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O Jardim de Arca d’Água

Maximina Girão Ribeiro

O nome deste jardim vem-lhe de um secular reservatório (Arca d’Água) que nesses terrenos se encontra, desde finais do século XVI, quando se iniciou a sua construção. Neste local, existem três nascentes de água, o chamado manancial de Paranhos que, durante séculos, abasteceu fontes e chafarizes da cidade, através de caminhos abobadados no subsolo. Os subterrâneos que partem do Jardim de Arca d’Água atravessam parte do subsolo do Porto e tiveram uma construção bastante prolongada no tempo.

Este Jardim situa-se na freguesia de Paranhos e está localizado na Praça de 9 de Abril, nome que evoca a data da Batalha de La Lys, em 1918, na região da Flandres, durante a Primeira Grande Guerra onde se bateu, valorosamente, o Corpo Expedicionário Português, embora as tropas portuguesas tivessem sofrido uma pesada derrota pelos exércitos alemães.

O jardim foi projectado por Jerónimo Monteiro da Costa e inaugurado em 1928. Este homem foi horticultor, director dos jardins municipais do Porto e presidente da Comissão Instaladora do Futebol Clube do Porto, em 1906. Embora projectado e inaugurado na segunda década do séc. XX, o jardim contempla características do período romântico

Neste espaço ajardinado, encontram-se várias espécies arbóreas, frondosas e monumentais, destacando-se os plátanos, os cedros e o conjunto de magnólias que envolvem o coreto, situado a sul, onde já raramente se ouvem músicas, muito menos as melodias populares que tanto animaram os dias de romaria, de outros tempos.

O jardim tem ainda outros pontos de interesse como uma imponente gruta artificial de características românticas e um lago com uma ponte que o atravessa. Salienta-se ainda uma escultura de Charters de Almeida, inaugurada em 1972, intitulada “A Família”.

Muito antes de este jardim existir, o local era conhecido pelo nome de Largo de Arca de Água, arborizado, mas longe da parte mais populosa da cidade. Foi por aí que teve lugar um episódio que ficará para sempre ligado a este lugar, pelo facto de envolver dois dos mais importantes escritores da literatura portuguesa: Ramalho Ortigão e Antero de Quental que aí travaram um duelo, em Fevereiro de 1866.

O episódio foi assim relatado por Camilo Castelo Branco:

Em 1886, na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes.”

Na época desta controvérsia, viviam-se anos em que, na literatura, o realismo se opunha ao romantismo, travando-se uma enorme polémica entre os seguidores de uma e de outra corrente que ficou conhecida como “A Questão Coimbrã” ou “Questão do Bom Senso e Bom Gosto”.

O poeta ultra-romântico, António Feliciano de Castilho, em 1865, escrevia uma carta que seria publicada como posfácio do “Poema da Mocidade”, de Pinheiro Chagas. Nessa carta, o velho poeta, cego, fazia algumas considerações acutilantes sobre poemas de Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro, satirizando e censurando o grupo de jovens da Escola de Coimbra, acusando-os de exibicionismo, de obscuridade e de tentarem subverter a noção de poesia, com falta de “bom senso e bom gosto”.

Antero de Quental contestou esta crítica, publicando uma carta-aberta a Castilho intitulada “Bom-senso e Bom-gosto”, onde se insurgia contra Castilho e contra o desdém que este manifestava, em relação à nova geração de poetas. Nesta altura, em que os ânimos ferviam, Ramalho Ortigão defendia Castilho e acusava Antero de cobardia, face à cegueira e à velhice do poeta António Feliciano de Castilho. Com este cenário tão conturbado, Antero decidia fazer uma viagem até ao Porto para se confrontar com Ramalho Ortigão.

No dia 4 de Fevereiro de 1886, Antero e Ramalho encontraram-se no Largo de Arca de Água para um duelo de espada e, logo na primeira investida, Antero feriu Ramalho num braço e deu-se por vencedor. Contudo, mais tarde, os dois escritores reconciliaram-se e até participaram no mesmo grupo literário, “Os Vencidos da Vida”.

Este foi um episódio que a História registou. Muitos outros se poderiam contar mas, esses, ficaram na memória de cada pessoa que os viveu.

No início do século XX, este local da Arca de Água passou a acolher a feira de S. Miguel que funcionara, até então, na Rotunda da Boavista. A partir de 1928, com a inauguração deste espaço como jardim, passaram as pessoas a poderem fruir e usufruir de um ambiente verde e agradável, com cantos e recantos que proporcionam um refúgio para se abstraírem, relativamente ao bulício circundante.

Obs: Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01ago19

 

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