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Um passeio diferente – COSTA DE CAPARICA, ONDE A ARTE XÁVEGA É UM “SACO” DE DESILUSÕES

Pelo menos para quem é natural de terras do litoral, em que a pesca costeira moldou comunidades e a paisagem natural e urbana ao longo de século, tanto social, económica e culturalmente. Sair uns dias de Ovar até ao sul do país e dar um saltinho à praia da Costa de Caparica, e aí deparar-se com a atividade da Arte Xávega segundo as suas características em cada zona piscatória, desde logo na tipologia das embarcações, ainda que com evidentes adaptações das suas principais típicas características, às condições do mar de cada praia. Torna-se irresistível contemplar as diferentes fases da faina deste tipo de pesca tradicional que perdemos no Furadouro, apesar da Candidatura para a Arte Xávega do concelho de Ovar, que então inclui o Furadouro, Esmoriz, Cortegaça e Torrão do Lameiro, ser inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

José Lopes

(texto e fotos)

No caso da Arte Xávega na Costa de Caparica, no concelho de Almada, que viu esta arte de pesca ser inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial em fevereiro de 2017, depois de um processo iniciado em 2015 pelo Município de Almada, com pressupostos então divulgados, como, “a promoção cultural, a salvaguarda do património, a defesa de uma atividade económica”, ou ainda “a divulgação e promoção turística desta região”.

Certamente vários destes fatores representarão impacto económico positivo no tecido económico e social nomeadamente da Costa da Caparica. Mas a nossa curiosidade, prendeu-se sobretudo nos efeitos práticos da inscrição da Arte Xávega da Caparica no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Aí, foi um “saco” de desilusão.

Ficamos então a saber, pela voz de pescadores em plena atividade piscatória numa agradável tarde de verão, que, apesar de um tal reconhecimento de Património Cultural Imaterial, a Arte Xávega, ali mesmo na Costa de Caparica, continua sobretudo dependente da muita paixão de proprietários e pescadores, que no mar ou em terra vão mantendo a nostalgia de épocas e safras de que já pouco resta. Sentimento de desilusão que registámos de quem logo respondeu, que esta arte de pesca, “em nada beneficia”, e segundo acrescentou um pescador com quem falamos, “isto já esteve para acabar”, ainda que tenha admitido, que entretanto surgiu um apoio para o combustível, mas sem grande entusiasmo neste desabafo, enquanto se aguardava pela chegada a terra do longo saco que só faria acentuar a desilusão, numa zona da costa em que, das cerca de duas dezenas de embarcações que chegaram a operar entre a Costa de Caparica e a Fonte da Telha, foi-nos dito que estavam agora limitados a meia dúzia.

O resultado da ultima tentativa de melhorar o balanço de capturas, em mais um dia de faina, não passaria da visível frustração nos rostos dos pescadores, que contrastando com o cenário dantesco de dias antes, em que o areal da praia tinha ficado cheio de peixes mortos, fundamentalmente cavala, o saco limitou-se a trazer 3 ou 4 raias, duas caixas de sardinhas ou uma caixa de carapau e de cavala, acompanhadas de mais um ou outro exemplar de espécies que poderiam melhorar as receitas económicas da safra.

A inglória mostra do pescado resultante de mais esta ida ao mar do barco “Canope” ao fim de um dia bem mais reconfortante para os banhistas, que “disputam” o areal com a habitual azáfama das várias fases desta atividade piscatória. Desde a entrada no mar à chegada a terra da característica embarcação adaptada ao tipo de mar na Costa de Caparica, e as operações que se seguem, do puxar das redes através do sistema mecânico dos tratores, que logo a seguir e de forma manual, as cordas vão sendo recolhidas diretamente no barco, para nova ida ao mar no dia seguinte. Também pelas mãos de homens e mulheres desta arte, vão orientando as “paredes” das redes de “cerco”, que, encaminham o peixe possível para o interior e o fundo do saco, em que os olhos de pescadores e curiosos na praia, estão fixos na expetativa do pescado que em terra é medido e pesado por técnicos antes da venda.

Enquanto o barco a motor e dois remos auxiliares, com quatro pescadores a bordo, vai ao largo na costa para largar as redes de “cerco”, deixando uma parte da corda amarrada a um dos tratores em terra, e regressa com a outra ponta da corda para serem puxadas em simultâneo, arrastando assim cadenciadamente a rede e o saco para a praia, em que já se forma uma plateia de curiosos e potenciais compradores de peixe fresco. Este intervalo de tempo é também precioso para agradáveis momentos de confraternização e inevitáveis diálogos entre pescadores e veraneantes, em que se partilham histórias, conhecimentos e naturalmente, as preocupações com o futuro desta arte de pesca, mesmo estando a Arte Xávega da Costa de Caparica inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

A experiencia desta viagem à Costa de Caparica em que se vivenciou e registou fotograficamente uma atividade tão familiar, como é a Arte Xávega, faz inevitavelmente lembrar a praia do Furadouro em que durante séculos foi um decisivo ponto estratégico de desenvolvimento da economia da pesca e fixação de povoado ligado a esta arte de pesca, que ali sobreviveu e foi base de sustento de muitas gerações de famílias, que agora se limitam a recordar os tempos de labuta no mar para lhe arrancar o pão, muitas vezes marcado por tragédias que fazem a história de uma candidatura também do Município de Ovar para a inscrição da Arte Xávega no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Um objetivo que no caso do Furadouro chegará demasiado tarde, e como observamos na Costa de Caparica, também não passará de um mero reconhecimento de resultados práticos discutíveis.

Um tal título, cada vez mais tardio para salvar esta arte de pesca tradicional no Furadouro em que literalmente acabou a atividade da Arte Xávega, no caso da Costa de Caparica permitiu pelo menos, como exemplo, o reconhecimento da “importância de que se reveste esta manifestação do património cultural imaterial pela sua profundidade histórica e evidente relação com práticas homólogas de outras comunidades piscatórias em Portugal, designadamente no litoral Centro e Norte”.

01ago19

 

 

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