Menu Fechar

Como nos vamos adaptar melhor?

António Pedro Dores

As nomeações para os lugares de topo da União Europeia (UE) mostraram a influência das posições da direita autoritária. A direita que alimenta a intenção de subverter a democracia, a divisão de poderes e os poderes de cidadania, conseguiu vetar nomes. O aumento das votações em partidos verdes foi inconsequente, pois nem em termos nacionais nem em termos internacionais, há alguma ideia de como a UE poderá ser mais efectiva no combate global às alterações climáticas. Não há nenhum programa para descentrar da obsessão do crescimento económico, como o anunciado pelo governo da Nova Zelândia.

Houve quem tivesse a esperança de criação de uma geringonça europeia, uma aliança progressista, entre socialistas, liberais e verdes, para secundarizar o Partido Popular Europeu (PPE). Sem sucesso.

Foi notória a diferença de influência entre os dois projectos de mudança: o da direita castigou o comissário que abriu processos contra a subversão das instituições democráticas em países membros; o de esquerda desbloqueou as votações para consagrar o PPE, para que o impasse pudesse ser ultrapassado, e prescindiu de levar à frente as suas propostas. Há uma questão de estilo, em como a direita e a esquerda pressionam o PPE, mais ou menos conflitual ou cooperante com as instituições. Mas o que me interessa chamar a atenção é como ambos os projectos de mudança da UE, cada um a seu modo, se conformam com a desesperança, com o centrismo, com o discurso único e, na verdade, com a falsidade das promessas que não têm a intenção de cumprir; nem a expulsão dos estrangeiros, nem a transição verde são realizáveis sem transformações radicais.

Com o fim da União Soviética, a ideia de fim da história e de fim das ideologias emergiu como um facto consumado, como uma descrição da realidade, e já não como um desejo de pacificação. Com a globalização, todos os países, segundo esta teoria a que alguém chamou unidimensional, passaram a ser (teoricamente) iguais entre si; incluindo a China, com o seu regime de um país e dois sistemas. Um pouco do mesmo modo como todos os cidadãos deveriam ser (teoricamente) iguais em direitos e deveres. Pouco a pouco foi-se descobrindo que milhões de pessoas vivem e trabalham (mais barato) em condições de exclusão da cidadania, porque os estados foram fechando os olhos à sua clandestinidade como imigrantes, remetendo-os para a economia paralela e para os trabalhos mais penosos, dispensando assim os cidadãos nacionais de cumprir essas obrigações. Cidadãos nacionais dispensados de assumir trabalhos desprestigiados, mas igualmente atacados pela precariedade laboral e social, incapazes de organizar uma vida independente, sem ajuda de familiares em melhores condições.

Quando a crise financeira surgiu, os primeiros a sofrerem as suas consequências foram os precários, entre esses os mais precários, os trabalhadores imigrantes, as mulheres e os mais jovens. Para a direita autoritária, a crise não resultou da lógica económica continuar a ser a mesma que era a da Europa no século XIX, mas agora globalizada: a crise aconteceu, imaginam, porque os imigrantes não recolheram todos aos seus países de origem e estão a usar os recursos do estado social que poderiam ser usados apenas para os nacionais, tirando pão da boca dos desempregados e de outros assistidos. Para esta direita, é a corrupção dos políticos, a sua falta de dureza na aplicação da lei de imposição da exclusão dos imigrantes, que causa problemas aos trabalhadores e à economia nacionais.

Para a esquerda inovadora, dita progressista, afinal revivalista, o problema é que as restrições orçamentais impostas pela falência do sistema financeiro global, disfuncional, não permitem cumprimento do contrato social chamado estado social. Justifica a violação dos contratos de trabalho, colectivos e individuais, e a não actualização de salários, na verdade a sua redução, pela irracionalidade gananciosa das classes dominantes, pelas privatizações.

As tendências de mudança, à esquerda e à direita, não dão suficiente prioridade às questões ambientais. O crescimento económico continua a ser prioritário. Em período de crise, ainda mais prioritário, como se sabe pelo maior desdém com que são tratados os estudos de impacto ambiental, obrigatórios por lei.

Se o principal problema da União for a desesperança, a falta de futuro, o que dizer da situação dos mais jovens de hoje? Os que estão a cargo de reformados que podem apoiá-los, perguntam-se como irão viver quando esses apoios faltarem? Os que estão empregados, ao invés, perguntam-se se poderão continuar a esperar seguir carreiras profissionais ou se serão engolidos pela precariedade generalizada? Os mais jovens ainda, sem idade de votar e de entrar no mercado de trabalho, começaram a manifestar-se. Perceberam que estão nas escolas como gado no matadouro, à espera de entrar num sistema enlouquecido. A produção de alterações climáticas não pode continuar, logicamente; porém continua !?! A concretização das previsões científicas, e o estado de negação dos estados e das próprias sociedades, munidas das gerações mais bem formadas de sempre, revelam a incapacidade de mudança racional perante o ecocídio em curso.

Para que serve ir à escola, para que serve viver-se em países avançados, se a irracionalidade mais descarada domina as últimas décadas, e continua a dominar, negando as previsões unânimes da ciência e os riscos inimagináveis que, pela certa, vamos correr por causa dessa negligência?

Uma das razões pelas quais a extrema-direita cresceu em apoios é que diz querer combater a corrupção. Combater aqueles que falam, falam, apenas para encobrir as suas verdadeiras intenções. É certo que tal direita manobra politiqueiramente num equívoco: defende ideologicamente que a democracia é, por natureza, corrupta, mas não o afirma claramente. Fá-lo apenas tacitamente, como boato das redes sociais e para os seus mais íntimos. Mas porque é a única força anti-corrupção politicamente presente, as pessoas que imaginam um estado de coisas sem corrupção, sem nepotismo, sem privilégios, sem arbitrariedade na interpretação das leis, sem dois pesos e duas medidas, quem tem esperança de um estado de coisas utópico, sem conflitos e sem crises, em que todos os crimes são punidos, que basta votar para que alguma coisa mude, enganosamente vota no que há quem chame populismo; para castigar os políticos, como se costuma dizer para se referir os que mentem nas campanhas eleitorais.

(Populistas são todos os partidos que precisam de votos dos eleitores e se esforçam por conciliar os seus interesses, e ideologias particulares e elitistas dos vários lobbies, com a linguagem e sentimentos do vulgo. Populismo é fazer a conversa que os eleitores gostam de ouvir, e depois fazer o que apetecer a partir dos cargos públicos conquistados. Populismo é a contra-acusação dos políticos e comentadores actualmente sentados na política, na arte de escolher a polissemia correcta das palavras para produzir os votos populares, para ocupar o centrão, a promessa de paz, ao mesmo tempo que evitam reconhecer que isso é precisamente a corrupção que os povos sentem estar a atraiçoá-los).

Durante décadas, quando os grupos de extrema-direita, agora em ascensão, nem sequer existiam, a não ser na cabeça de alguns saudosistas, como o senhor Le Pen, o establishment político, o centrão, conhecendo muito bem os riscos ecológicos que estavam a aumentar cada vez mais, não hesitaram, não hesitam, em manter o modelo económico poluidor, escondendo o assunto; estigmatizando, comprando, excluindo, seja quem for que trate do assunto. As mentiras na política não são, evidentemente, só anti-ecológicas. Mas estas são hoje evidentes e drásticas nas suas consequências.

O revivalismo, fascista ou do estado social, é a forma política da resistência à transição energética e ambiental que continua a ser cada vez mais urgente e sempre adiada. O futuro nunca foi vivido. Sobretudo o nosso futuro: o nosso futuro será vivido a 2 ou mais graus de temperatura acima da média, com consequências imprevisíveis. Se estamos em crise por causa das migrações e sem saber como combater o racismo, na política, como estaremos preparados para nos adaptarmos ao novo meio ambiente que se começa a formar?

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Foto: pesquisa Google

01ago19

 

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.