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“Beijinho Chinês”

Weihua Tang

Bem-vindo a Pequim!’’- a voz do piloto despertou-me. Era impossível esconder o meu entusiasmo e alegria para matar todas as saudades pois, a última vez que estive na minha terra natal, foi em 2017.

Quando saí do aeroporto, o meu irmão já estava pronto para filmar, tirar fotos e, simplesmente, ajudar-me a levar a bagagem para irmos diretamente para o estacionamento e não me deu nenhum beijinho, nem um abraço, apenas trocámos umas palavras. Inacreditável, não é?

Para mim, sempre foi muitíssimo normal, porque ele nunca mostrou o seu lado afetivo ou carinhoso à minha frente. No momento em que entrei em casa dele, a minha cunhada já estava à minha espera, sorridente, para me dar as “boas-vindas”. Sem hesitar, abracei-me ao pescoço dela, alegremente, para lhe dar beijinhos, mas ela nem sequer levantou os braços. Imediatamente percebi que fui eu que mudei tanto, enquanto eles continuam na mesma.

A “triste realidade” deixa-me reagir decisivamente: “Na China, sê um chinês”! Os chineses não têm o hábito ou o costume de dar beijinhos como os ocidentais, porque o cumprimento fundamental é simples é, somente, um “aperto de mãos”.

Segundo a lenda, “apertar as mãos” teve origem na “Idade paleolítica” da humanidade. Quando os nossos antepassados caçavam e se envolviam em guerras, costumavam andar com pedras ou paus na mão, como uma arma. Quando se encontravam com desconhecidos, tinham de pousar as armas, caso não tivessem más-intenções. Além de estenderem a mão, também deixavam que as pessoas tocassem na sua palma da mão para mostrar que não escondiam nenhuma arma.

Por essa razão, os chineses continuam a ser mais “conservadores e cuidadosos”, como antigamente, e o hábito de “apertar as mãos” foi-se tornando uma “cortesia”, até aos dias de hoje.

Contudo, a cultura ocidental começou a enraizar-se na minha vida e no meu dia a dia, em Portugal. Aliás, os hábitos e costumes portugueses influenciaram-me imenso a mudar, a adaptar-me e a conseguir dar um passo enorme para conhecer melhor a cultura portuguesa.

Uma vez, quando falei com uma colega  da FLUP sobre o meu filho, depois da sua recém-chegada, em 2011, ela ficou surpreendida quando eu lhe disse que, em casa, entre os pais e o filho, não havia beijinhos, em momento algum. Assim que ouviu o que eu acabara de ter contado, ela sugeriu que deveríamos mostrar o amor e o carinho paternal ao nosso filho e deu-me muita força para convencer o meu filho a ser mais afetuoso.

– Filho, hoje a Dra. Maria disse-me que os portugueses costumam dar beijinhos, antes de saírem da casa, quando chegam a casa, quando se deitam ou levantam. Estamos a viver aqui, vamos aprender?

– Não, mãe. Recusou de imediato.

– Nem queres tentar um bocadinho? Insisti outra vez.

– (Silêncio)

– Vamos experimentar? Continuei a convencê-lo.

– Vou pensar! – disse ele relutantemente e envergonhado, sem olhar para mim.

No dia seguinte, esperava ansiosa, no sofa, para ver a reação do meu filho, assim que ele entrasse em casa.

– Então, filho, que tal? Pensaste bem?

– Sim, mãe. Vou aceitar a sugestão da Dra Maria.

– Ótimo!

– E vou dar-lhe mais uma oferta. Acrescentou ele.

Entretanto, ele deu-me dois beijinhos e mais um na testa. Sendo mãe, nesta situação, já não consegui arranjar nenhuma palavra para expressar o meu “sentimento de felicidade”. Estes foram, unicamente, os primeiros três beijinhos do meu filho único, crescido, como adulto. A partir daí, nasceu mais uma cultura misturada na nossa família — o “beijinho chinês!”

Portanto, cheguei a mais uma conclusão óbvia: “Em Portugal, sê um português”! Quando contei à Dra Maria, ela ficou emocionada e comovida…

Curiosamente, aproveitei as minhas férias na China para apreciar a obra “Uma Voz Incomodada” do escritor Miguel Correia, para matar as saudades da língua portuguesa. As expressões típicas dos “Tugas”, até alguns “calões” fazem-me lembrar os fenómenos e paisagens especiais em sítios públicos: “beijo, beijinho, beijoca, beijão” (soa a feijão) e, acima de tudo, fiquei impressionada e encantada quando ouvi “beijinho grande”!

Raramente juro mas, desta vez, vou jurar serenamente: mal aterre o avião, em Portugal, a primeira coisa que vou dar e, absolutamente de graça, será o meu “beijinho de chino-tuga”…

01set19

 

 

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1 Comment

  1. Ana

    É muito interessante a forma como as pessoas se cumprimentam em países ou continentes diferentes, não deixando de ser educadas na forma como se expressam.
    Em 1996, quando estivemos a viver nos Estados Unidos, também tivemos situações engraçadas.
    Uma vez foi com uma rapariga americana, em que fui apresentada e imediatamente me aproximei para dar 2 beijinhos… ela deu um salto para trás!!! Até me assustei…
    Depois percebi que tinha o braço esticado para um aperto de mão.
    Outra vez, fomos apresentados a americanos e cumprimentamos com aperto de mão… da vez seguinte, voltamos a esticar a mão… mas eles disseram que só se cumprimenta a primeira vez. Das vezes seguintes, apenas se diz: “good morning!” , “Hello “, “Hi” ou outro cumprimento qualquer.
    Claro que com a convivência, nós fomos alterando a forma como cumprimentávamos as pessoas e a ter o cuidado de não criar situações em que as pessoas não se sentiam à vontade.
    A determinada altura, já eram os americanos que achavam piada à nossa primeira reação de aproximar para dar beijinho (às vezes também nos esquecíamos e acabávamos por nos aproximar e corrigíamos depois para o aperto de mão), e começaram eles a cumprimentar de beijinho!
    Acho que conseguimos alterar alguns hábitos dos estrangeiros mas também aprendemos a saber manter a distância para não deixar os outros desconfortáveis.
    E os franceses com os 3 ou 4 beijinhos? Essa também não é fácil… quando pensamos que is beijinhos já acabaram e nos afastamos depôs do seguido, eles ficam pendurados à espera do terceiro ou até do quarto beijinho!
    Não é fácil…
    Gostei muito do texto e aprecio muito ler sobre estes temas relacionados com hábitos e diferenças culturais.

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