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Sol e chuva no tempo da colheita

Bruno Ivo Ribeiro (*)

Lá fora onde reina a noite, calcorreiam as ruas os meus pensamentos, e cá dentro, onde a minha solidão se acompanha de mim mesmo, visto as palavras que meus olhos choraram.

Na falsidade de um verso, escrevo a verdade de um sentimento, e na amargura da prosa, desenho a doçura do ser. Assim vão soltos os meus pensamentos, e assim são verdadeiros e livres as frases que jamais expressá-los-ão, ainda que tentem.

Oh metafísica rural, oh simplicidade astral escrita nos versos de um campo lavrado. São teus versos os carreiros, é teu brilho, o próprio luzir do astro rei, só teu semblante carrancudo se compadece diante da brisa montanhosa que beija teu rosto abençoado pela chuva de há pouco. Metafísica que te espraias no sonho de uma criança, ciência simplesmente escrita diante do que te procura, és sabedoria e luz para aqueles que te procuram, e és pauta musical para o artista que contigo comunga os prazeres naturais infligidos pela condição de viver, e não obtidos pela mera existência.

Calcorreio as pedras polidas da minha infância nunca perdida, pedras de meu coração, pedras da minha aldeia de longe e que hoje está aqui tão perto.

Oh aldeia de seixos rolados, aldeia eternamente virgem de granitos que contaram os anos, estou hoje contigo, sim, contigo, aldeia minha que sempre em mim estás.

Flanei pelas trevas de aquém mar, e mergulhei nas profundezas do medo, para ressurgir, como fénix, da escuridão em que antes me afogara. Nessas trevas de aquém mar, inundei-me de luz, e voando, voltei à aldeia da minha vida, e fui por entre os carreiros lavrados procurar as sementes que atirei. Mas quando lá cheguei só encontrei flores, flores nos carreiros, murchando, sedentas de sonho e esperança. Depois de me ter afogado no medo, agora devo de regar de luz as flores que semeei e que por mim aguardam.

Amo as flores como me amo a mim, pois são as flores o invólucro da morte e é o corpo a paz da vida.

Têm seiva as flores, assim como tem alma o corpo; e é isso que analogicamente vivifica um e outro, mas são as flores mais belas que eu, visto que de mim vieram, pois é mais belo o vaso, quando trabalhado pelas mãos do oleiro, do que a argila antes encastelada.

É, é demasiado floral o escrito, sim e é composto de muita cora e vida. Sim pode ser bastante bem satirizado, sim podem domesticar a beleza de acordo com as vossas ironias e as prosas mais ou menos rocambolescas, ditirâmbicas e pérfidas. Podem ironizar e mal dizer, mas eu de vós rio por não saber sorrir de verdade. Não sabem amar, esqueceram-se de sorrir diante das simples cousas.

Sim, são cousas, cousas como estas que vos escrevo, são as cousas simples que são as melhores, mas são as quem menos atenções obtêm de vós, soberbos enaltecidos pelo orgulho próprio, que é, enfim, um breve pronúncia de uma morte que se aproxima a passos lestos.

Oh aldeia da minha infância…

Vejo-te a partir da janela da minha alma, e tu, que tão longe te escondes para lá do Tâmega, estás afinal tão perto, como perto está o céu para aquele que não deixou de sonhar, mesmo tendo os tantos a negarem-lhe o lugar nas nuvens, porque têm eles mesmo, raivas, invejas e medos, que não aprendam ainda a controlar. Mas como pode alguém apontar-lhes o dedo, quando tudo o que precisam é somente de vir à tona das águas de aquém mar, para voarem brilhando e sorrindo pelas nuvens da simplicidade, enquanto colhem as flores cultivadas nos carreiros de uma esperança tão humosa como frutífera.

(*) texto e foto

01ago19

 

 

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