer o mesmo e tratar de alterar a legislação em vigor…

Foto: pesquisa Google

01jul19

 

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