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A Última Rota da Transumância

Lurdes Pereira (*)

Quem lê sobre a Serra de Montemuro, “a mais desconhecida Serra de Portugal”, facilmente descobre que as cabras e ovelhas traziam os chifres enfeitados com fitas e pompons. Por tradição, os habitantes das aldeias iam a Castro Daire esperar a chegada dos rebanhos da Serra da Estrela e receber os pastores com pão e vinho. A abundância de enfeites e a música chocalhante tornavam este momento o mais esperado do ano.

Na “mais desconhecida Serra de Portugal”, assim em tempos, Amorim Girão definiu Montemuro, as capas de burel ainda escondem os rostos humildes das sempre orgulhosas mulheres serranas e as lendas permanecem vivas para explicar factos da sua história.

Não se sabe ao certo quando terá sido o início da necessidade da migração temporária de gado, mas sabemos que o ano de 1999, uma viagem de ovinos, desde a Serra da Estrela até à Serra de Montemuro, marcou “A Última Rota da Transumância”.

Não escapou aos olhares atentos cujo trocadilho de palavras transformam o rude suor em marcas de poesia, assim declamou Aurora Simões de Matos:

(…) E num dia de Verão

Chegam rebanhos da Estrela

A serra torna-se então

Dentre as serras a mais bela

Toda coberta de lã

Outra neve… outra aguarela (…)

Reza a história que as deslocações de gado se verificam desde os tempos mais remotos, podendo até recuar à fase nómada do homem. Esta iniciativa tinha como objectivo assegurar a alimentação do gado quando os pastos escasseavam nas regiões autóctones. Durante o Verão calcavam caminhos montanhosos comandados por um Maioral, numa rota inalterada desde os tempos que não há memória.

Economicamente, a procura de lã fez do século XVIII os anos dourados da pastorícia. Porém, e porque tudo está em constante mudança, o século XX trouxe profundas alterações que se refletiram no trânsito social, numa profunda diáspora que fez conjugar o verbo abandonar. A opção de um mundo melhor, mais industrializado em detrimento do mundo rural provocou um abandono daqueles lugares tão esquecidos onde só o olhar turista, que nunca sentiu as dificuldades locais do dia-a-dia, poderá nele encontrar o seu derradeiro encanto da paisagem, na musicalidade do silêncio e no registo da imagem.

Sensíveis às intensas dificuldades de outrora, a tradição voltou a Montemuro dinamizada com a recriação da Última Rota da Transumância. Eram umas 2000 cabeças de gado a relembrar a história dos antepassados com a deslocação de rebanhos, seus cães de olhar sempre atento e seus pastores a acompanhar. A primeira fase teve início em terras de Castro Daire até à aldeia de Vilar, local de paragem para carregar baterias e descansar um pouco da caminhada e do calor que se fazia sentir.

Retomado o percurso, lá seguiram para Campo Bemfeito, uma aldeia típica de montanha da Serra do Montemuro, classificada como Aldeia de Portugal, pelo seu valioso património cultural.

Neste momento tão único quanto mágico, tão efémero quanto inesquecível degustam-se os sabores da ruralidade. De um olhar a preto e branco a necessidade transformou-se numa tradição tão autêntica para perpetuar a memória de uma cultura milenar. E se no passado o objetivo era a procura de pastos fartos, o presente reciclou esses pastos em saberes, em valores da história da vida do pastor oferecendo alicerces do conhecimento para projetar no futuro das novas gerações.

(*) Texto e fotos

01ago19

 

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2 Comments

  1. Lurdes Pereira

    Obrigada Aurora Simões de Matos por este depoimento. Quem pode ficar indiferente ao modo de vida de um passado não muito distante?
    O destino um dia levou-me até Castro Daire, sem contar. Reparei que havia qualquer magia, mas nem imaginava que eu estava alí, em Castro Daire, terra que eu desconhecia, no dia da “Última Rota da Transumância”. Não querendo acreditar, segui os rebanhos. Nem sei se bebi aquele momento, tal era a minha felicidade em somar imagens para poder partilhar com todos aqueles que amam e respeitam a história da Transumância.
    Obrigada.
    Lurdes Pereira

  2. Aurora Simões de Matos

    Interessantíssima reportagem da autoria de Lurdes Pereira, uma amante das raízes culturais do Portugal Interior. Belíssimo documento em registo de palavras e imagens.
    Em 29015, fiz em Lisboa uma palestra sobre o tema. Dela respigo algumas palavras, como complemento ao que aqui ficou dito:
    «
    (…)
    Pelo S. João, a 24 de Junho, vários guardadores de gado, vindos da Serra da Estrela, sempre sob orientação do respeitado MAIORAL, juntavam os rebanhos às portas de Viseu (…) e, sempre ao largo das povoações, caminhando pelas seculares CANADAS, caminhos entre muros baixos de pedra solta, seguiam durante três dias até ao Montemuro, (…) onde permaneciam por dois meses, até ao S. Bartolomeu, a 24 de Agosto. (…)

    Se a prática da TRANSUMÂNCIA tinha influência na vida da nossa serra? Desde logo, a nível económico, social, turístico, etnográfico, antropológico, ambiental, da biodiversidade. A troca de músicas e linguagens, lendas, crenças, rezas, superstições, costumes, práticas alimentares, jogos tradicionais, etc. etc. etc. A circulação e a partilha. O panorama histórico e cultural em efervescência. O lendário a marcar um conjunto de vivências e de evidências. Agora na memória das gentes. A perpetuar uma cultura milenar. (……)

    Os caminhos pastoris entre a Estrela e o Montemuro passaram, por motivos óbvios, a ser conhecidos por “A ÚLTIMA ROTA DA TRANSUMÂNCIA” . E a última viagem dos rebanhos aconteceu no Verão de 1999.(…..)

    Ficou uma memória solta no tempo. Memória que ainda hoje ecoa pelas tapadas montemuranas, em busca de uma razão. Restam as saudades da actividade que se afirmou como um dos mais fortes e duradouros factores identitários do mundo rural do Montemuro.
    (….)
    A dinamização da rota, desde o Verão de 2015, é uma louvável iniciativa da Câmara Municipal de Castro Daire, como CARTAZ TURÍSTICO

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